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Batalha sem vencedor

Campo Grande enfrenta um quadro de desorganização administrativa que atinge diretamente o cotidiano da população

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Campo Grande vive um momento de colapso. As promessas de campanha de Adriane Lopes foram respaldadas pela alta cúpula da política sul-mato-grossense, que se mobilizou intensamente no segundo turno.

A disputa no maior colégio eleitoral do Estado despertava expectativas claras: fortalecer projetos políticos e pavimentar 2026 com uma vitória estratégica na Capital.

Criaram-se expectativas. Alimentaram-se esperanças. O esforço coletivo nos palanques indicava confiança em dias melhores para a cidade – e dividendos eleitorais para seus apoiadores.

Passado um ano, porém, o cenário é outro. Campo Grande enfrenta um quadro de desorganização administrativa que atinge diretamente o cotidiano da população.

Os buracos se multiplicam de norte a sul, a saúde pública opera sob forte pressão, o transporte coletivo vive sob ameaça de intervenção, o aumento do IPTU gera indignação e as políticas sociais avançam em ritmo lento.

A sensação predominante é a de uma cidade à deriva, onde tanto a prefeita quanto o cidadão comum parecem travar uma batalha diária sem vencedores.

Enquanto os problemas se acumulam, a possibilidade de reequilibrar a gestão torna-se cada vez mais remota. E mesmo que, por algum movimento extraordinário, a administração consiga retomar o rumo, será difícil reconstruir o prestígio político e a confiança daqueles que reconduziram a prefeita ao Paço Municipal.

Os estrategistas da gestão sabem – ou deveriam saber – que o tempo joga contra. As chances de transformar o cenário em ativo eleitoral diminuem na mesma proporção em que crescem as insatisfações nas ruas.

E os mesmos aliados que antes disputavam espaço para fotos e declarações públicas ao lado da prefeita agora mantêm distância prudente diante da crise.

Ainda que haja uma reversão parcial do quadro, os reflexos serão inevitáveis na próxima eleição para governador, senador, deputado federal e deputado estadual.

Tornou-se difícil encontrar argumento capaz de sustentar, perante o eleitorado campo-grandense, uma narrativa que justifique tamanha deterioração administrativa. Se a prefeita atravessa um processo de desgaste acelerado, seus fiadores políticos terão tarefa árdua para se dissociarem do resultado dessa aposta.

É preciso reconhecer que há esforços da prefeitura para reagir. No entanto, ações isoladas dificilmente compensarão perdas acumuladas ou restaurarão, em curto prazo, os serviços e a confiança que se esvaíram. Pelo ritmo atual, qualquer reação tende a ser insuficiente para produzir uma inflexão perceptível na vida da cidade.

Campo Grande exige mais que remendos: demanda direção, coordenação e resultados concretos. E, sobretudo, respostas que estabeleçam a confiança de uma população que já demonstrou disposição em acreditar, mas que agora cobra, com razão, aquilo que lhe foi prometido.

EDITORIAL

A indústria refém: o banquete que alimenta o abuso e atropela a ética

Enquanto o industrial sul-mato-grossense luta por competitividade, a cúpula da Fiems se encastela em 19 anos de poder, privilégios e opacidade

02/03/2026 07h15

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A Federação das Indústrias de Mato Grosso do Sul (Fiems) foi criada para guiar o desenvolvimento econômico e proteger a classe industrial, mas vive hoje um dilema de opacidade que compromete sua legitimidade.

Em outras épocas, quando ainda o Estado não vivia essa condição de desenvolvimento, a gestão se prolongou pelo período de 1979 a 1999, ou seja, por quase 20 anos.

A atual presidência se prolonga desde os idos de 2007, neste ano está completando aproximadamente 19 anos, e a entidade dá os mesmos sinais de fadiga e parece ter se transformado em uma estrutura de interesses fechados – um personalismo que atropela a ética institucional.

A permanência prolongada no poder gera perguntas que a sociedade não pode ignorar. Quando uma instituição que administra recursos vultosos – oriundos de contribuições compulsórias e verbas federais – se fecha em um sistema em que o apoio pessoal vale mais que o mérito, a democracia interna se esvazia. Surge, então, a figura do feudo.

As denúncias veiculadas pelo Correio do Estado desenham um quadro alarmante de descaso com a finalidade pública.

Reportagens apontam conflito de interesses de determinados conselheiros e indicam que se utilizem da capilaridade da entidade para negócios em benefício próprio, distorcendo a concorrência e ferindo a moralidade administrativa.

É minimamente inaceitável. Incoerência fiscal: um dos membros da cúpula figura entre os maiores devedores de ICMS do Estado, valendo-se de influência para manter benesses, enquanto credores comuns aguardam uma definição da Justiça para reaver seus créditos.

Dizem que depois das denúncias foi afastado do cargo, também, pudera! Passivo ambiental: outra investigação publicada pelo Correio do Estado aponta que conselheiro tem papel central em desmatamentos ilegais, acumulando multas milionárias que afrontam o discurso de sustentabilidade e ESG com o qual a indústria sul-mato-grossense tenta se projetar no mercado global.

Onde deveria haver fomento à inovação, há privilégio, onde deveria haver transparência, há sombras. Compliance e governança são palavras bonitas e muito usadas, mas pouco se aplicam à entidade.

Voltamos à máxima: “À mulher de César não basta ser honesta, deve parecer honesta”. Conselheiros em posições de alto poder ou destaque não podem gerar suspeitas, sendo a aparência de conduta correta tão crucial quanto a honestidade real.

Essas revelações não são meros escândalos setoriais, são riscos diretos aos interesses a que deveriam servir, os industriais.

É perturbador que, enquanto a indústria luta para manter empregos e competitividade, a cúpula que deveria defendê-la faz tours nababescos, que beneficiam poucos em detrimento de muitos e cujos resultados são questionáveis, para não dizer medíocres.

A inércia das autoridades de controle e do Judiciário diante desses fatos amplia a sensação de impunidade. Até quando o silêncio das autoridades será a resposta para o uso indevido da entidade? Num estado onde temos pleno emprego, o dinheiro destinado das indústrias não pode ser objeto de projeto pessoal ou protegido por segredos, deveria ser destinado à qualificação da mão de obra, a cursos profissionalizantes.

O atual vigor econômico do Estado é fruto de políticas públicas adotadas pelo governo atual e, principalmente, dos anteriores e do suor dos empresários, e não de uma gestão que se recusa ao contraditório e trata críticos como se fossem inimigos.

O silêncio das autoridades, nesse cenário, é também omissão: é urgente uma resposta para a sociedade, pois, à medida que o silêncio se impõe, ele se perpetua e os direitos retrocedem rapidamente.

ARTIGOS

O que as paisagens dizem sobre quem somos?

Por sermos seres situados e existimos em algum lugar, a nossa existência física é, necessariamente, atrelada a um espaço geográfico

28/02/2026 07h45

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Paisagens não são cenários a serem observados. Tampouco meros suportes físicos inertes sobre os quais existimos. Paisagens são vivas, têm cheiro, som, tato, gosto, emoção, memória – e nos afetam muito mais do que costumamos supor.

Somos seres situados, ou seja, existimos em algum lugar: nossa existência física é, necessariamente, atrelada a um espaço geográfico, a uma paisagem. Deste fato decorrem diversas implicações, uma vez que somos influenciados pelos lugares que habitamos, pelas paisagens que habitamos.

Não se trata de determinismo com causa e efeito diretos, gerais e previstos, uma vez que cada ser é único, apresentando particularidades de comportamentos e fisiologia que diversificam as respostas às experiências semelhantes.

Trata-se de influências que se tornam íntimas e próprias daquelas existências, o que fica bastante evidente se ilustrarmos a questão com casos de povos que habitam geografias extremas no que diz respeito ao clima, por exemplo.

Pensemos nos esquimós que habitam o Círculo Polar Ártico e seu mundo-vivido. Os tipos e ritmos das atividades desenvolvidas em um dia e ao longo de um ano, a alimentação, os costumes, a natureza das relações sociais, as edificações, o transporte – todo um modo de vida e uma existência diretamente relacionados com aquela geografia, em resposta a ela, construídos a partir dela.

Ou ainda, mais perto de nós, considere as seguintes paisagens: urbanas metropolitanas, litorâneas, rurais de montanha.

Quais as dinâmicas do cotidiano das pessoas que habitam cada uma delas? Qual a natureza das possibilidades para ações triviais como deslocar-se todos os dias para o trabalho ou para comprar algo?

Onde e como se dão os encontros e os desencontros? Onde e como acontece o relacionar-se com o espaço vivido, com a paisagem, com o outro – as relações sociais?

Que elementos visuais, olfativos, sonoros, táteis, afetivos, fazem parte do dia a dia dessas pessoas? De que são permeadas suas experiências, e, portanto, suas existências?

As possibilidades de interação a que somos convidados são distintas entre si conforme onde nos situemos.

Assim, nossas ações, comportamentos, modos de nos relacionarmos, hábitos, afetos e, portanto, nossa identidade, são afetados e construídos a partir do que nos oferece a paisagem que habitamos.

Ampliando para um grupo social que habita o mesmo cenário, temos elementos que compõem a cultura local, a identidade de grupos sociais, o senso de pertencimento.

Proponho, aqui, uma reflexão para o leitor: como as paisagens que você habita te constroem?

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