Artigos e Opinião

CORREIO DO ESTADO

Editorial desta segunda-feira: "Mais crédito, mais fôlego"

Editorial desta segunda-feira: "Mais crédito, mais fôlego"

Redação

29/08/2016 - 03h00
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Crédito mais fácil, que gere mais dinheiro circulando é o primeiro passo para aumentar o consumo e, por consequência, reengrenar o País.

Em época de crise, cuja característica marcante é a falta de liquidez na economia, é importante que medidas visando a circulação de dinheiro no mercado sejam tomadas.

Além de fomentar o consumo e aumentar investimentos, se não acabam, pelo menos atenuam os efeitos devastadores da retração.

Em reunião do Conselho Estadual de Investimentos Financiáveis pelo Fundo Constitucional do Financiamento do Centro-Oeste (FCO), agendada para esta semana, será importante que parte dos R$ 400 milhões da linha de crédito prevista na Constituição da República, e que ainda não foram emprestados, seja redirecionada do setor empresarial para o rural.

Não que o setor empresarial não precise de crédito fácil, como é o FCO. Pelo contrário, precisa e muito. Porém, a falta de otimismo e o “pé no chão” gerados pela crise econômica, certamente tem afastado o empresário dos bancos.

O aumento das restrições na hora de contratar o empréstimo, também é um dos fatores que ajudaram a represar pouco menos da metade dos R$ 1,1 bilhão destinados a Mato Grosso do Sul deste ano, via FCO.

Indiretamente, o setor empresarial poderá ser ajudado pela reversão de parte do crédito do FCO para a área rural. O setor do agronegócio vem registrando dois anos seguidos de crescimento em meio a crise econômica.

Impulsionado pelo mercado externo, e pela manutenção do consumo de alimentos, a agricultura e pecuária são as maiores trincheiras de resistência ao tsunami que tem devastado o Brasil nos últimos dois anos.

Se é para ter mais dinheiro circulando no mercado, e fomentar não somente as operações financeiras, mas também o comércio em geral - do de alimentos ao de grandes equipamentos - que seja por meio do setor que tem enfrentado os problemas econômicos com mais vigor.

O que não pode ocorrer é que Mato Grosso do Sul devolva dinheiro que tem direito à União. Faltam pouco mais de 30 dias para o encerramento do prazo para contratação de crédito via FCO deste ano. Como somente R$ 607 milhões dos R$ 1,1 bilhão disponíveis foram aprovados, os recursos correm o risco de voltar à origem.

Para o próximo ano já é sabido que a União colocará a mão em 30% dos recursos arrecadados pelos fundos constitucionais de desenvolvimento das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste. A medida está prevista na Proposta de Emenda Constitucional da Desvinculação das Receitas da União (DRU), aprovada na última semana.

Entre 2017 e 2020, Mato Grosso do Sul terá disponível um crédito de R$ 5,6 bilhões por meio do FCO.

Deste valor, entretanto, não está subtraído a quantia que a União poderá pegar para ela, para melhorar suas contas. É necessário, portanto, que as autoridades e entidades representantes da indústria, comércio e agronegócio, cobrem melhores condições de crédito para que a economia volte a crescer.

Para que o otimismo volte à economia, é necessário que alguém dê o primeiro passo. Para se sair do buraco, é necessário que alguém estenda a mão. Crédito mais fácil, que gere mais dinheiro circulando (liquidez) é o primeiro passo para aumentar o consumo e, por consequência, reengrenar o Estado e o País.

EDITORIAL

Manutenção viária exige novo rumo

Quando a lógica predominante é a do remendo frequente, o município, como ocorre em Campo Grande, permanece preso a um ciclo oneroso e pouco eficiente

25/02/2026 07h15

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Campo Grande volta a enfrentar, mais uma vez, um problema que se arrasta há pelo menos duas décadas: a precariedade do asfalto, especialmente durante o período de chuvas.

A cada temporada de temporais, multiplicam-se os buracos, os remendos provisórios e os transtornos para motoristas, motociclistas e pedestres. O cenário já se tornou previsível e, por isso mesmo, mais difícil de justificar.

Não se trata de uma dificuldade recente nem de um desafio inesperado. No início da década passada, o Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS) conduziu ampla investigação sobre a chamada “máfia do tapa-buracos”, que revelou desvios milionários em contratos de manutenção de vias.

À época, a apuração expôs fragilidades graves na gestão dos recursos públicos destinados à conservação do pavimento urbano.

Passados mais de 10 anos, a cidade novamente convive com o desgaste acelerado das ruas, o que evidencia que o problema estrutural não foi superado. Os valores aplicados na manutenção naquele período, tudo indica, não produziram o resultado esperado.

Em vez de intervenções estruturantes, como o recapeamento completo de trechos críticos, prevaleceram soluções paliativas. No médio e no longo prazo, a consequência é conhecida: custos mais elevados e necessidade constante de novos contratos emergenciais.

A manutenção viária exige planejamento técnico e visão estratégica. Recapear adequadamente uma via pode representar investimento maior no curto prazo, mas tende a reduzir despesas futuras com reparos sucessivos.

Quando a lógica predominante é a do remendo frequente, o município permanece preso a um ciclo oneroso e pouco eficiente.

Diante desse histórico, torna-se oportuno discutir modelos alternativos de contratação. Passa da hora de o Município considerar contratos mais longos, nos moldes de uma miniparceria público-privada, com metas claras de desempenho e responsabilidades definidas ao longo do tempo.

O Estado já sinaliza que adotará modelo semelhante nas rodovias estaduais, por meio do Crema, protocolo criado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e aplicado com resultados positivos em diferentes países e também no Brasil, onde o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) o utiliza em diversas rodovias federais.

O modelo prevê contratos de recuperação e manutenção com prazos estendidos, vinculando pagamentos ao cumprimento de padrões de qualidade previamente estabelecidos.

A experiência tem mostrado maior resiliência das vias submetidas a esse tipo de gestão, justamente porque o contratado assume compromisso contínuo com o desempenho da via.

Transpor essa lógica para o ambiente urbano não significa replicar fórmulas sem adaptação, mas incorporar princípios de planejamento, fiscalização e responsabilidade contratual mais rigorosos. O ponto central é romper com a cultura do improviso e do contrato fragmentado, que tende a gerar descontinuidade e ineficiência.

A população de Campo Grande convive diariamente com prejuízos materiais, riscos de acidentes e desgaste na mobilidade. A infraestrutura urbana é um serviço essencial, e sua manutenção não pode ser tratada como questão episódica.

Contratos transparentes, critérios técnicos sólidos e mecanismos de controle efetivo são condições básicas para que o ciclo de deterioração seja finalmente interrompido.

ARTIGOS

Escala 6x1: atalho perigoso ou falha na gestão?

Em setores intensivos em mão de obra como varejo, supermercados, restaurantes e call centers , em que as margens já operam no limite, a reação tende a ser defensiva

24/02/2026 07h45

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Para muitas empresas brasileiras, o debate sobre o fim da escala 6×1 não é percebido como modernização do trabalho, mas como um alerta vermelho piscando no painel de controle.

Em setores intensivos em mão de obra – como varejo, supermercados, restaurantes e call centers –, em que as margens já operam no limite, a reação tende a ser defensiva. É importante dizer: essa resistência raramente nasce apenas de má vontade.

Ela reflete modelos de gestão ultrapassados, baixa digitalização, processos frágeis e um medo legítimo de perder previsibilidade operacional e financeira.

Menos dias trabalhados por pessoa podem significar, no curto prazo, mais contratações, horas extras ou redesenho de turnos, pressionando o caixa.

Em operações que funcionam sete dias por semana, com horários estendidos, a escala 6×1 ainda surge como a forma mais simples, embora rudimentar, de “fechar a conta”. O problema é que essa lógica se apoia mais no controle da presença do que em indicadores reais de produtividade.

Dados da OCDE e do Banco Mundial mostram que eficiência não está ligada a mais horas trabalhadas, mas ao melhor uso do tempo, processos e tecnologia. No fundo, a defesa da escala 6×1 decorre mais de conveniência e receio da mudança do que de convicção.

O desafio não é apenas trocar a escala, mas mudar a mentalidade gerencial: sair do controle para a eficiência, da presença para o resultado.

Do lado do empregador, a escala 6×1 reflete uma lógica levada ao limite: maximizar cobertura, diluir custos fixos e garantir operação contínua, ainda que à custa da qualidade do desenho do trabalho. Tornou-se um padrão histórico, baseado na ideia de que horas alocadas equivalem a produtividade.

Para o empregado, porém, a leitura é outra. O modelo prioriza o negócio sobre a energia humana, comprimindo descanso, vida pessoal e a capacidade de sustentar saúde e relações no longo prazo.

A mensagem implícita é clara: “você é substituível”, o que enfraquece vínculo, pertencimento e engajamento, especialmente em um mercado mais móvel e informal.

A aparente eficiência da jornada 6×1 cobra um alto preço no médio e longo prazo. Jornadas exaustivas aumentam a rotatividade, os custos ocultos e reduzem a produtividade, um paradoxo já apontado pela OCDE.

O cansaço crônico eleva falhas, acidentes e afastamentos por adoecimento físico e mental, segundo OMS e OIT. Em um mercado mais transparente, manter a escala 6×1 dificulta a atração de talentos e amplia o desgaste reputacional, inclusive diante das agendas de ESG.

O debate sobre o fim ou a flexibilização da escala 6×1 costuma ser rotulado como ideológico, mas essa leitura é simplista. Há discurso político dos dois lados, sem dúvida. No entanto, o núcleo da discussão contemporânea está cada vez mais ancorado em evidências de gestão, saúde ocupacional e produtividade.

Países com jornadas mais equilibradas tendem a performar melhor quando combinam organização do trabalho, tecnologia, qualificação e liderança preparada, segundo a OCDE.

No Brasil, a baixa produtividade não está no esforço individual, mas em falhas estruturais. Insistir em jornadas longas para compensar essas falhas é um paliativo perigoso.

A pergunta que separa discurso de gestão é simples: a empresa mede produtividade por hora, processo e resultado ou pelo cansaço visível das pessoas? Quando a resposta é a segunda, o problema não está na jornada, mas no modelo de gestão.

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