Artigos e Opinião

CORREIO DO ESTADO

Confira o editorial desta sexta-feira: "Universidade do crime"

Confira o editorial desta sexta-feira: "Universidade do crime"

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Da forma como o crime está sendo combatido, quem está perdendo a guerra contra a criminalidade é a sociedade. Os presídios não recebem investimentos e tornam-se escolas técnicas das organizações.

A serenidade é um dos principais requisitos para ser uma autoridade digna do nome que define seu papel na sociedade. Exerce a autoridade o cidadão que tem plena consciência do cargo que ocupa em seu meio social. Aquele que faz mau uso do cargo e abusa dos poderes que estão em suas mãos torna-se um autoritário. Autoridade emana da pessoa; autoritarismo é imposto pelo desejo do ocupante do cargo de se fazer respeitado. 

Assim deve ser com os que têm a responsabilidade de tornar a convivência entre as pessoas mais harmônica: usar a autoridade que lhes foi outorgada para promover a justiça e preservar a integridade física, cultural e patrimonial dos cidadãos. Certamente, um dos maiores clamores desta década é o da segurança pública. 

Atire a primeira pedra o cidadão que não deseja estar despreocupado com ataques à sua vida ou ao seu patrimônio. Todos querem a certeza de que suas casas, seus automóveis, seus pertences e, sobretudo, seu corpo não serão violados por um ato arbitrário de alguém. E é aí que entram as autoridades e os métodos que elas devem empregar para promover este bem-estar desejado por todos.

Na Idade Média, antes da criação da instituição que conhecemos hoje como Estado Democrático de Direito (consolidado após a Revolução Francesa), fazer justiça era algo muito particular. A aplicação da pena era uma retribuição do ato lesivo causado pelo criminoso. A este ato, reprovado pela sociedade e passível de punição, chamamos de crime ou tipo penal. Foi por meio da retribuição que a lógica do “bandido bom é bandido morto” prevaleceu na Idade Média, que, coincidentemente, foi uma das épocas mais violentas da humanidade, tanto que o termo “barbárie” tem origem justamente nos atos cruéis – muitos deles retributivos – dos povos bárbaros, os protagonistas deste período histórico.

Sobre o julgamento sumário da expressão “bandido bom é bandido morto”, resta a dúvida se o método é, de fato, eficaz para combater a criminalidade. A Idade Média demonstra que não. Mas o discurso que ganhou força nas redes sociais e nas urnas no ano passado deseja esta receita. Vale a reflexão – um ato em desuso nos tempos atuais – sobre o tema.

Nesta edição, mostramos a necessidade de se construir mais presídios em Mato Grosso do Sul. O Estado precisa de nada menos do que o dobro de vagas no sistema penitenciário para abrigar presos provisórios e condenados. Sobre os provisórios, muitos deles primários, entram nos presídios ingênuos e saem de lá como soldados das facções criminosas. Não seria o caso de construir mais vagas ou então de os legisladores e operadores do Direito usarem mais o bom-senso na hora de prendê-los?

Da forma como o crime está sendo combatido, quem está perdendo a guerra contra a criminalidade é a sociedade. Os presídios não recebem investimentos e tornam-se universidades do crime. As organizações crescem e, certamente, estão felizes com esta política de segurança. Já os que cumprem a lei sofrem. Crime se combate com inteligência e serenidade, e não com impaciência e desejo instintivo de vingança.

Editorial

Doação que virou caso de polícia

Sem analisar o caso, Câmara aprovou a cedência, supostamente ilegal, de área da União a condomínio de luxo e, agora, todo o empreendimento pode ficar parado

30/04/2026 07h15

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A prática de aprovar no afogadilho uma infinidade de projetos no fim do ano faz parte da tradição do Legislativo, seja ele municipal, estadual ou federal. É tradicional, também, a inclusão dos chamados “jabutis” em meio a esses projetos.

Pelo menos é esta a justificativa dos legisladores depois que descobrem que aprovaram algo estranho ou que provoca algum tipo de repercussão. Isso porque é mais cômodo dizer que foram enganados do que admitir que segundas intenções estavam em jogo. 

Esta vergonhosa tradição não pode ser jogada somente no colo dos legisladores. Os chefes do Executivo têm parte desta culpa. Mas, levando em consideração que são todos farinha do mesmo saco e que em determinado momento um deles têm mais poder que os demais, o fato é que esta tradição revela que a classe política trata a coisa pública com total desdém.

A liberação que os vereadores de Campo Grande deram no fim de 2024 para que uma incorporadora usasse uma área pública federal para construir o acesso a um condomínio de luxo é somente mais um exemplo de que existe explícita irresponsabilidade na hora de aprovar determinados projetos.

Enquanto eles brincavam de legislar, empresários apostaram milhões de reais em um projeto imobiliário de alto padrão, e esta mesma falta de seriedade fez com que centenas de investidores apostassem parte de suas economias em algo que estava sendo feito com o aval das autoridades municipais.

Ao que tudo indica, nem Executivo nem Legislativo se aprofundaram no assunto e simplesmente cederam em torno de 1,7 quilômetro de ferrovia, o que equivale a cerca de 51 mil metros quadrados, em uma região onde terrenos nos condomínios são vendidos por cerca de 2,5 mil por m².

Por mais que esta área tenha ficado na parte externa do novo condomínio de luxo, a investigação do Ministério Público Federal, que questiona a competência para que a área fosse cedida, tende a provocar um imbróglio legal que pode ser arrastar por anos.

Enquanto isso, o empreendimento corre o risco de ficar paralisado e todo o projeto ter de ser refeito. 

O trecho de trilho invadido e retirado com autorização dos vereadores e da prefeita de Campo Grande faz parte do antigo traçado da ferrovia.

Depois da construção do contorno ferroviário, ativado no fim de 2006, o traçado da ferrovia efetivamente utilizável passou a ficar longe da área urbana de Campo Grande.

Mesmo assim, as terras nas quais estão os antigos trilhos continuam nas mãos da empresa responsável pela concessão, a Rumo, e pertencem ao governo federal, verdadeiro proprietário do imóvel. A Rumo foi à Polícia para exigir a devolução da área. 

Caso a Justiça entenda que aquele trecho de ferrovia tenha de ser reconstruído, como agora deseja a Rumo, uma vez que dá acesso a uma antiga estação ferroviária, os custos serão bancados por quem?

Os vereadores certamente não vão querer colocar a mão no bolso e a incorporadora responsável pelo condomínio, também não. Ou seja, quem terá de pagar a conta será o contribuinte de Campo Grande. 

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Artigo

Por que trocar o prazer das telas do celular pelo prazer da leitura

Este apego moderno tem substituído hábitos antigos mais saudáveis, como o da leitura

29/04/2026 07h45

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Minha desconfiança com o entretenimento instantâneo começou numa manhã de sexta-feira, a caminho do trabalho. A situação trivial, naquele vagão de metrô, teria sido há muito esquecida, salvo por um detalhe curioso: todas as pessoas sentadas, dentro do meu campo visual, tinham a cabeça inclinada e os olhos pregados em seus respectivos celulares.

Havia, entre elas, rostos curiosos e concentrados; alguns pareciam divertidos e outros, tristes. O único traço comum a todos era o isolamento social.

Vivenciamos, com o advento dos modernos aparelhos celulares, uma era de conforto, comunicação e acesso à informação sem precedentes.

Informação no sentido mais amplo possível: da singela música infantil ao esquema de funcionamento de um artefato bélico nuclear, passando por toda a sorte de conteúdo pensado para capturar a atenção do usuário pelo maior período de tempo possível.

Onipresentes na rede, algoritmos eficientes identificam preferências individuais, realimentando o usuário em um interminável carrossel de novidades afins.

É sabido que o cérebro humano tende a repetir ações que ativem o sistema de recompensa baseado nos chamados “hormônios do prazer”, cuja finalidade é o reforço de comportamentos favoráveis à sobrevivência do indivíduo, como o estresse da caça, a concentração do aprendizado ou o esforço físico produtivo.

Como não há dilemas de sobrevivência envolvidos na interminável rolagem da telinha, temos, nesse caso, o reforço de um hábito que leva o usuário a consumir horas do seu tempo numa atividade absolutamente estéril, tudo pelas endorfinas “baratas” e instantâneas proporcionadas pelo celular.

Este apego moderno tem substituído hábitos antigos mais saudáveis, como o da leitura. Ler exige, contrariamente ao entretenimento instantâneo, investimento de longo prazo.

Adiando a recompensa, comunicamos ao nosso cérebro que coisas boas exigem esforço, investimento e participação. Ler demanda esforço intelectual, disciplina e comprometimento. É treino mental.

Treino que abre portas para a satisfação da tarefa cumprida, do trabalho bem-feito, do aprendizado e da realização pessoal.

Se o usuário compulsivo das telas tende à preguiça e à procrastinação – pois está viciado em recompensas imediatas –, o leitor assíduo treina sua mente para as demandas da vida e para a ação.

E aí, de qual lado você quer ficar?

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