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Colapso teocrático

O que vemos hoje é o esgotamento de um modelo que nasceu em 1979 e que vive seu epílogo

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Em janeiro de 2026, o Irã vive um momento de ruptura definitiva. As ruas de Teerã e das principais províncias não clamam mais por reformas graduais, mas pelo fim de um sistema que se tornou anacrônico.

O regime, que por décadas utilizou o fervor religioso e o nacionalismo para se sustentar, enfrenta hoje uma combinação letal: o colapso econômico interno e a sucessão de derrotas no cenário externo. O que vemos hoje é o esgotamento de um modelo que nasceu em 1979 e que vive seu epílogo.

Compreender a crise contemporânea exige revisitar o colapso de Mohammad Reza Pahlavi. Ao tentar converter o país em uma potência ocidentalizada, o xá negligenciou as bases tradicionais e o clero xiita, enquanto a repressão da Savak, sua polícia política, alienava a elite intelectual.

Esse cenário culminou na Revolução de 1979 – uma coalizão heterogênea em que emergiu a liderança de Ruhollah Khomeini, que ascendeu após a queda da monarquia. O vácuo de poder foi preenchido pela “velayat-e faqih”, doutrina que submeteu a nação à tutela política e espiritual de um clérigo supremo, consolidando a teocracia moderna.

Quase meio século depois, o contrato social da República Islâmica ruiu. O sistema que prometia justiça social entregou uma economia de espoliação, controlada por fundações opacas e pelo braço empresarial da Guarda Revolucionária, que opera em moldes mais cruéis que a antiga Savak.

A crise atual é o ápice de uma década de má gestão e expansionismo baseado no terror, agravada pelas sanções e pelo impacto da Guerra dos 12 Dias, em 2025, que degradou a infraestrutura nuclear e militar do país.

Diferentemente de 2022, as manifestações atuais têm caráter existencial. O coração do levante bate no Bazar, o termômetro da estabilidade política persa. Quando mercadores fecham as portas e se unem aos jovens e às minorias étnicas, o regime perde sua última âncora de legitimidade. Ao mesmo tempo, a repressão mostra sinais de fadiga, com relatos de deserções e a incapacidade de conter focos simultâneos em todas as 31 províncias.

A análise de risco político nos obriga a desenhar caminhos para este desenlace. O Irã de amanhã não será o mesmo de ontem, e sua transição é um debate com reflexos globais.

Um cenário provável é a solução pretoriana: diante da queda iminente, a Guarda Revolucionária poderia desferir um golpe interno, afastando os aiatolás em troca de uma abertura econômica nacionalista e pragmática, aos moldes do Egito.

Outro caminho é a restauração de uma democracia parlamentarista laica, com Reza Pahlavi como símbolo de unidade transicional, assemelhando-se ao modelo espanhol pós-Franco.

Contudo, não se deve subestimar a resiliência ideológica de uma teocracia acuada e o recrudescimento do regime ainda é uma opção, o que poderia transformar o país em uma “Coreia do Norte do Oriente Médio”, mantendo o poder pelo terror e o isolamento absoluto.

Por fim, existe o risco latente de fragmentação e “balcanização”, em que o colapso fomentaria movimentos separatistas e uma guerra civil devastadora.

Os sinais são de que o experimento teocrático chega ao seu epílogo. A questão não é mais se o regime mudará, mas quem estará no controle quando a poeira baixar. O mundo deve estar preparado para o que emergirá das cinzas da teocracia.

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Aluguel por temporada vs. falta de segurança e sonegação: o custo invisível para a sociedade

Crescimento desordenado de locação de imóveis trouxe desafios evidentes para grandes cidades do Brasil e do mundo

15/01/2026 07h45

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A sigla STR, do inglês short-term rental (aluguel de curta temporada), refere-se à locação de imóveis mobiliados por períodos reduzidos. Tais estadias raramente ultrapassam um mês – duram, quase sempre, dias ou semanas e, desta forma, são uma alternativa aos hotéis tradicionais.

Popularizado por plataformas como o Airbnb, o modelo conquistou o público, ao longo dos anos, por proporcionar experiências mais “caseiras”, enquanto para os proprietários promete (e, geralmente, entrega) atrativo retorno financeiro.

Apesar da praticidade do STR, seu crescimento desordenado trouxe desafios evidentes para grandes cidades do Brasil e do mundo.

Ocorre que, quando esta forma de hospedagem surgiu, anos atrás, tratava-se de algo disruptivo, sem qualquer regulamentação específica. A ausência de normas claras permitiu a proliferação do modelo de forma não planejada, o que gerou impactos significativos, principalmente em moradia e no ordenamento urbano.

Hoje, países como Espanha, França e Holanda lidam de maneira rigorosa com a normatização deste tipo de aluguel.

No Brasil, por outro lado, a regulamentação do STR ainda tem diversas lacunas. Enquanto as operadoras que exploram este tipo de locação recorrem ora à Lei do Inquilinato, ora à Lei Geral do Turismo, conforme melhor lhes convêm, as autoridades enfrentam desafios para elaborar e colocar em prática regras mais equilibradas e aplicáveis.

Só que este impasse gera incertezas jurídicas, especialmente em São Paulo e no Rio de Janeiro, entre outras capitais que têm dificuldade para regulamentar localmente um fenômeno sujeito à legislação federal.

Além disso, a falta de normatização e de forte fiscalização favorece práticas inadequadas que afetam tanto os hóspedes como os edifícios residenciais e negócios desta natureza.

Problemas de segurança estão entre os principais pontos de atenção: diferentemente dos hotéis, onde há respaldo legal e segurança estrutural, o STR frequentemente deixa o turista desprotegido.

A instalação de câmeras ocultas, a entrada do proprietário sem aviso, equipamentos insuficientes ou que não funcionam, além da presença de estranhos nos condomínios, também são, não de hoje, pontos de discórdia e de polêmica.

Outro gargalo digno de nota é a sonegação tributária. Historicamente, hotéis pagam um sem-número de taxas e tributos, como o Imposto Sobre Serviços (ISS), sem contar os recolhimentos sobre folha de pagamento, etc.

Já os anfitriões individuais e as plataformas, em sua maioria, não arcam adequadamente com suas obrigações fiscais. Com esta sonegação, não há somente concorrência desleal com a hotelaria formal, como também prejuízo para a arrecadação pública.

No contexto nacional, é evidente que tanto plataformas de STR quanto hotéis precisarão coabitar. Para o setor hoteleiro, superar o livre mercado exige diversificação, inovação e personalização.

A adoção de tecnologias de precificação dinâmica, programas de fidelidade robustos e experiências únicas – como hospedagens temáticas, concierge (assistência) personalizado e foco no bem-estar do hóspede – são alguns caminhos para se destacar frente aos STRs.

Já as plataformas de aluguel precisam se adaptar às regulamentações emergentes e desenvolver relações mais transparentes com anfitriões e autoridades, garantindo, inclusive, o pagamento correto de tributos e o atendimento a normas urbanísticas e de segurança.

A “guerra” inicial entre STRs e a hotelaria convencional está se transformando numa competição madura e regulada. Ambos os lados terão de redefinir suas estratégias e seus posicionamentos para coexistirem com ponderação e cooperação no mercado.

Afinal, o verdadeiro sucesso do setor do turismo está em acomodar as necessidades dos turistas, dos moradores, dos anfitriões e das empresas de maneira justa, sustentável e com serviços de qualidade e valores competitivos.

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Sustentabilidade produtiva, uma oportunidade global

Os caminhos mais eficazes para tornar a produção de alimentos mais sustentável são os mesmos que geram ganhos de eficiência, maior inclusão de produtores e segurança alimentar

15/01/2026 07h30

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A descarbonização dos sistemas alimentares representa uma das maiores oportunidades do nosso tempo, e reduzir emissões de gases de efeito estufa (GEE) não exige abrir mão de produtividade ou renda. Os caminhos mais eficazes para tornar a produção de alimentos mais sustentável são os mesmos que geram ganhos de eficiência, maior inclusão de produtores e segurança alimentar.

Dados da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) mostram que intervenções que promovem o aumento da produtividade, o manejo adequado de pastagens, a melhoria genética dos rebanhos, a saúde animal e a nutrição são as mais eficazes para reduzir a intensidade de emissões da produção de alimentos de origem animal.

Esse entendimento é científico. Resulta da análise de centenas de estudos revisados por pares, abrangendo leite, carne bovina, suína, aves e ovos em diversas regiões do mundo.

Estamos diante de uma janela estratégica, em que a transformação dos sistemas alimentares deve ser impulsionada pela convergência entre desempenho econômico, sustentabilidade ambiental e impacto social. Alinhar o interesse individual, do produtor ao consumidor, torna essa agenda exequível.

A perda e o desperdício de recursos, energia e insumos não são apenas questões ambientais, são ineficiências produtivas. Combatê-las significa criar valor.

Essa visão também responde a um desafio inadiável: mais de 800 milhões de pessoas enfrentam fome no mundo, e cerca de 67% da população mundial em situação de pobreza alimentar vive em áreas rurais.

Descarbonizar os sistemas alimentares é também combater a fome e a exclusão, ampliando acesso a tecnologias, assistência técnica e instrumentos de financiamento.

É nesse espírito que o mundo precisa dar atenção para os resultados que começam a surgir em países com vocação agrícola e base científica sólida.

Um exemplo recente é o estudo da Fundação Getulio Vargas (FGV), em parceria com a Abiec, que indica que o Brasil pode alcançar reduções expressivas nas emissões por quilo de carne produzida – com eficiência, e não com redução de produção.

O estudo mostra ser possível ampliar a oferta de proteína ao mesmo tempo em que se reduzem as emissões em até 92%, adotando estratégias de intensificação sustentável, como a integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF), a recuperação de pastagens degradadas e o apoio técnico contínuo ao produtor.

O mais importante é a possibilidade real de promover uma agricultura regenerativa, rentável e inclusiva. Nos biomas tropicais, esse movimento exige reforçar o tripé rastreabilidade, transparência e inclusão produtiva.

Não basta controlar as cadeias de fornecimento, é preciso criar caminhos para que os produtores façam parte da solução, com acesso aos meios para transformar suas propriedades.

Essa é uma agenda de cooperação e inovação. Nenhuma organização, governo ou empresa vai operar essa transformação sozinho. Precisamos de alianças para multiplicar as boas práticas, difundir modelos validados, calibrar metodologias de medição mais justas, gerar dados confiáveis e escalar soluções com velocidade.

A boa notícia é que as ferramentas e os dados já existem. Exemplo disso é um estudo supervisionado pelo professor Eduardo Assad, do Observatório de Conhecimento e Inovação em Bioeconomia da FGV (OCBio/FGV), com o Instituto Inttegra, que analisou o volume de emissões de carbono de 103 propriedades fornecedoras da Friboi, em 12 estados brasileiros, e revelou que as fazendas mais eficientes emitem 46% menos GEE para cada tonelada de carcaça do que todas as demais.

Além disso, 31% das fazendas analisadas removem mais que emitem carbono na atmosfera.

A transição para uma produção de alimentos de baixo carbono é uma oportunidade econômica, ambiental e humana. Fazendo melhor uso dos recursos, seremos capazes de alimentar o mundo e cuidar do planeta. O momento de agir é agora, e a oportunidade, gigantesca.

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