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Governo reeleito, casa por arrumar

Ministérios, estatais e diretorias são redesenhados para o novo mandato

Quando se anuncia uma troca de comando, algo costuma acontecer com a agenda de decisões. E não só quando muda o governo: numa reeleição, ministérios, estatais e diretorias também são redesenhados para o novo mandato.

Projetos entram em espera, mudanças estruturais são adiadas, e a frase que se ouve nos corredores é sempre parecida: melhor esperar o próximo. Soa prudente. Na maioria das vezes é só paralisia com boas maneiras.

O psicólogo Martin Seligman descreveu três leituras distorcidas que transformam um revés em sentença. A primeira trata o episódio como permanente: “aqui vai ser sempre instável”. A segunda deixa uma parte ruim contaminar tudo: “com esse contexto, nenhuma iniciativa se sustenta”.

A terceira converte o fato em identidade: “isso prova que nada aqui vale a pena”. Em ambientes de transição, as três aparecem juntas, e é a combinação delas que faz a incerteza virar justificativa para não fazer nada.

Vivi isso de perto em 2018, no que foi provavelmente o período mais adverso da minha trajetória no BNDES.

O banco estava no auge da pressão da Lava Jato, a imagem institucional havia sido duramente atingida e o ambiente interno era de medo e desconfiança.

Em março, um novo presidente assumiu com a missão de implementar o planejamento estratégico formulado no ano anterior. Eu era o diretor responsável por essa implementação.

A resistência veio imediata e não de todo sem razão. Por que fazer mudanças estruturais no último ano de uma gestão, se o próximo comando poderia chegar com outra agenda e desfazer tudo? O argumento tinha lógica e carregava as três distorções de Seligman embutidas.

Nossa premissa foi outra. Não cabia paralisar o banco por precaução. Cabia preparar a casa para quem chegasse, fosse quem fosse. Essa leitura não era otimismo ingênuo. Era a recusa de deixar que a incerteza decidisse por nós.

O que se seguiu foi extenso e exigente. Reformulamos um processo de crédito que existia havia 40 anos, separando as funções de análise e de acompanhamento das operações para fortalecer o compliance.

Reestruturamos o organograma, com corte de cargos e redefinição de responsabilidades. Lançamos o BNDES Garagem, programa de inovação aberta, e avançamos no mapa de transformação digital. Tudo isso num ambiente em que parte das pessoas ainda esperava, com alguma razão, que o esforço fosse revertido.

Não foi. Neste ano, o processo de crédito reformulado naquele período permaneceu. A segregação de funções permaneceu. O BNDES Garagem permaneceu. O que foi construído sob máxima pressão sobreviveu à troca de comando e ao tempo.

A lição é simples, e por isso incômoda. Uma organização que trata adversidade como sentença perde a capacidade de agir antes mesmo de perder recursos. Já a que mantém viva a pergunta sobre o que ainda é possível, mesmo sem garantia de continuidade, preserva a capacidade de construir.

Para quem está de saída, vale perguntar: o que eu deixo funcionando e o que deixo apenas pendente? Para quem está chegando, a pergunta é outra: o que já existe aqui que merece ser preservado antes de eu impor a minha marca?

E você, na última transição que viveu, esperou o próximo comando ou preparou a casa para ele?

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