Desde fevereiro deste ano o fenômeno da proliferação de plantas aquáticas está causando estranheza e prejuízos ambientais e financeiros aos proprietários de casas de campo e fazendeiros que exploram terras às margens dos 1,5 mil hectares do lago da hidrelétrica de Mimoso, instalada a cerca de 40 quilômetros abaixo da cidade de Ribas do Rio Pardo.
Por conta da infestação, o valor dos imóveis despencou e até atividades de irrigação foram prejudicadas. A controladora da usina também está tendo gastos extras para manter a geração de energia.
A concessionária, embora não queira “declara guerra” contra ninguém, com certeza vai tentar repassar para as tarifas o gasto extra que está tendo. Ou seja, vai sobrar para o bolso do consumidor.
Até agora não existe explicação para esta repentina proliferação. Porém, a única mudança na região foi a ativação da fábrica de celulose em Ribas do Rio Pardo, alguns quilômetros acima do lago.
Tanto as autoridades ambientais quanto a proprietária da fábrica garantem que os cerca de 180 milhões de litros diários de rejeitos recebem o tratamento previsto pela legislação. Não afirmam, porém, que estes rejeitos estão livres do material orgânico que serve de alimento destas plantas aquáticas.
E, caso algum dia ficar comprovado ou se algum dia as autoridades admitirem que o fenômeno está diretamente ligado ao despejo destes efluentes, toda a cadeia produtiva da celulose, que literalmente está explodindo e revolucionando parte da economia de Mato Grosso do Sul, estará na berlinda.
As três usinas que já estão em funcionamento despejam todos os seus dejetos na bacia hidrográfica do Rio Paraná. As outras duas que estão prestes a sair do papel (Arauco e Bracell) farão o mesmo.
O lago de Jupiá, que tem cerca de 33 mil hectares e fluxo de água mais de 10 vezes maior que a do Mimoso, recebe os rejeitos de uma das fábricas faz pouco mais de uma década e também já tem problema crônico com a proliferação de plantas aquáticas.
A partir do final de 2027 receberá os rejeitos da fábrica que está em construção em Inocência, que vai despejar cerca de 300 milhões de litros de rejeitos diariamente no Rio Sucuriú.
E, mesmo que as plantas sejam liberadas tanto em Jupiá quanto na Usina de Mimoso, toda esta água, tomada por nutrientes, fica represada no gigantesco lago da Usina Sérgio Mota, que tem em torno de 225 mil hectares. O lago também receberá os rejeitos da fábrica que será construída em Bataguassu.
E, por mais que demore, cedo ou tarde todo este gigantesco lago tende a apresentar fenômeno semelhante ao do “laguinho” da Usina de Mimoso.
Ou seja, caso realmente as causas da proliferação das plantas sejam os dejetos das indústrias de celulose, é urgente que as indústrias repensem suas formas de tratamento dos dejetos.
Se não estão preocupadas com a sobrevivência do Rio Paraná e de dois de seus importantes afluentes (Pardo e Sucuriú) elas precisam ter em mente a própria sobreviência. Três das indústrias captam água dos seus lagos. E, se a proliferação das plantas se alastrar no ritmo atual, elas terão dificuldades em captar os bilhões de litros de água de que necessitam.
As autoridades locais garantem que a poluição, responsável pelo fechamento de indústrias de celulose ao redor do mundo nos últimos anos, faz parte do passado e que atualmente o setor mudou de patamar. O lago da usina do Mimoso, existente há mais de meio século, porém, está colocando uma pulga atrás da orelha de muita gente.