Artigos e Opinião

ARTIGO

Gilberto Verardo: "Uma colcha de retalhos"

Psicólogo

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Já tive uma colcha desta feita por uma senhora de 72 anos na época. Uma obra de arte a composição aleatória dos pedacinhos de tecidos com diversidade de estampas. Deixava o quarto aconchegante. Cora Coralina também homenageou os pedacinhos aleatórios de tecidos multicoloridos em seu breve poema ‘Sou feita de retalhos”. Pedacinhos coloridos de cada vida que passa pela minha e que vou costurando na alma. Prossegue “E penso que é assim mesmo que a vida se faz: de pedaços de outras gentes que vão se tornado parte da gente também. Diferentes em cores e formatos, os pedacinhos de tecidos sozinhos nada significam. Não compõe nada. Apenas um pedacinho jogado nos cantos. Tudo muda quando pedacinho se junta a outros até formar um grande tecido multicolorido, onde a diversidade de cores, formas e tamanhos resultam em uma bela colcha de retalhos.

Observado de certa altitude, cidades, estados e continentes parecem uma colcha de retalhos. Já reparou? Nossa sociedade não deixa de ser uma colcha de retalhos. Nosso tecido social, composto por individualidades diferentes umas das outras, não consegue imitar uma colcha de retalhos. Talvez em razão de ser concebida artesanalmente, com paciência e sem preocupação com uma harmonia planejada, onde a vontade de tecer uma colcha não levou em conta passos planejados. Deixou a espontaneidade do momento ir ditando os próximos passos, evitando com arte frustrações entre o desejo e a realidade. No tecido social, poder ser que por vaidade íntima não se consegue a mesma magia de uma colcha de retalhos. Uns querem que o formato sobressaia. Outros tantos defendem a cor e outros o tamanho. De qualquer maneira temos o nosso tecido social costurado por um consenso sempre provisório, diferente da colcha de retalho que uma vez pronta torna definitiva sua composição de diversidade. Parece que a satisfação da arte final acaba com o improvisado. Tal como na alma dos artistas e de suas artes ao reinventarem a realidade acabam se revelando arautos do inconsciente coletivo reclamando a felicidade perdida. Arte e cultura são essenciais para o tecido social tal como é a agulha no tecer da colcha de retalhos. A inquietação das artes é como uma linha que possibilita unir os pedacinhos de forma harmoniosa, sem planejamento. A cultura é como pedacinhos de tecidos multicoloridos onde a diferença é o ingrediente para dar o caráter estético. Arte e cultura são meios civilizados que amoldam as inquietações humanas. Não por que sejam eminentemente terapêuticas, mas especialmente por atraírem o olhar sedento pelo belo, pelo harmônico. Tais condições não encontramos da cultura de massa propagada pela mídia de massa também, justamente por desconsiderar os pedacinhos humanos e se importar com números de audiência apenas. Não devemos nos esquecer que a maturidade de um povo se mede por sua produção cultural, pois ela sempre revela a exata distinção entre o que é pessoal e o que é coletivo. Por sua natureza crítica, arte e cultura vivem quase sempre confinada em guetos da censura econômica.

Agora, no lugar dos pedacinhos de tecido, árvores e mais árvores para compor nossa colcha ambiental fragilizada pela falta de apego a tudo que é diferente do seu quintal. Talvez assim o presidente do Brasil são substitua os olhos dos satélites do INPE. Cada árvore derrubada inutilmente te é como um pedacinho da colcha ambiental que menosprezamos, pois muitos ainda acham que a percepção das coisas começa no umbigo.

 

Editorial

Mercado precisa de regras e fiscalização

Quando poucas empresas como ocorre com as grandes distribuidoras de alcance nacional concentram a capacidade de formar preços, o risco de distorções aumenta

02/04/2026 07h15

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O anúncio feito nesta semana pelo governador de Mato Grosso do Sul, de que o Estado intensificará a fiscalização sobre distribuidoras e postos de combustíveis para evitar abusos nos preços do óleo diesel, da gasolina e do etanol, vai na direção correta.

Em um cenário de constante oscilação nos valores e forte impacto sobre o custo de vida da população e sobre a cadeia produtiva, sobretudo o transporte e o agronegócio, a atuação do poder público como agente fiscalizador torna-se não apenas legítima, mas necessária.

A medida ganha ainda mais relevância no momento em que o governo estadual já sinalizou adesão à proposta do governo federal de reduzir a tributação sobre o óleo diesel importado.

A redução de impostos, por si só, não garante que o consumidor final será beneficiado. Sem acompanhamento rigoroso, há o risco de que a diminuição de custos fique concentrada nos intermediários, sem refletir nas bombas.

Daí a importância de combinar políticas tributárias com fiscalização efetiva, garantindo que eventuais benefícios cheguem de fato à população.

No entanto, considerando o peso institucional do Estado, essa vigilância deveria ser uma prática permanente, e não apenas uma reação pontual.

A atuação precisa ser contínua, não apenas por parte do Procon de Mato Grosso do Sul, mas também dos demais órgãos de defesa do consumidor e do Ministério Público.

A fiscalização sistemática cria previsibilidade, reduz distorções e sinaliza ao mercado que práticas abusivas não serão toleradas. É a presença constante do Estado que assegura o cumprimento das regras.

Há, é verdade, uma infinidade de teses – muitas delas conflitantes – sobre o papel do Estado na economia. Contudo, independentemente da corrente ideológica, é preciso reconhecer que uma fiscalização firme não sufoca o mercado; ao contrário, estimula a livre concorrência.

Quando os agentes econômicos sabem que há controle, transparência e regras claras, as disputas se tornam mais equilibradas e os preços tendem a refletir melhor a dinâmica real de custos e oferta.

Uma analogia ajuda a compreender esse ponto: imagine uma partida de futebol sem árbitro, na expectativa de que as duas equipes se autorregulem. Quem mediará os conflitos? Quem fará cumprir as regras? Quem impedirá as faltas mais duras? No mercado, a lógica é semelhante.

O poder público atua como árbitro, garantindo que a competição ocorra dentro dos limites estabelecidos e que nenhum agente abuse de sua posição.

Quando poucas empresas – como ocorre com as grandes distribuidoras de alcance nacional – concentram a capacidade de formar preços, o risco de distorções aumenta.

Nesses casos, o discurso de livre mercado perde força e surgem suspeitas de alinhamentos que prejudicam a concorrência.

A fiscalização, portanto, torna-se ferramenta essencial para evitar que a concentração se transforme em prática cartelizada, com prejuízos diretos ao consumidor.

Que o anúncio não seja apenas pontual. Que a fiscalização se intensifique, torne-se permanente e seja ampliada. A presença ativa do Estado, nesse caso, não representa intervenção indevida, mas sim a garantia de um mercado mais justo, competitivo e transparente.

Quem ganha é a população, que depende do combustível não apenas para se locomover, mas para sustentar toda a dinâmica econômica do Estado.

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Artigo

Na democracia, a alternância no poder é salutar

As democracias modernas são caracterizadas pelo sistema representativo, em que os cidadãos elegem representantes para tomar decisões em seu nome

01/04/2026 07h45

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Tanto salutar como necessária, pois somente assim a participação do povo, que escolhe seus representantes, pode ser sentida, evitando a continuidade de um grupo dominante, em que o vício na administração se torne caminho fértil à corrupção, que compromete os recursos pagos pelos cidadãos, que não têm o respectivo retorno nas necessidades básicas da população, como na educação, na saúde, na segurança, como também na construção e na melhoria das vias públicas e rodovias.

A democracia pode não ser um sistema perfeito de governo, porém, ainda é o melhor. Sua origem se deu por volta do século 5 a.C. A palavra democracia vem do grego “demos”, que significa povo, e “kratos”, que significa “poder”. Tudo teve origem em Atenas, onde, no ano 508 a.C., Clístenes implementou reformas que levaram à criação da democracia ateniense, em que cidadãos (homens livres, nascidos em Atenas) tinham direito a participar das decisões políticas da cidade.

A ideia de democracia evoluiu ao longo da história, influenciando a Revolução Francesa, a independência dos Estados Unidos e a criação de democracias modernas. É bom ressaltar que a democracia moderna se desenvolveu principalmente a partir das ideias iluministas do século 18, com a Revolução Francesa, em 1789, e a Revolução Americana, em 1776, sendo consideradas marcos importantes.

As democracias modernas são caracterizadas pelo sistema representativo, em que os cidadãos elegem representantes para tomar decisões em seu nome.

Apesar de frequentes reformas constitucionais, o sistema eleitoral ainda carece de algo que possa inibir o continuísmo no poder, algo que está enraizado na cultura política do País desde os tempos das capitanias hereditárias, ainda no Brasil colonial.

Os senhores políticos experientes se utilizam de mecanismos legais para se perpetuarem no poder e, ao se aposentarem, já têm seus sucessores devidamente escolhidos, sem que tal prática seja considerada ilegal e, muito menos, imoral.

Por que não limitar os mandatos dos vereadores, deputados e senadores a apenas uma reeleição?

Refletindo melhor, política não é profissão; além do mais, propicia a criação de novas leis, novos regulamentos que sempre se tornam benefícios em causa própria.

Estamos em ano eleitoral, eis aí uma excelente oportunidade para desalojar os políticos profissionais, que sequer apresentam projetos, emendas ou indicações que visem à melhoria da condição de vida das pessoas carentes.

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