Artigos e Opinião

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Amor caro aos pets em um país endividado

O mesmo Brasil que abraça seus pets é o Brasil onde mais da metade da população está endividada

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O Brasil está mais cheio de animais de estimação do que nunca. Eles estão nas salas, nos quartos, nos apartamentos apertados e nas casas improvisadas.

Chegam por adoção, por impulso, por presente, por solidão. Tornam-se companhia, refúgio emocional, alívio silencioso para uma população cada vez mais pressionada.

E não é pouca coisa. O País já soma cerca de 160 milhões de pets e ocupa uma das primeiras posições no mundo nesse mercado.

Mais do que números, há uma mudança de comportamento. O animal deixou de ser apenas um animal. Virou membro da família. Em muitos casos, virou o único vínculo afetivo estável.

Até aqui, tudo parece humano. Sensível. Necessário. O problema começa quando o afeto encontra a realidade econômica.

O mesmo Brasil que abraça seus pets é o Brasil onde mais da metade da população está endividada. Um país onde milhões vivem com o salário mínimo, tentando equilibrar contas básicas.

Um país onde a renda não cobre o essencial, mas, ainda assim, precisa cobrir ração, vacina, remédio, banho, consulta. E cobre. Ou tenta.

Os dados mostram que 80% dos tutores afirmam gastar o que for necessário para manter o pet seguro e saudável . Essa frase, que poderia soar como cuidado, também revela outra coisa. Um sacrifício silencioso. Uma escolha difícil. Um tipo de prioridade que não nasce do conforto, mas da carência.

Não se trata de luxo. Trata-se de necessidade emocional. Em um cenário de insegurança, solidão e pressão psicológica, o animal vira apoio. Vira companhia onde falta gente. Vira presença onde falta estabilidade. Vira afeto onde o sistema não entrega dignidade.

Mas há um custo. E esse custo cresce. Alimentação, saúde, higiene, adaptação da casa. O mercado pet se expande porque existe demanda real.

Uma demanda movida por sentimento, não por sobra financeira. O brasileiro não está gastando porque pode, está gastando porque precisa sentir que não está sozinho.

E é aqui que o retrato se torna mais duro. Um país endividado, com renda comprimida, sustentando um dos maiores mercados pet do mundo.

Uma população que mal consegue manter a própria estabilidade financeira assumindo responsabilidades afetivas que também são econômicas. Não por irresponsabilidade, mas por sobrevivência emocional.

É uma manobra inédita. Nunca se viu, em escala tão grande, tanta gente vivendo no limite e, ao mesmo tempo, sustentando outra vida. Alimentando, cuidando, protegendo. Não por sobra, mas por necessidade de sentido.

O problema não está no afeto. Está na ausência de estrutura. Enquanto o Estado não resolve o básico e o mercado não distribui renda de forma justa, as pessoas criam suas próprias formas de equilíbrio. E muitas vezes esse equilíbrio vem com quatro patas, olhar fiel e silêncio compreensivo.

Só que o amor não paga boletos. E quando a conta aperta, quem sofre não é apenas o tutor. É o animal também. Crescem os abandonos, cresce a informalidade no cuidado, cresce a precarização até no afeto.

O Brasil está mais sensível, mas continua desigual. O aumento dos pets nos lares não é apenas tendência de consumo. É sintoma. Sintoma de um país que oferece pouco suporte humano e vê as pessoas buscarem abrigo onde conseguem.

No fim, a pergunta que fica não é sobre quantos animais cabem nas casas brasileiras. É sobre quantas pessoas estão sobrevivendo no limite e transformando o afeto em resistência diária.

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Por que trocar o prazer das telas do celular pelo prazer da leitura

Este apego moderno tem substituído hábitos antigos mais saudáveis, como o da leitura

29/04/2026 07h45

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Minha desconfiança com o entretenimento instantâneo começou numa manhã de sexta-feira, a caminho do trabalho. A situação trivial, naquele vagão de metrô, teria sido há muito esquecida, salvo por um detalhe curioso: todas as pessoas sentadas, dentro do meu campo visual, tinham a cabeça inclinada e os olhos pregados em seus respectivos celulares.

Havia, entre elas, rostos curiosos e concentrados; alguns pareciam divertidos e outros, tristes. O único traço comum a todos era o isolamento social.

Vivenciamos, com o advento dos modernos aparelhos celulares, uma era de conforto, comunicação e acesso à informação sem precedentes.

Informação no sentido mais amplo possível: da singela música infantil ao esquema de funcionamento de um artefato bélico nuclear, passando por toda a sorte de conteúdo pensado para capturar a atenção do usuário pelo maior período de tempo possível.

Onipresentes na rede, algoritmos eficientes identificam preferências individuais, realimentando o usuário em um interminável carrossel de novidades afins.

É sabido que o cérebro humano tende a repetir ações que ativem o sistema de recompensa baseado nos chamados “hormônios do prazer”, cuja finalidade é o reforço de comportamentos favoráveis à sobrevivência do indivíduo, como o estresse da caça, a concentração do aprendizado ou o esforço físico produtivo.

Como não há dilemas de sobrevivência envolvidos na interminável rolagem da telinha, temos, nesse caso, o reforço de um hábito que leva o usuário a consumir horas do seu tempo numa atividade absolutamente estéril, tudo pelas endorfinas “baratas” e instantâneas proporcionadas pelo celular.

Este apego moderno tem substituído hábitos antigos mais saudáveis, como o da leitura. Ler exige, contrariamente ao entretenimento instantâneo, investimento de longo prazo.

Adiando a recompensa, comunicamos ao nosso cérebro que coisas boas exigem esforço, investimento e participação. Ler demanda esforço intelectual, disciplina e comprometimento. É treino mental.

Treino que abre portas para a satisfação da tarefa cumprida, do trabalho bem-feito, do aprendizado e da realização pessoal.

Se o usuário compulsivo das telas tende à preguiça e à procrastinação – pois está viciado em recompensas imediatas –, o leitor assíduo treina sua mente para as demandas da vida e para a ação.

E aí, de qual lado você quer ficar?

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Geopolítica da pressão

Ao revogar permissões de sobrevoo sem aviso prévio, Seychelles, Maurício e Madagascar fecharam seus espaços aéreos à comitiva taiwanesa

29/04/2026 07h30

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No cenário das relações internacionais, a logística de uma viagem de Estado raramente ocupa as manchetes, a menos que se torne o epicentro de uma crise de soberania. Recentemente, a visita oficial do presidente de Taiwan, Lai Ching-te, ao Reino de Eswatini – aliado estratégico na África – foi interrompida por uma manobra geopolítica coordenada.

Ao revogar permissões de sobrevoo sem aviso prévio, Seychelles, Maurício e Madagascar fecharam seus espaços aéreos à comitiva taiwanesa, expondo a face mais agressiva da influência de Pequim sobre nações em desenvolvimento.

Este episódio sinaliza como a segurança da aviação civil e o Direito Internacional estão sendo subjugados por táticas de coerção econômica.

A análise dos dados revela que a decisão dessas três nações não foi um ato de soberania, mas uma concessão necessária diante de uma exposição financeira sem precedentes.

Em Seychelles, a influência de Pequim manifesta-se por meio da dependência direta. Em março de 2026, o governo chinês liberou um subsídio de US$ 14,5 milhões para projetos de habitação e saúde.

Com as importações da China crescendo 164% entre 2025 e 2026, o país tornou-se dependente desse fluxo para manter sua estabilidade social. O custo político de autorizar o voo de Taiwan superava o risco de comprometer o capital essencial para suas obras públicas.

No caso de Maurício, a alavancagem é comercial. Primeiro país africano a firmar um acordo de livre comércio (FTA) com a China, a ilha viu as importações de tecnologia chinesa saltarem 170% em fevereiro de 2026.

A integração das cadeias de suprimento e a presença maciça de bancos chineses transformaram o país em um hub financeiro para Pequim. A revogação da permissão de sobrevoo reflete um alinhamento imposto pelo peso das relações que hoje sustentam a economia mauriciana.

Madagascar apresenta o cenário mais crítico de assimetria. O país enfrenta um deficit comercial em que as importações chinesas superam as exportações em uma razão de 10 para 1.

Sem alternativas imediatas de crédito, o governo malgaxe encontra-se em uma posição de vulnerabilidade que permite a Pequim ditar termos que extrapolam o comércio, interferindo diretamente na gestão de seu espaço aéreo.

Este incidente expõe a transformação de protocolos globais em ferramentas de chantagem. Ao forçar nações terceiras a descumprirem permissões de voo, Pequim ignora convenções de aviação civil e subverte o princípio da soberania nacional.

Isolar uma democracia como Taiwan fere a dignidade de seus 23 milhões de cidadãos e estabelece um precedente perigoso: quando espaços aéreos são “armados” para servir a interesses expansionistas, a previsibilidade institucional deixa de existir.

Este episódio deve servir como um alerta urgente para a comunidade internacional: a dependência econômica absoluta em relação à China tem se mostrado, na prática, uma renúncia gradual à soberania nacional.

Se as democracias globais não fortalecerem sua resiliência institucional e buscarem alternativas viáveis à “diplomacia da dívida”, a ordem internacional baseada em regras será irremediavelmente substituída por um sistema de vassalagem financeira em que o direito de ir e vir é ditado por quem detém o crédito.

A segurança de chefes de Estado e a integridade das rotas globais não podem permanecer reféns de interesses autocráticos expansionistas.

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