Reportagem publicada nesta edição do Correio do Estado revela um dado que deveria acender um sinal de alerta em Mato Grosso do Sul: a inadimplência das empresas dobrou em uma década. O aumento expressivo não pode ser tratado como simples estatística. Ele reflete problemas estruturais da gestão empresarial, da oferta de crédito e da forma como parte do setor produtivo encara a responsabilidade financeira.
É verdade que, dentro desse quadro, há um aspecto atenuante: a ampliação do crédito para pequenas e médias empresas ao longo dos últimos anos. Esse acesso mais amplo ao financiamento contribuiu para a expansão de negócios, a formalização de atividades e o surgimento de novas oportunidades.
Mas não se pode ignorar que esse mesmo movimento de expansão trouxe também maior exposição ao risco de endividamento, especialmente em um ambiente econômico marcado pela instabilidade.
Os números da Serasa Experian, um dos maiores gestores de dívidas do mundo, ajudam a dimensionar a gravidade do problema. Eles mostram não apenas o peso da inadimplência, mas também que há falhas recorrentes na forma como as empresas lidam com sua gestão financeira.
O cenário de juros elevados agrava a situação, mas não explica sozinho o crescimento da inadimplência.
É possível considerar que parte dessa crise decorre de uma enxurrada de crédito barato contratada há cerca de três anos, em um momento de juros historicamente baixos. Muitos empresários apostaram em financiamentos sem prever a escalada de custos futuros.
Agora, com a taxa básica de juros ainda em patamar elevado, a conta chegou. No entanto, essa explicação cobre apenas parte do fenômeno. O problema é mais profundo e exige reflexão.
Nos últimos anos, vieram à tona estratégias jurídicas questionáveis que se transformaram em ferramentas de fuga da responsabilidade financeira. No agronegócio, multiplicaram-se os pedidos de recuperação judicial, muitas vezes utilizados não como instrumento legítimo de reestruturação, mas como artifício para escapar de dívidas com bancos e fornecedores.
Outros setores da economia também têm mostrado práticas semelhantes, revelando não apenas dificuldades conjunturais, mas também uma cultura de irresponsabilidade no trato com o crédito.
É preciso reafirmar o óbvio: crédito é bom, mas deve ser usado com responsabilidade. Ele é combustível para o crescimento, mas quando mal administrado, transforma-se em armadilha.
A gestão empresarial madura precisa ser capaz de equilibrar oportunidades de investimento com a capacidade real de pagamento, evitando aventuras que coloquem em risco não apenas o patrimônio de sócios, mas empregos, fornecedores e consumidores.
Empresas saudáveis são essenciais para o desenvolvimento econômico. São elas que geram empregos, movimentam a economia local e fazem o Estado e o País crescerem. Quando a inadimplência se torna regra e a irresponsabilidade financeira se espalha, perde-se a confiança no ambiente de negócios e mina-se a credibilidade necessária para atrair investimentos.
O momento é de aprender com os erros recentes. Mato Grosso do Sul precisa de empreendedores que entendam que gestão responsável não é obstáculo, mas condição para crescer de forma sustentável. Não podemos nos acomodar diante do avanço da inadimplência. Mais do que números, está em jogo o futuro da economia.