Artigos e Opinião

EDITORIAL

O caminho para reduzir feminicídios

Os novos protocolos conseguiram salvar vidas, e MS demonstra que o combate ao feminicídio não depende só de leis mais severas, mas também da eficiência na sua aplicação

A redução de quase 30% nos casos de feminicídio em Mato Grosso do Sul, revelada pelo Correio do Estado nesta edição, merece ser recebida com esperança, mas também com prudência.

Nenhum indicador positivo autoriza comemorações quando ainda há mulheres sendo assassinadas pelo simples fato de serem mulheres. Ainda assim, os números mostram que políticas públicas bem executadas podem salvar vidas e que a resposta do Estado faz diferença quando atua no momento certo.

A explicação apresentada pela Polícia Civil faz sentido. Ao reduzir drasticamente o tempo entre o registro da violência doméstica e a adoção das medidas protetivas, o Estado interrompe, em muitos casos, a escalada da agressão antes que ela chegue ao desfecho mais trágico.

A rapidez na intimação do agressor funciona como fator de dissuasão. Quem antes encontrava um sistema lento e burocrático, agora, depara-se rapidamente com a presença do Estado, da Justiça e da responsabilização.

É lamentável reconhecer que esse aperfeiçoamento institucional nasceu da dor. Foram necessários anos de estatísticas alarmantes e casos que chocaram Mato Grosso do Sul para que protocolos fossem revistos, fluxos fossem acelerados e o atendimento às vítimas passasse a receber prioridade absoluta.

O importante, agora, é que essa reação não seja passageira. Os resultados indicam que os novos procedimentos estão funcionando e precisam ser preservados, aperfeiçoados e blindados contra qualquer retrocesso administrativo.

Mas seria um grave equívoco acreditar que apenas polícia, investigação e punição resolverão o problema. O feminicídio é o último estágio de uma cultura de violência contra a mulher que começa muito antes da agressão física.

Ela se manifesta no controle, na humilhação, nas ameaças, na naturalização do machismo e na falsa ideia de posse sobre a companheira.

Essa mudança depende de toda a sociedade. Exige famílias que eduquem para o respeito, escolas que formem cidadãos conscientes e instituições comprometidas com a igualdade.

Exige também uma reflexão sobre o ambiente das redes sociais, em que discursos de ódio, misoginia e intolerância encontram espaço privilegiado porque algoritmos frequentemente premiam aquilo que gera conflito e engajamento, relegando o respeito e a convivência civilizada a um plano secundário.

Nada disso diminui a responsabilidade individual de quem agride. Seja qual for a justificativa apresentada, não existe explicação para a violência contra a mulher.

O agressor deve responder por seus atos com o rigor da lei. Ao mesmo tempo, cabe ao poder público continuar aperfeiçoando mecanismos capazes de impedir que ameaças se transformem em assassinatos.

Se os novos protocolos conseguiram salvar vidas, Mato Grosso do Sul demonstra que o combate ao feminicídio não depende apenas de leis mais severas, mas também da eficiência na sua aplicação.

O desafio, agora, é fazer com que os números continuem caindo até que deixem de representar vidas interrompidas e famílias destruídas.

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