Artigos e Opinião

CENAS

André Luiz Alvez: "A revolta dos remédios"

Publicitário e escritor ([email protected])

Redação

10/03/2016 - 16h39
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Na cozinha aqui de casa, mais precisamente na prateleira, existe uma caixa de madeira na qual guardamos remédios. Naquela noite de tempestade, em que a luz acabou de repente, com um pires de vela acesa nas mãos, me aproximei da prateleira. 

A tempestade apagou os meus sentidos e num estalo me vi perdido entre meus remédios. Estavam reunidos numa espécie de assembleia.  Tapei um dos ouvidos com a mão e aproximei o outro bem perto deles: Corus era o mais exaltado: “Sou eu que controlo a pressão arterial, portanto, mereço o posto de rei da prateleira”. 

Ao lado dele, Cibofibrato balançava a cabeça em forma de apoio, já pensando no cargo de primeiro-ministro. Rompendo entre eles, Metformina se ergueu colérica: “Eu controlo o diabetes, sem mim, de nada adianta controlar a pressão”. 

Concordei feito um assessor bajulador, ciente da importância da Metformina, sem a qual meu sangue adoça. Como os ânimos permaneceram exaltados, naquela de conciliadora, Paracetamol se colocou à disposição para assumir o cargo, caso não houvesse consenso.  Fosfato de Sitagliptina ameaçou usar a força. “É na luta que impérios se constroem!”, bradou, conseguindo calar a turba por instantes.  

Sonrizal rompeu o silêncio, a voz repleta de xis, ameaçando se atirar num copo d’água se não fosse atendido: “E nem quero ser rei, apenas que parem de tirar o sarro no meu jeito de falar”. Valda, a pastilha, sorriu, cínica. Alopurinol, Leite de Magnésio e um Xarope maltrapilho se uniram, já lançando o lema “unidos venceremos!”.  

Tentei despertar beliscando meu braço, mas Mertiolate me olhou de um jeito tão estranho que acabei recuando, não sem antes prometer em pensamentos que, assim que acordasse, buscaria tratamento médico. Foi só pensar nisso que um grupo de vitaminas olhou para mim com cumplicidade.

A passos vagarosos, dois remédios para dormir se juntaram à turba, pouco se incomodando com o Xarope maltrapilho que gritou: “Vocês vão ver o que é bom para tosse!”. Um tanto perdido, Vick Vaporube se mostrava chateado por não ter nada para desentupir e, ao passar perto de mim, cumprimentou o meu nariz, seu velho conhecido.

“Cegos!”, gritou o colírio, batendo no peito, na arrogância própria dos lubrificantes. “Não percebem que para ser rei é necessário primeiro enxergar?”. Me preparei para concordar quando ouvi atrás de mim uma voz metálica: “Cale-se, você está com a validade vencida!”, alertou o antialérgico. 

Largada num canto, Dipirona mantinha o olhar perdido, indiferente à revolta, perdida na dor da saudade de um amor do passado, uma sirigaita chamada Cibalena, que partiu sem se despedir. E tudo se calou quando o pote de Emulsão de Scott se aproximou, arrastando o seu lume de gorduras. 

Ninguém se atreveu falar, completamente lesos, razão do respeito e admiração por um remédio que, desde que chegou à prateleira, jamais fora usado. E a luz voltou me trazendo à realidade, tonto, cansado, sem saber ao certo qual remédio deveria tomar.

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Quando a busca por saúde coloca a vida em risco

Luiza Esteves - Médica endocrinologista 

24/10/2026 07h20

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Minha avó sempre dizia que não existem soluções simples para problemas difíceis, e levei anos para entender o quanto ela tinha razão. Hoje, como endocrinologista, vejo essa verdade se repetir todos os dias. 

No consultório, acompanho principalmente pacientes com obesidade e mulheres na menopausa. Quanto mais estudo essas condições, mais percebo que ambas envolvem uma fisiologia profundamente complexa. Na obesidade, ocorre uma desregulação dos hormônios responsáveis pelo controle da fome e da saciedade. Já na menopausa, há uma queda significativa na produção dos hormônios femininos. Em comum, as duas deixam as pessoas mais vulneráveis a promessas de soluções rápidas.

Nas redes sociais, porém, essa complexidade vira mercadoria e é reduzida a fórmulas simplistas. Surgem o "chá seca-barriga" para emagrecer e a "fórmula mágica" para aliviar o cansaço e os fogachos da menopausa. Afinal, quem não gostaria de uma solução rápida?

O problema é que o rótulo "100% natural" muitas vezes mascara riscos graves e cria a ilusão de um tratamento inofensivo. Natural, porém, não é sinônimo de seguro. A cocaína é derivada de uma planta e nem por isso seu uso é recomendado.

O grande risco por trás dessas promessas reside na adulteração criminosa de chás e suplementos com potentes fármacos sintéticos. E isso não é especulação: laudos da Polícia Científica de Santa Catarina já identificaram substâncias como anfetaminas, antidepressivos, ansiolíticos e até alucinógenos em pílulas emagrecedoras e outros produtos vendidos livremente na internet como "naturais". Nos Estados Unidos, o cenário se repete, com dezenas de suplementos para perda de peso recolhidos por conterem substâncias farmacológicas não declaradas no rótulo.

A exposição contínua a essas substâncias pode sobrecarregar órgãos vitais e o sistema cardiovascular, provocando reações adversas graves. Os usuários relatam desde sede excessiva e dores de cabeça até tonturas intensas e episódios de perda de consciência, que podem levar à internação em unidades de terapia intensiva.

Parte desse perigo decorre também da combinação de diferentes compostos farmacológicos, em dosagens desconhecidas e sem controle sanitário. Nessas condições, transformam-se em verdadeiras bombas-relógio para o organismo, capazes de causar complicações graves e até a morte.

Os dados mostram que não se trata de casos isolados. Entre 2020 e 2025, 63% dos processos de investigação instaurados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) envolveram suplementos alimentares irregulares, muitos deles associados a promessas de resultados estéticos milagrosos. A agência mantém, inclusive, uma extensa lista de emagrecedores proibidos que, infelizmente, continuam circulando de forma clandestina.

Mas os danos não se limitam à saúde física. Quando a primeira "solução milagrosa" fracassa, surge a frustração. O resultado não corresponde à promessa, e a culpa aparece: por que tanta gente conseguiu e eu não? Esse sentimento de fracasso aprofunda a vulnerabilidade e alimenta um ciclo perigoso. A pessoa continua buscando soluções rápidas, gastando dinheiro, perdendo tempo e colocando a própria saúde em risco.

O fato é que o verdadeiro tratamento da obesidade não cabe em uma cápsula comprada às escondidas na internet. Ele exige uma equipe multidisciplinar, mudanças progressivas no estilo de vida e, quando necessário, o uso de medicamentos prescritos com critério e monitoramento.

Vale, então, uma pergunta honesta: a busca é realmente por saúde ou por um padrão estético a ser atingido a qualquer custo? Enquanto não enfrentarmos essa pergunta com honestidade, continuaremos reféns de promessas fáceis e dispostos a arriscar a própria saúde por qualquer solução que prometa bem-estar imediato.

Artigos

Sarampo avança nas Américas e preocupa o Brasil

Rosane Orth Argenta - Gestora de saúde

24/10/2026 07h10

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O avanço do sarampo nos Estados Unidos e em outros países das Américas chama atenção para os riscos da queda na cobertura vacinal. Quando menos pessoas estão protegidas, aumentam as chances de o vírus se espalhar. Além de ser altamente contagiosa, a doença pode causar complicações graves, como pneumonia e inflamação do cérebro. De acordo com dados da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), Estados Unidos, Guatemala, México, Peru e Canadá concentram mais de 95% dos casos confirmados de sarampo nas Américas este ano.

Segundo o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), os EUA chegaram a 4.410 casos confirmados e três óbitos pela doença até o dia 15, maior índice registrado em mais de três décadas. Até o dia 5, a Pensilvânia somava 1,4 mil casos, cinco óbitos e 198 hospitalizações de acordo com as autoridades de saúde, enquanto Nova York declarou emergência recentemente após 108 registros. Esse cenário reforça como a hesitação em vacinar-se e a baixa cobertura favorecem a disseminação do sarampo. Quando há muitas pessoas suscetíveis, o vírus encontra brechas para se espalhar, ultrapassando os limites de um bairro ou município e podendo alcançar outros países. Já o indivíduo vacinado tem menos chances de adoecer e, caso isso aconteça, tende a desenvolver sintomas mais leves. O alerta também serve para o Brasil onde a doença volta a afetar os brasileiros.

Em São Paulo, a doença chegou a 40 casos confirmados este ano, segundo balanço do Centro de Vigilância Epidemiológica (CVE) estadual divulgado no dia 1º. Desses, 30 pacientes não tinham registro de vacinação ou estavam com o esquema incompleto, de acordo com o governo estadual. Embora esses registros não signifiquem, por si só, que o vírus voltou a circular de vez no País, eles reforçam a necessidade de manter a vigilância para evitar que a contaminação se estenda. Para interromper a transmissão sustentada do sarampo, o Ministério da Saúde e a Organização Mundial da Saúde (OMS) estabeleceram a meta de alcançar 95% de pessoas vacinadas. Assim, favorecendo a imunidade coletiva e contribuindo para a proteção daqueles que não podem receber a vacina, como pessoas com imunidade muito comprometida, e quem ainda não desenvolveu proteção completa.

A prevenção contra o sarampo começa na infância, com a vacina tríplice viral, que também protege da caxumba e rubéola. A primeira dose é indicada aos 12 meses e a segunda, aos 15 meses de vida. Em situações específicas, bebês de 6 meses a 11 meses podem receber uma dose extra, sem substituir as do calendário básico. Adultos devem conferir a caderneta conforme a idade e o histórico individual, especialmente antes de viagens internacionais, atualizando as doses necessárias com pelo menos 15 dias de antecedência do embarque. 

A história recente nos ensina que a hesitação vacinal custa caro e que o sarampo não dá trégua diante de coberturas incompletas. Manter o País protegido exige que a imunização seja tratada como prioridade contínua, da infância à vida adulta. Diante do avanço da doença pelas Américas, a resposta mais eficaz continua ao alcance de todos: informação de qualidade, conscientização e a vacina em dia. A imunidade coletiva se constrói com a atitude individual de cada um de nós. 

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