Artigos e Opinião

OPINIÃO

Beatriz Figueiredo Dobashi escreve sobre: Indicadores de Saúde

Médica sanitarista

Redação

11/08/2015 - 00h00
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No Brasil, no ano de 1680, foram criadas as Juntas das Fazendas das Capitanias e a Junta da Fazenda do Rio de Janeiro, ambas jurisdicionadas a Portugal, para o controle das finanças públicas. Em 1808, instalou-se, por ordem de Dom João VI, o Erário Régio. Neste ano, foi criado também o Conselho da Fazenda que tinha como função principal acompanhar a execução da despesa pública, sendo transformado em Tesouro da Fazenda na Constituição de 1824.

A iniciativa para a criação de um Tribunal de Contas no Brasil ocorreu em 1826, através de um projeto de lei proposto no Senado pelo Visconde de Barbacena, Felisberto Caldeira Brandt e José Inácio Borges. Todavia, o primeiro Tribunal de Contas do País, que foi o Tribunal de Contas da União, só foi criado em 1890, por iniciativa de Rui Barbosa, Ministro da Fazenda na época. A primeira Constituição que previu o Tribunal de Contas foi a de 1891 no artigo 89, conferindo a esse órgão a competência para liquidar e verificar a legalidade das contas da receita e da despesa antes de serem prestadas para o Congresso Nacional. A instalação desse Tribunal ocorreu no ano de 1893.

As Constituições que se seguiram acrescentaram ou retiraram atribuições dessas Casas de Contas, até que a de 1988 as fortaleceu, consolidando o importante papel de proteção do patrimônio público. Os Tribunais de Contas não pertencem a nenhum dos três poderes, possuindo natureza jurídica de instituição autônoma.

Hely Lopes Meirelles, afirma: “controle, em tema de administração pública, é a faculdade de vigilância, orientação e correção que um poder, órgão ou autoridade exerce sobre a conduta funcional do outro”.

Daí nasceu a publicação do Tribunal de Contas de Mato Grosso do Sul: “Indicadores de Saúde”. A obra está focalizada em três aspectos: informações financeiras; rede assistencial da saúde e indicadores de saúde. Aborda as principais políticas de saúde de forma regionalizada, bem como as questões do financiamento do setor, por município sul-mato-grossense. Usa como fontes o DATASUS, órgão do governo federal responsável por todas as informações da saúde brasileira, no SUS; o SIOPS – Sistema de informações sobre os orçamentos públicos em saúde e o COAP, Contrato Organizativo de Ações Públicas, criado em junho de 2011 por Decreto Federal e somente celebrado em dois estados brasileiros: Mato Grosso do Sul e Ceará. 

Os indicadores estudados são: Financeiros (despesas na saúde com recursos próprios municipais e a aplicação na Atenção Básica); Físicos (leitos hospitalares por mil habitantes) e de Recursos Humanos (médicos por mil habitantes), além dos indicadores escolhidos dentro do próprio COAP (cobertura por Atenção Básica e internações por causas que poderiam ser resolvidas sem internação).

As conclusões mostram que os municípios aumentaram os recursos colocados na saúde no período estudado – 2009 a 2013 – no sistema como um todo e também na Atenção Básica. Entretanto, como a maioria dos municípios de MS possui menos de 30.000 habitantes, a arrecadação é baixa e 15% de pouco é pouco. 

O número de médicos por mil habitantes é baixo e concentrado nos polos regionais: Campo Grande, Dourados, Aquidauana por exemplo. O mesmo acontece com o número de leitos. As internações desnecessárias diminuíram em alguns municípios. Onde apareceram os mesmos números, muitas vezes os pacientes (em especial crianças) permaneciam no hospital por motivos sociais: falta de alimentos; falta de cuidados adequados etc.

Ainda que os resultados já fossem conhecidos entre os sanitaristas, a publicação do TCE é interessante no sentido de transpor a análise fria das contas públicas e adentrar nas questões estratégicas do Sistema Único de Saúde.

Artigo

Nem "patience" garantiu a chegada ao show do Guns N' Roses em Campo Grande

O trânsito parado na Avenida Ministro João Arinos e a fila de veículos a perder de vista eram um mau sinal

13/04/2026 07h30

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Saí às 17h45min. Os portões foram abertos às 16h, grande parte do público já estava no Autódromo Internacional Orlando Moura. Ia ter trânsito, claro. Um pouco mais de uma hora para completar o trajeto do centro da cidade até o local do show. Quem dera. O trânsito parado na Avenida Ministro João Arinos e a fila de veículos a perder de vista eram um mau sinal. Para quem ia ao show e para quem pegaria a próxima saída para chegar em casa.

Às 19h40min soube que ia atrasar. Pessoas desciam dos carros a mais de 12 quilômetros do autódromo, temerosas de não chegarem a tempo. Vi três pessoas, duas mulheres e um homem, descerem de um sedã preto xingando e gesticulando. Farinha foi jogada por uma das mulheres dentro e sobre o carro.

O quilo do ingresso solidário. Não houve solidariedade entre os que não tinham culpa da situação, um trabalhador querendo garantir seu rendimento, três passageiros querendo seguir.

Motociclistas por todos os lados às 20h, muitas pessoas chamando. De carro ou ônibus, como os 30 que foram fretados por empresário, não ia dar para chegar. Muitos desistiram.

Faltavam 30 minutos para o show. Nas redes, trechos do show do Raimundos. Chamava atenção o espaço que deveria estar ocupado pelos milhares no engarrafamento.

As primeiras notícias sobre o atraso do Guns N’ Roses chegaram às 21h. Queriam esperar por quem seguia a pé. Próximo do pontilhão, vi a primeira viatura do Detran-MS, perto de uma das alças de acesso, pela qual desciam duas carretas.

Achei ter ouvido da organização do evento, da Polícia Rodoviária Federal (PRF) e do Detran-MS que caminhões não iam circular das 18h às 22h. Devo ter ouvido errado. Trabalhadores que desceram do coletivo preso no engarrafamento caminhavam ao lado da avenida.

Às 22h30min chegaram as notícias de que o show tinha começado. Motociclistas faziam rali pelas ruas paralelas à João Arinos: desciam barrancos e buzinavam pedindo passagem.

Ofereciam aos motoristas seus serviços, alguns até encontraram lugar para estacionar seus carros e seguiram de moto.

Só às 23h que vi a primeira viatura da PRF, no ponto em que a João Arinos perde seu “canteiro central”. A ação das autoridades era tão sutil que apenas os inteligentes podiam ver.

Milhares sentiam isso na pele. Cinco horas em um carro, o show tinha começado há mais de meia hora. Talvez desse para ver uma ou duas músicas.

Quase 0h. Um posto em frente a um condomínio. Longe ainda. O corpo quase travou ao descer do carro. No banheiro, era tanto cansaço que esvaziar a bexiga nem foi tão prazeroso assim.

Dava para ouvir “November Rain”, mas a distância podia estar pregando peças. Era tentador seguir, no entanto, o destino agora estava no sentido contrário. Na pista vazia.

Muitos que não chegaram ao show poderiam contar experiências como essas ou até piores. Houve amadorismo, promessas de planejamento vazias, descuido e desrespeito.

Uma grande estrutura para o show, instalada em um local inacessível sem organização e autoridades fazendo seu trabalho.

Mas a PRF foi rápida em responder a isso e jogar a responsabilidade apenas nas costas dos organizadores, que venderam ingressos até para o estacionamento e não entregaram os acessos que prometeram.

Assim, a PRF se esquivou da responsabilidade de não ter conseguido resolver o problema de três faixas que viram duas, duas faixas que viram uma, enquanto a faixa no sentido contrário permaneceu livre o tempo todo.

A organização do evento não conseguiu atender os que acreditaram em um produto bem vendido, que se prepararam por meses para estar presentes, que saíram do trabalho mais cedo, que não imaginaram que enfrentariam mais de cinco horas de congestionamento, que abandonaram o carro e foram a pé ou de moto, que conseguiram chegar a tempo e depois ficaram presos por mais cinco horas tentando voltar para casa.

No entanto, não há “patience” que consiga mudar a realidade do amadorismo da organização do show do Guns N’ Roses e a falta de ação das autoridades no alardeado maior evento internacional de todos os tempos em Campo Grande.

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Editorial

Endividamento expõe falhas no sistema

Taxas de cartão, tarifas para plataformas digitais, comissões em marketplaces e aplicativos, tudo isso compõe um sistema que drena margens e compromete a sustentabilidade dos negócios

13/04/2026 07h15

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Nesta edição, apresentamos um dado que merece atenção redobrada: o avanço do número de empresas endividadas em Mato Grosso do Sul. Mais do que um indicador isolado, o fenômeno sinaliza um desarranjo mais amplo na economia, com potenciais efeitos em cadeia sobre investimentos, empregos e consumo.

O aumento do endividamento empresarial não é apenas um problema restrito às empresas. Quando muitos negócios passam a operar sob pressão financeira, a consequência natural é a retração de investimentos e a dificuldade de honrar compromissos, o que pode desencadear um problema de liquidez. Em outras palavras, o dinheiro circula menos, o crédito encarece ainda mais e a economia perde dinamismo.

É evidente que os juros elevados ocupam papel central nesse cenário. São, de fato, o vilão mais visível e imediato. No entanto, reduzir a análise apenas a esse fator seria simplificar um problema que é estrutural.

O custo do dinheiro no Brasil vai além das taxas bancárias, ele está diluído em uma engrenagem complexa e cada vez mais financeirizada.

Hoje, o acesso ao capital envolve uma série de intermediações que impõem custos adicionais ao empresário. Não se trata apenas do crédito tradicional, mas de um conjunto de “pedágios” embutidos nas operações cotidianas.

Taxas de administradoras de cartão, tarifas para uso de plataformas digitais, comissões em marketplaces e aplicativos de serviços, tudo isso compõe um sistema que drena margens e compromete a sustentabilidade dos negócios.

Há, portanto, um excesso de atravessadores que encarece a atividade produtiva sem necessariamente agregar valor proporcional. Esse é um ponto que precisa entrar no radar das discussões regulatórias.

A modernização da economia digital não pode significar apenas mais eficiência para intermediários, mas também melhores condições para quem produz e gera riqueza.

Nesse contexto, a existência de ferramentas como o Pix surge como um contraponto positivo. Ao reduzir custos de transação e eliminar parte das intermediações, o sistema trouxe alívio para empresas e consumidores que antes dependiam quase exclusivamente das operadoras de cartão e de maquininhas.

É um exemplo de como a inovação, quando bem direcionada, pode corrigir distorções.

Ainda assim, o desenho geral do sistema econômico parece, muitas vezes, operar na lógica do endividamento contínuo. Seja para o cidadão, seja para o empresário, a dependência do crédito caro se torna regra, não exceção.

Romper esse ciclo é possível, mas exige disciplina financeira, planejamento e, sobretudo, consciência sobre os custos invisíveis que permeiam cada operação.

Em um ambiente assim, a busca por capitalização própria e menor dependência de intermediários não é apenas uma estratégia de gestão, é um caminho para a autonomia.

Afinal, como já diria Renato Russo, disciplina é liberdade. E, no atual cenário, ela pode ser também a diferença entre sobreviver e sucumbir às distorções do sistema.

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