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Greve de ônibus em Campo Grande expõe falhas de gestão e fragilidade institucional

Quando um serviço essencial entra em colapso, evidencia-se a ausência de planejamento, de fiscalização eficiente e de mecanismos de mediação capazes de prevenir crises que afetam diretamente a vida da população

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A greve de ônibus em Campo Grande vai além de um impasse pontual entre trabalhadores, empresas e poder público, ela escancara a precariedade da gestão atual e a fragilidade das instituições responsáveis por garantir a prestação adequada dos serviços públicos.

Quando o transporte coletivo – um serviço essencial – entra em colapso, evidencia-se a ausência de planejamento, de fiscalização eficiente e de mecanismos de mediação capazes de prevenir crises que afetam diretamente a vida da população.

As instituições que deveriam zelar pela entrega de valor à sociedade falham ao permitir que conflitos previsíveis cheguem a esse nível. A gestão pública, ao não exercer seu papel regulador com firmeza e transparência, transfere para o cidadão o custo da ineficiência administrativa.

A falta de diálogo estruturado, de contratos bem fiscalizados e de políticas de mobilidade consistentes cria um ambiente de instabilidade permanente, no qual greves se tornam recorrentes e quase naturalizadas.

O impacto econômico é imediato e amplo. Trabalhadores enfrentam dificuldades para chegar aos seus empregos, empresas perdem produtividade, o comércio registra queda no movimento e serviços essenciais operam de forma precária.

A economia como um todo sai perdendo, pois a interrupção do transporte coletivo afeta cadeias produtivas inteiras e aprofunda desigualdades, penalizando principalmente quem depende exclusivamente do ônibus para se deslocar.

Além disso, a paralisação traz consequências diretas para a saúde e o bem-estar de todos. Com a dificuldade de deslocamento, equipes responsáveis pelos serviços de asseio e conservação também são prejudicadas, resultando em deterioração das condições sanitárias em diversos ambientes, como escolas, supermercados, condomínios, etc.

Esse cenário favorece a proliferação de doenças, aumenta riscos ambientais e compromete a qualidade de vida.

Mais grave ainda é o prejuízo à cidadania. O direito de ir e vir é comprometido, assim como o acesso a serviços básicos, e a população passa a perceber o Estado como incapaz de cumprir sua função básica de garantir serviços públicos de qualidade.

Isso corrói a confiança nas instituições e reforça a sensação de abandono e descrédito na gestão pública.

A greve de ônibus, portanto, não deve ser vista apenas como um problema trabalhista ou operacional, mas como um sintoma de falhas estruturais.

Superar esse cenário exige uma gestão mais profissional, instituições fortalecidas, transparência nos contratos e um compromisso real com a entrega de valor ao cidadão. Sem isso, crises semelhantes continuarão a se repetir, com custos sociais, econômicos e sanitários cada vez mais elevados.

EDITORIAL

Polilaminina e o orgulho da ciência

Celebrar descobertas como a da polilaminina não é ufanismo vazio, é reconhecer o valor do trabalho sério, da pesquisa persistente e da inteligência brasileira aplicada ao bem comum

20/02/2026 07h15

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Há descobertas científicas que ampliam fronteiras. Outras, raras, reescrevem a própria noção de limite humano. A identificação da proteína polilaminina, no Brasil, pode estar nesse segundo grupo.

Trata-se de um experimento iniciado em laboratórios nacionais com potencial real de transformar a história de pessoas que, até hoje, convivem com diagnósticos irreversíveis.

A possibilidade de regeneração em casos de lesão medular – inclusive com perspectiva de reversão da tetraplegia – parecia, até pouco tempo, território exclusivo da ficção científica. Agora, começa a ganhar contornos concretos.

E um dos primeiros casos acompanhados está em Mato Grosso do Sul, como o leitor verá em detalhes nesta edição.

A pesquisa é conduzida na Universidade Federal do Rio de Janeiro, sob liderança da pesquisadora Tatiana Coelho de Sampaio, em parceria com o laboratório Cristália.

A polilaminina atua como uma espécie de “cola biológica”, estimulando a reconexão de neurônios e favorecendo a regeneração de tecidos lesionados na medula espinhal.

O que está em curso é o desenvolvimento de uma molécula promissora, fruto de anos de investigação, testes e validações, que agora começa a apresentar resultados capazes de despertar esperança em pacientes e familiares ao redor do mundo.

É fundamental manter a cautela. A ciência não avança por entusiasmo, mas por método, rigor e comprovação. Ainda há etapas clínicas a cumprir, protocolos a ampliar, dados a consolidar. Nenhuma descoberta séria se sustenta sem o escrutínio da comunidade científica internacional.

O próprio avanço alcançado revela o tamanho do desafio que temos pela frente. No entanto, o que já foi conquistado demonstra algo igualmente relevante: temos talento, capacidade técnica, infraestrutura acadêmica e pesquisadores preparados para produzir conhecimento de ponta.

Em meio a tantas crises e narrativas de desalento, exemplos como esse lembram que o Brasil também é sinônimo de excelência. Nossa ciência, apesar de restrições orçamentárias históricas e obstáculos estruturais, continua gerando soluções inovadoras e competitivas em escala global.

É legítimo criticar falhas, cobrar políticas públicas consistentes e exigir planejamento de longo prazo. Mas é igualmente necessário reconhecer conquistas, valorizar nossos centros de pesquisa e fortalecer a confiança naquilo que somos capazes de realizar.

Celebrar descobertas como a da polilaminina não é ufanismo vazio. É reconhecer o valor do trabalho sério, da pesquisa persistente e da inteligência brasileira aplicada ao bem comum.

Que essa trajetória inspire novos investimentos, estimule jovens talentos e reforce a importância estratégica da ciência para o desenvolvimento nacional.

E que possamos, cada vez mais, desenvolver aqui – em nossos laboratórios e universidades – as curas, as tecnologias e as soluções que façam o Brasil avançar como sociedade e contribuir, de maneira decisiva, para melhorar a vida da humanidade.

ARTIGOS

Proposta americana desloca o eixo de poder e expõe fragilidades do bloco de Pequim

Historicamente, o Brics consolidou-se mais como um sintoma de descontentamento com a hegemonia do G7 do que como uma aliança integrada

19/02/2026 07h45

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Ao analisar o tabuleiro global de 2026, torna-se evidente que a criação do Board of Peace (BoP) por Donald Trump não foi um ato impulsivo, mas uma leitura realista sobre a obsolescência das instituições do século 20.

Enquanto a burocracia europeia se apega a dogmas, Trump identificou a falência terminal da ONU – hoje um fórum de paralisia deliberativa e parasitismo burocrático. Percebendo que a ordem de 1945 ruiu sob o peso da ineficiência, ele propôs uma nova gramática: o pragmatismo transacional elevado ao nível de governança global.

Este vácuo institucional já havia impulsionado a expansão do Brics. Historicamente, o bloco consolidou-se mais como um sintoma de descontentamento com a hegemonia do G7 do que como uma aliança integrada.

Contudo, a estratégia da política externa americana agora demonstra inteligência ao explorar as fissuras dessa arquitetura idealizada pela China. O Brics+, um “casamento de conveniência”, abriga tensões profundas entre exportadores de energia e importadores asiáticos. É precisamente nessa brecha que o BoP se insere.

O movimento americano enfraquece o Brics ao oferecer o que Pequim nunca pôde: acesso imediato e direto ao epicentro do poder econômico e militar, sem as amarras diplomáticas.

Ao instituir uma taxa de US$ 1 bilhão por um assento permanente, Trump não está apenas “vendendo influência”, mas realizando uma filtragem de relevância.

Ele transforma a geopolítica em um ambiente de private equity, onde o aporte financeiro garante um stakeholder com voz ativa. Para nações como Índia, Arábia Saudita ou Brasil, a oferta é tentadora: deixar de ser “sócio minoritário” da China para ser sócio direto na gestão da economia global sob a égide do dólar.

Este jogo altera a ordem internacional de forma irreversível. Ao contornar a ONU, retira-se da Rússia e da China sua ferramenta mais potente: o poder de veto.

No BoP, o poder emana da capacidade de execução e dos recursos. Se os grandes fluxos de capital e garantias de segurança passarem pelo “balcão” do BoP, as cúpulas do Brics e as assembleias da ONU se esvaziam.

O pragmatismo de Trump força o Sul global a uma escolha binária: a retórica de um bloco emergente ou a eficácia transacional de quem controla a moeda global.

A engenharia política dos EUA aplica um xeque-mate sem confronto direto. Em vez de destruir o Brics com sanções, Washington o torna irrelevante. Ao atrair os membros mais influentes do bloco por meio do lucro e da segurança, ocorre uma fragmentação interna.

Sem a Índia ou os gigantes do petróleo, o Brics reduz-se a um eixo sino-russo isolado, perdendo sua legitimidade como voz do mundo em desenvolvimento.

Trump entendeu que, no caos institucional contemporâneo, a influência é conquistada por resultados rápidos. O Board of Peace é a materialização de uma ordem em que a diplomacia é substituída pela negociação executiva.

Se a iniciativa vingar, a história registrará que o fim da ameaça sistêmica dos blocos rivais não veio de uma guerra, mas de uma reconfiguração do tabuleiro. É o triunfo da realpolitik sobre o idealismo: um xeque-mate silencioso que substitui o Direito Internacional pela governança corporativa.

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