Artigos e Opinião

Editorial

Doação que virou caso de polícia

Sem analisar o caso, Câmara aprovou a cedência, supostamente ilegal, de área da União a condomínio de luxo e, agora, todo o empreendimento pode ficar parado

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A prática de aprovar no afogadilho uma infinidade de projetos no fim do ano faz parte da tradição do Legislativo, seja ele municipal, estadual ou federal. É tradicional, também, a inclusão dos chamados “jabutis” em meio a esses projetos.

Pelo menos é esta a justificativa dos legisladores depois que descobrem que aprovaram algo estranho ou que provoca algum tipo de repercussão. Isso porque é mais cômodo dizer que foram enganados do que admitir que segundas intenções estavam em jogo. 

Esta vergonhosa tradição não pode ser jogada somente no colo dos legisladores. Os chefes do Executivo têm parte desta culpa. Mas, levando em consideração que são todos farinha do mesmo saco e que em determinado momento um deles têm mais poder que os demais, o fato é que esta tradição revela que a classe política trata a coisa pública com total desdém.

A liberação que os vereadores de Campo Grande deram no fim de 2024 para que uma incorporadora usasse uma área pública federal para construir o acesso a um condomínio de luxo é somente mais um exemplo de que existe explícita irresponsabilidade na hora de aprovar determinados projetos.

Enquanto eles brincavam de legislar, empresários apostaram milhões de reais em um projeto imobiliário de alto padrão, e esta mesma falta de seriedade fez com que centenas de investidores apostassem parte de suas economias em algo que estava sendo feito com o aval das autoridades municipais.

Ao que tudo indica, nem Executivo nem Legislativo se aprofundaram no assunto e simplesmente cederam em torno de 1,7 quilômetro de ferrovia, o que equivale a cerca de 51 mil metros quadrados, em uma região onde terrenos nos condomínios são vendidos por cerca de 2,5 mil por m².

Por mais que esta área tenha ficado na parte externa do novo condomínio de luxo, a investigação do Ministério Público Federal, que questiona a competência para que a área fosse cedida, tende a provocar um imbróglio legal que pode ser arrastar por anos.

Enquanto isso, o empreendimento corre o risco de ficar paralisado e todo o projeto ter de ser refeito. 

O trecho de trilho invadido e retirado com autorização dos vereadores e da prefeita de Campo Grande faz parte do antigo traçado da ferrovia.

Depois da construção do contorno ferroviário, ativado no fim de 2006, o traçado da ferrovia efetivamente utilizável passou a ficar longe da área urbana de Campo Grande.

Mesmo assim, as terras nas quais estão os antigos trilhos continuam nas mãos da empresa responsável pela concessão, a Rumo, e pertencem ao governo federal, verdadeiro proprietário do imóvel. A Rumo foi à Polícia para exigir a devolução da área. 

Caso a Justiça entenda que aquele trecho de ferrovia tenha de ser reconstruído, como agora deseja a Rumo, uma vez que dá acesso a uma antiga estação ferroviária, os custos serão bancados por quem?

Os vereadores certamente não vão querer colocar a mão no bolso e a incorporadora responsável pelo condomínio, também não. Ou seja, quem terá de pagar a conta será o contribuinte de Campo Grande. 

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Artigo

Por que trocar o prazer das telas do celular pelo prazer da leitura

Este apego moderno tem substituído hábitos antigos mais saudáveis, como o da leitura

29/04/2026 07h45

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Minha desconfiança com o entretenimento instantâneo começou numa manhã de sexta-feira, a caminho do trabalho. A situação trivial, naquele vagão de metrô, teria sido há muito esquecida, salvo por um detalhe curioso: todas as pessoas sentadas, dentro do meu campo visual, tinham a cabeça inclinada e os olhos pregados em seus respectivos celulares.

Havia, entre elas, rostos curiosos e concentrados; alguns pareciam divertidos e outros, tristes. O único traço comum a todos era o isolamento social.

Vivenciamos, com o advento dos modernos aparelhos celulares, uma era de conforto, comunicação e acesso à informação sem precedentes.

Informação no sentido mais amplo possível: da singela música infantil ao esquema de funcionamento de um artefato bélico nuclear, passando por toda a sorte de conteúdo pensado para capturar a atenção do usuário pelo maior período de tempo possível.

Onipresentes na rede, algoritmos eficientes identificam preferências individuais, realimentando o usuário em um interminável carrossel de novidades afins.

É sabido que o cérebro humano tende a repetir ações que ativem o sistema de recompensa baseado nos chamados “hormônios do prazer”, cuja finalidade é o reforço de comportamentos favoráveis à sobrevivência do indivíduo, como o estresse da caça, a concentração do aprendizado ou o esforço físico produtivo.

Como não há dilemas de sobrevivência envolvidos na interminável rolagem da telinha, temos, nesse caso, o reforço de um hábito que leva o usuário a consumir horas do seu tempo numa atividade absolutamente estéril, tudo pelas endorfinas “baratas” e instantâneas proporcionadas pelo celular.

Este apego moderno tem substituído hábitos antigos mais saudáveis, como o da leitura. Ler exige, contrariamente ao entretenimento instantâneo, investimento de longo prazo.

Adiando a recompensa, comunicamos ao nosso cérebro que coisas boas exigem esforço, investimento e participação. Ler demanda esforço intelectual, disciplina e comprometimento. É treino mental.

Treino que abre portas para a satisfação da tarefa cumprida, do trabalho bem-feito, do aprendizado e da realização pessoal.

Se o usuário compulsivo das telas tende à preguiça e à procrastinação – pois está viciado em recompensas imediatas –, o leitor assíduo treina sua mente para as demandas da vida e para a ação.

E aí, de qual lado você quer ficar?

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Artigo

Geopolítica da pressão

Ao revogar permissões de sobrevoo sem aviso prévio, Seychelles, Maurício e Madagascar fecharam seus espaços aéreos à comitiva taiwanesa

29/04/2026 07h30

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No cenário das relações internacionais, a logística de uma viagem de Estado raramente ocupa as manchetes, a menos que se torne o epicentro de uma crise de soberania. Recentemente, a visita oficial do presidente de Taiwan, Lai Ching-te, ao Reino de Eswatini – aliado estratégico na África – foi interrompida por uma manobra geopolítica coordenada.

Ao revogar permissões de sobrevoo sem aviso prévio, Seychelles, Maurício e Madagascar fecharam seus espaços aéreos à comitiva taiwanesa, expondo a face mais agressiva da influência de Pequim sobre nações em desenvolvimento.

Este episódio sinaliza como a segurança da aviação civil e o Direito Internacional estão sendo subjugados por táticas de coerção econômica.

A análise dos dados revela que a decisão dessas três nações não foi um ato de soberania, mas uma concessão necessária diante de uma exposição financeira sem precedentes.

Em Seychelles, a influência de Pequim manifesta-se por meio da dependência direta. Em março de 2026, o governo chinês liberou um subsídio de US$ 14,5 milhões para projetos de habitação e saúde.

Com as importações da China crescendo 164% entre 2025 e 2026, o país tornou-se dependente desse fluxo para manter sua estabilidade social. O custo político de autorizar o voo de Taiwan superava o risco de comprometer o capital essencial para suas obras públicas.

No caso de Maurício, a alavancagem é comercial. Primeiro país africano a firmar um acordo de livre comércio (FTA) com a China, a ilha viu as importações de tecnologia chinesa saltarem 170% em fevereiro de 2026.

A integração das cadeias de suprimento e a presença maciça de bancos chineses transformaram o país em um hub financeiro para Pequim. A revogação da permissão de sobrevoo reflete um alinhamento imposto pelo peso das relações que hoje sustentam a economia mauriciana.

Madagascar apresenta o cenário mais crítico de assimetria. O país enfrenta um deficit comercial em que as importações chinesas superam as exportações em uma razão de 10 para 1.

Sem alternativas imediatas de crédito, o governo malgaxe encontra-se em uma posição de vulnerabilidade que permite a Pequim ditar termos que extrapolam o comércio, interferindo diretamente na gestão de seu espaço aéreo.

Este incidente expõe a transformação de protocolos globais em ferramentas de chantagem. Ao forçar nações terceiras a descumprirem permissões de voo, Pequim ignora convenções de aviação civil e subverte o princípio da soberania nacional.

Isolar uma democracia como Taiwan fere a dignidade de seus 23 milhões de cidadãos e estabelece um precedente perigoso: quando espaços aéreos são “armados” para servir a interesses expansionistas, a previsibilidade institucional deixa de existir.

Este episódio deve servir como um alerta urgente para a comunidade internacional: a dependência econômica absoluta em relação à China tem se mostrado, na prática, uma renúncia gradual à soberania nacional.

Se as democracias globais não fortalecerem sua resiliência institucional e buscarem alternativas viáveis à “diplomacia da dívida”, a ordem internacional baseada em regras será irremediavelmente substituída por um sistema de vassalagem financeira em que o direito de ir e vir é ditado por quem detém o crédito.

A segurança de chefes de Estado e a integridade das rotas globais não podem permanecer reféns de interesses autocráticos expansionistas.

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