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Crimes no esporte e governança

Programas de governança e de compliance devidamente estruturados tendem a reduzir a ocorrência de ilícitos

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Os recentes, embora não inéditos, casos de crimes cometidos no âmbito esportivo, notadamente aqueles praticados por atletas e, sobretudo, por dirigentes, precisam de uma análise crítica à luz do sistema do futebol brasileiro.

O futebol, ao contrário do que ocorre em outros países e em outras áreas, caminha a curtos passos para uma real profissionalização. Reina, ainda, um ambiente próprio, informal.

É fato que programas de governança e de compliance devidamente estruturados tendem a reduzir a ocorrência de ilícitos, seja pela criação de um ambiente institucional de integridade e prevenção sistêmica, seja pela maior rapidez e eficiência na detecção de condutas irregulares.

Evidentemente, tais programas somente produzem efeitos concretos quando contam com o efetivo comprometimento da alta administração, condição sem a qual a governança inexiste.

No contexto de instituições esportivas informais, uma característica estrutural de grande parte do esporte brasileiro, a aderência a programas preventivos e de cumprimento normativo revela sério deficit de eficiência.

Mesmo grandes clubes ainda operam com programas de integridade incipientes, estruturas altamente personalistas ou padrões típicos do esporte amador. Soma-se a isso o volume expressivo de recursos financeiros que circulam nos clubes, especialmente no futebol brasileiro, e tem-se um cenário fértil para a prática de ilícitos.

Diante desse quadro, observa-se um movimento de retomada repressiva, com a intensificação de investigações e punições no âmbito do esporte. Contudo, emerge aqui um problema clássico do Direito Penal brasileiro: a possibilidade de ampliação excessiva de responsabilidades.

Na ausência de programas eficazes, com delimitação clara de funções e registros formais adequados dos atos praticados, as investigações tendem a alcançar um número significativamente maior de pessoas, frequentemente colocando culpados e inocentes sob o mesmo espectro de suspeição, com fundamento em figuras já conhecidas, como a cegueira deliberada ou a omissão, por exemplo.

Paralelamente, a legislação vigente não acompanha a complexidade do setor esportivo, deixando lacunas e zonas cinzentas de responsabilização, tema já por mim explorado em trabalhos anteriores sobre a Lei Geral do Esporte.

Essas arestas normativas acabam por agravar a insegurança jurídica e ampliar o risco de responsabilizações indevidas ou, até mesmo, de não responsabilizações em casos em que estas são necessárias.

Surge, então, a indagação: a transformação dos clubes em Sociedades Anônimas do Futebol (SAFs) solucionaria o problema? A resposta simplista afirmativa ignora o fato evidente de que sociedades anônimas também podem ser palco de crimes corporativos, fraudes e problemas de gestão. A mera alteração da forma jurídica não elimina, automaticamente, práticas ilícitas enraizadas.

Portanto, o debate não deve se reduzir ao falso binômio modelo associativo versus SAF. O cerne da questão reside em uma discussão técnica, séria e efetiva sobre governança, compliance e, sobretudo, sobre uma mudança radical de comportamento.

Sem isso, qualquer modelo jurídico continuará sendo apenas um modelo incapaz de conter decisões fraudulentas oriundas do topo da organização.

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A "caneta da vez" deve ser a consciência

Dia Mundial da Obesidade, no dia 4, traz um alerta importante de que estamos diante de um problema crescente de saúde pública

14/03/2026 07h45

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A recente passagem do Dia Mundial da Obesidade, no dia 4, traz um alerta importante: estamos diante de um problema crescente de saúde pública. Hoje, cerca de 20% dos adultos brasileiros vivem com obesidade, e mais de 50% apresentam excesso de peso.

Não se trata de uma questão estética, mas de uma doença crônica, complexa e multifatorial, associada a diabetes, hipertensão, doenças cardiovasculares e vários tipos de câncer.

Nesse cenário, as chamadas “canetas emagrecedoras” ganharam destaque. Medicamentos como os análogos de GLP-1 e a tirzepatida atuam no controle do apetite, aumentam a saciedade e melhoram a resposta metabólica à glicose. São ferramentas modernas e eficazes, mas não são mágicas e nem indicadas para todos.

Essas medicações têm critérios claros de indicação: geralmente para pessoas com IMC ≥ 30 kg/m² ou ≥ 27 kg/m² associadas a comorbidades, sempre com avaliação médica. Usá-las apenas por motivação estética, sem acompanhamento, é um erro que pode custar caro.

Náuseas, vômitos, desidratação e alterações metabólicas são efeitos possíveis. Mais grave ainda é o risco de medicamentos falsificados.

Produtos sem controle de qualidade podem conter doses incorretas, contaminantes ou substâncias desconhecidas, levando a reações alérgicas severas, infecções, hipoglicemia, coma e até risco de morte.

É fundamental reforçar: todo procedimento ou medicamento para perda de peso aumenta a chance de emagrecimento, mas nenhum garante a manutenção do peso a longo prazo. Nem mesmo a cirurgia bariátrica impede o reganho se não houver mudança consistente no estilo de vida.

O tratamento da obesidade se sustenta em um tripé: atividade física regular (no mínimo de 150 minutos por semana), acompanhamento nutricional individualizado e seguimento médico contínuo, com ou sem medicamentos ou cirurgia.

Há ainda um pilar muitas vezes negligenciado: a saúde mental. Comer envolve emoções, rotina, estresse e relações. Sem cuidar da mente, qualquer intervenção tende a ser temporária.

No meu livro “Mente e Movimento”, abordo justamente essa conexão entre corpo, exaustão emocional e escolhas diárias.

A obesidade não é falta de força de vontade. É um reflexo de múltiplos fatores biológicos, sociais e psicológicos. Informação de qualidade, acompanhamento responsável e mudança de mentalidade são caminhos mais seguros do que soluções rápidas.

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E o Oscar vai para?

Premiação campeã em cometer injustiças, seja com atores, diretores ou com filmes em geral

14/03/2026 07h30

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Enquanto Jorge Luís Borges, sempre imaginou que o paraíso fosse como uma espécie de biblioteca; para mim, desde tenra idade, imaginei que o Cinema também deveria ter cadeira cativa neste tão sonhado paraíso do poeta Argentino.

Sempre fui admirador confesso (e quase incondicional) da Sétima Arte, a ponto de nunca ter conseguido esconder (embora tenha tentado), que um dia contribuiria para um dos maiores espetáculos da Terra, nem que fosse atrás das câmeras.

Pretensões audazes ou quimeras à parte, ainda sou um entusiasta e cinéfilo de carteirinha e tal, mas com direito “a dar uma queixazinha”, tanto quanto Raul, quando questionou na clássica “Eu também vou reclamar”, por que “ Pra se fazer sucesso/Pra vender disco de protesto/Todo mundo tem que reclamar?”

É que dos anos 1980 para cá, mudou muita coisa, em matéria de Cinema, principalmente em relação a mais “badalada” das premiações, que não é a única no Mundo, mas continua sendo superestimada.

Entretanto, uma conclusão é fatal: chegando a 98ª edição, o Oscar é uma premiação campeã em cometer injustiças, seja com atores, diretores ou com filmes em geral.

Quem nunca questionou no dia seguinte à premiação, porque determinada indicação dada não foi contemplada com a cobiçada estatueta, que levante o braço.

Esse sentimento é “na real” (prosaicamente falando), um dos que mais contribuiu para retirar do evento aquele antigo sabor que ele tinha, de criar expectativas esfuziantes, em torno do favorito de cada um.

Claro que nem todas as produções podem concorrer e, mais óbvio ainda, é que nem todas as indicações poderão ser contempladas com o prêmio principal em cada categoria, mas já houve tanta indicação ou premiação absurdamente injusta, que a cerimônia acaba servindo, presentemente, apenas para se matar a saudade de alguns grandes nomes que por lá aparecem.

Para este ano, apesar da criação de categoria nova, não temos assim uma “superprodução” no páreo, capaz de suscitar a possibilidade de “humilhar” outras, no número de premiações, como por exemplo, um “Ben Hur”, de 1959; ou até mesmo um “Titanic”, de 1997.

Esses “filmaços” se destacaram não só pelas indicações, mas pelo custo e artesanato da produção, que hoje acaba sendo “ofuscada pelos recursos tecnológicos, em que o talento e outros elementos antes essenciais, ficam relegados a um segundo (ou último) plano.

Ainda assim, “para não dizer que não falei das flores” (feito Vandré), temos produções, digamos assim, razoáveis no mercado (em que se tornou o Cinema).

Se fosse por predileção, escolheria o trabalho norueguês “Valor sentimental”, em que Joachim Trier captura muito bem o drama vivido por um diretor de cinema e suas filhas Nora e Agnes, com todas as nuanças dos conflitos humanos.

Não deixaria de fora, também, os oníricos efeitos que “Sonhos de Trem” nos deixa, ao percorrer trilhas e trilhos imagéticos, que levam as digitais do competente brasileiro, Adolpho Veloso.

Entretanto, como minha predileção certamente não impera em detrimento da escolha dos jurados, deixo aqui, ao menos, a torcida para que trabalhos como esses não fiquem totalmente de fora da premiação, já que os tão falados “Pecadores” e “Uma Batalha Após a Outra” tendem a confirmar as especulações de premiações.

O Oscar não está para o Cinema na essência, como um título de campeão está para um clube de futebol, pois a finalidade de se fazer filme não deve ser a de obter premiação, mas a de criar um trabalho artístico.

Tampouco deve o Cinema servir como espaço para militância político-ideológica, pois isso retira a beleza artística.

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