Artigos e Opinião

EDITORIAL

Governar é decidir: o impasse do transporte

Governar é decidir, e decidir, muitas vezes, significa enfrentar contratos mal resolvidos, como o do transporte coletivo, interesses consolidados e riscos políticos

Continue lendo...

Governar não é tarefa fácil. E nunca foi. A condução de uma cidade, de um estado ou de um país exige escolhas diárias que, quase sempre, desagradam a algum grupo. O ônus de governar, por incrível que pareça para muitos, é justamente esse: tomar decisões.

E, mais do que isso, ter coragem para arcar com as consequências que elas inevitavelmente trazem.

A prefeita de Campo Grande, Adriane Lopes, volta a se ver diante de uma encruzilhada desse tipo. Nos próximos dias, ela precisará decidir se acata a decisão judicial que determina uma intervenção no Consórcio Guaicurus ou se recorre da medida até as últimas instâncias.

A opção que se desenha, ao que tudo indica, é a do recurso. Não apenas por estratégia jurídica, mas também porque o Município, hoje, não parece preparado para cumprir integralmente com o que a decisão exige.

Ainda assim, é impossível ignorar o pano de fundo dessa discussão. Se houve pedido de intervenção e se a Justiça entendeu haver fundamentos para deferi-lo, isso não ocorreu por acaso. O contrato de concessão do transporte coletivo urbano de Campo Grande não tem atendido às expectativas da população.

Se estivesse funcionando de forma satisfatória, a cidade não teria assistido, há cerca de um mês, à maior greve da história do setor. Tampouco teria havido no ano passado uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) na Câmara Municipal para apurar falhas, responsabilidades e possíveis irregularidades.

O transporte coletivo da Capital enfrenta problemas conhecidos e recorrentes: qualidade insatisfatória do serviço, modelo de financiamento frágil, falhas de planejamento e insuficiência de investimentos ao longo dos anos.

Esses fatores se combinam e resultam em um sistema que não atende plenamente nem usuários, nem trabalhadores, nem o próprio poder público. E, apesar da gravidade do cenário, pouco tem sido feito, na prática, para alterar essa realidade de forma estrutural.

Independentemente do juízo de valor que se faça sobre a ação judicial e sobre a intervenção como instrumento, é inegável que ela busca uma solução para um problema concreto e antigo.

Se essa é a melhor saída, se é juridicamente adequada ou administrativamente viável, caberá ao Judiciário, ao Município e aos demais atores envolvidos definir. O que não é mais possível é tratar o tema como se nada estivesse errado.

Governar é decidir. E decidir, muitas vezes, significa enfrentar contratos mal resolvidos, interesses consolidados e riscos políticos. Fugir dessa responsabilidade pode até adiar o desgaste, mas não resolve o problema.

O transporte coletivo de Campo Grande exige respostas. E elas não podem ser eternamente empurradas para depois.

ARTIGOS

Colapso teocrático

O que vemos hoje é o esgotamento de um modelo que nasceu em 1979 e que vive seu epílogo

16/01/2026 07h45

Continue Lendo...

Em janeiro de 2026, o Irã vive um momento de ruptura definitiva. As ruas de Teerã e das principais províncias não clamam mais por reformas graduais, mas pelo fim de um sistema que se tornou anacrônico.

O regime, que por décadas utilizou o fervor religioso e o nacionalismo para se sustentar, enfrenta hoje uma combinação letal: o colapso econômico interno e a sucessão de derrotas no cenário externo. O que vemos hoje é o esgotamento de um modelo que nasceu em 1979 e que vive seu epílogo.

Compreender a crise contemporânea exige revisitar o colapso de Mohammad Reza Pahlavi. Ao tentar converter o país em uma potência ocidentalizada, o xá negligenciou as bases tradicionais e o clero xiita, enquanto a repressão da Savak, sua polícia política, alienava a elite intelectual.

Esse cenário culminou na Revolução de 1979 – uma coalizão heterogênea em que emergiu a liderança de Ruhollah Khomeini, que ascendeu após a queda da monarquia. O vácuo de poder foi preenchido pela “velayat-e faqih”, doutrina que submeteu a nação à tutela política e espiritual de um clérigo supremo, consolidando a teocracia moderna.

Quase meio século depois, o contrato social da República Islâmica ruiu. O sistema que prometia justiça social entregou uma economia de espoliação, controlada por fundações opacas e pelo braço empresarial da Guarda Revolucionária, que opera em moldes mais cruéis que a antiga Savak.

A crise atual é o ápice de uma década de má gestão e expansionismo baseado no terror, agravada pelas sanções e pelo impacto da Guerra dos 12 Dias, em 2025, que degradou a infraestrutura nuclear e militar do país.

Diferentemente de 2022, as manifestações atuais têm caráter existencial. O coração do levante bate no Bazar, o termômetro da estabilidade política persa. Quando mercadores fecham as portas e se unem aos jovens e às minorias étnicas, o regime perde sua última âncora de legitimidade. Ao mesmo tempo, a repressão mostra sinais de fadiga, com relatos de deserções e a incapacidade de conter focos simultâneos em todas as 31 províncias.

A análise de risco político nos obriga a desenhar caminhos para este desenlace. O Irã de amanhã não será o mesmo de ontem, e sua transição é um debate com reflexos globais.

Um cenário provável é a solução pretoriana: diante da queda iminente, a Guarda Revolucionária poderia desferir um golpe interno, afastando os aiatolás em troca de uma abertura econômica nacionalista e pragmática, aos moldes do Egito.

Outro caminho é a restauração de uma democracia parlamentarista laica, com Reza Pahlavi como símbolo de unidade transicional, assemelhando-se ao modelo espanhol pós-Franco.

Contudo, não se deve subestimar a resiliência ideológica de uma teocracia acuada e o recrudescimento do regime ainda é uma opção, o que poderia transformar o país em uma “Coreia do Norte do Oriente Médio”, mantendo o poder pelo terror e o isolamento absoluto.

Por fim, existe o risco latente de fragmentação e “balcanização”, em que o colapso fomentaria movimentos separatistas e uma guerra civil devastadora.

Os sinais são de que o experimento teocrático chega ao seu epílogo. A questão não é mais se o regime mudará, mas quem estará no controle quando a poeira baixar. O mundo deve estar preparado para o que emergirá das cinzas da teocracia.

ARTIGOS

Hasta cuando

Quem de fato é o ditador diante do autocrata?

16/01/2026 07h30

Continue Lendo...

No início de 2026, não só os venezuelanos, como nós mesmos fomos surpreendidos na madrugada pelos acontecimentos militares envolvendo ataques, invasões, bombardeios, sequestro, rapto, desrespeito à soberania de um país e das leis internacionais, com a morte de 40 pessoas, realizados pelo Exército americano contra um país andino, nosso vizinho e detentor da maior reserva de petróleo mundial.

Historicamente, a Venezuela foi símbolo da luta da independência e inspiração para toda a América Latina nas ações realizadas por Simón Bolívar, então intitulado “o Libertador”, sendo fundamental na libertação de diversas nações, Colômbia, Equador, Peru e Bolívia, incluindo a Venezuela (1811).

Uma ideologia foi revivida e reverenciada a Bolívar, posteriormente, por Hugo Chaves (1999), ao estabelecer a “República Bolivariana da Venezuela”, baseando-se nas ideias de unidade latino-americana e independência de potências estrangeiras (Espanha e França) e, especialmente, contra o dito imperialismo americano, entendido como a prática de exercer influência política, militar, cultural e, especialmente, econômica sobre outros países, na tentativa de expandir seu controle hegemônico e estratégico mundial, justificando suas ações com o combate ao comunismo (passado), a liberdade e, atualmente, o narcotráfico.

E, assim, o imperialismo assume a crença de que tem o direito de expandir seus territórios e ameaçar intervenção militar, garantindo seus interesses na busca por matérias-primas (petróleo, terras raras, metais preciosos), novos mercados e investimentos, controle econômico e político, com ajuda militar direta para os países alinhados, sempre justificando a garantia da liberdade pela força, mantendo práticas neoliberais na manutenção da liderança do dólar, substituindo em parte o estereótipo do comunismo, de vez em quando revisitado pela democracia, pelo narcoterrorismo.

Todas essas atitudes são reprováveis pelo Direito Internacional, mas tem sido aceitas por inúmeras pessoas, incluindo comentaristas, jornalistas, âncoras, influenciadores, especialistas em política internacional, professores conservadores, que emitem opiniões de aprovação desde que “não sendo comigo, nada atinge meu umbigo”, inclusive, ao interpretar os fatos e dizer que não houve sequestro de um presidente, e sim captura de ditador, chefe da narco-organização Cartel de Los Soles, até então inexistente, conforme a própria Justiça americana.

As notícias são incapazes de estabelecer a principal diferença entre um ditador e um autocrata de acordo com a conceituação sobre o exercício do poder.

O ditador se caracteriza pelo exercício de poder de forma absoluta, descontrolada, desproporcional e assimétrica, ao passo que o autocrata se identifica como aquele que se julga legítimo representante ao exercer o poder de modo arbitrário e concentrado.

Julga-se com poder ilimitado, independendo de justificativas para o exercício de sua autoridade, desrespeitando as instituições da administração, desconsiderando as leis, normas e regras, agindo sempre de forma opressiva, jactando-se de sua capacidade e ostentação de força opressiva.

Quem de fato é o ditador diante do autocrata?

O “ditador” encontra-se preso, incomunicável, aguardando um julgamento faccioso com um processo “lawfare”, ao se utilizar afirmativas fictícias com leis nacionais contra cidadãos estrangeiros, acusando-os volatilmente, sendo politicamente incriminados sob uma grave violação e desprezo às leis e aos organismos internacionais, ferindo um princípio fundamental da Carta das Nações Unidas, que proíbe o uso da força contra a soberania e a independência política de Estados.

Enquanto isso, o “autocrata” continua histrionicamente, com suas bravatas, a assustar seus próprios apoiadores e aliados subservientes, distribuindo em todas as direções ameaças econômicas e militares, dirigindo no momento a atenção e o desejo de administrar o petróleo da Venezuela, de abocanhar as matérias-primas da Groenlândia, promover a mudança de regime do Irã e sufocar o governo de Cuba. “Hasta cuándo el mundo aceptará esto?”

NEWSLETTER

Fique sempre bem informado com as notícias mais importantes do MS, do Brasil e do mundo.

Fique Ligado

Para evitar que a nossa resposta seja recebida como SPAM, adicione endereço de

e-mail [email protected] na lista de remetentes confiáveis do seu e-mail (whitelist).