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Tsunami conservador

A reação popular utilizou o sufrágio como o instrumento mais legítimo de freios e contrapesos

O primeiro turno selou mais do que um resultado eleitoral, consagrou uma transfiguração profunda na geografia política do Brasil. O avanço avassalador de candidaturas de direita e centro-direita no Congresso e nos governos estaduais reconfigurou os eixos de poder da República.

Trata-se de um verdadeiro tsunami conservador, movido por uma indignação social articulada. Contudo, para compreender a real magnitude dessa onda, é preciso olhar para a Praça dos Três Poderes: o Supremo Tribunal Federal (STF) se tornou o principal catalisador desse processo por um clássico efeito bumerangue.

Ao longo dos últimos anos, a corte assumiu um protagonismo atípico na vida pública nacional. Sob o pretexto de resguardar a ordem constitucional, o STF frequentemente ultrapassou as fronteiras da autocontenção.

A judicialização ostensiva – marcada por condenações severas, restrições de fala, bloqueios de redes e intervenções na reta final – encontrou contraste direto na anulação dos processos da Lava Jato, que devolveram Lula ao jogo.

Onde a toga alegou técnica processual, o eleitor leu perseguição e blindagem seletiva. Ao trocar a neutralidade de árbitro pela tutela política, o ativismo judicial converteu sanção em “efeito mártir” e transformou a rejeição ao STF no combustível eleitoral mais potente do País.

As urnas refletiram esse embate com precisão matemática. Flávio Bolsonaro liderou a corrida presidencial com 47,03% dos votos válidos contra 45,16% de Lula, mandando a decisão para 25 de outubro.

Enquanto o herdeiro somou cinco milhões de votos a mais do que o pai em 2022, o incumbente perdeu 3,4 milhões e registrou o pior desempenho petista na etapa inicial desde 1998.

Nos estados, a onda foi igualmente avassaladora: das 20 disputas resolvidas de primeira, 13 consagraram nomes de direita, com vitórias expressivas de Tarcísio de Freitas em São Paulo, Sergio Moro no Paraná e Cleitinho Azevedo em Minas Gerais, isolando o PT em sua cidadela nordestina.

A reação popular utilizou o sufrágio como o instrumento mais legítimo de freios e contrapesos.

O Senado, arena constitucional para o controle do Judiciário, entregou a resposta com máxima nitidez institucional: o PL elegeu 19 senadores e atingirá 28 cadeiras em 2027 – o triplo da bancada do PT.

Com aliados do PP, Republicanos, União e Novo, o bloco conservador aproxima-se de 60% do plenário.

Vitórias no Distrito Federal, com Michelle Bolsonaro e Bia Kicis, e em Santa Catarina, somadas à eleição de críticos contundentes como Deltan Dallagnol e Marcel van Hattem, estruturam a maioria necessária para impor sabatinas rigorosas, limitar decisões monocráticas e pautar eventuais impeachments.

Na Câmara, o PL atingiu o recorde de 121 deputados federais, puxado por votações históricas de Nikolas Ferreira e Lucas Pavanato.

A história demonstra que decisões judiciais não substituem a soberania popular nem pacificam controvérsias pela coerção. Ao tentar governar o conflito político, o STF acabou acelerando o levante que pretendia conter.

O tsunami eleitoral deixa um recado indiscutível para a República: quando a toga invade o terreno da política, a democracia reage e as urnas se encarregam de reestabelecer a vontade popular.

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