Artigos e Opinião

Artigo

Hospital Nosso Lar na história de Campo Grande

Alguns anos depois, a instituição teve sua denominação alteração para Hospital Nosso Lar, que continua sendo referência na prestação de serviços psiquiátricos para toda a região

Continue lendo...

No dia 27 de janeiro de 1966, foi inaugurado em Campo Grande, hoje Mato Grosso do Sul, o Sanatório Mato Grosso, especializado no tratamento de pessoas com sofrimento mental grave.

Alguns anos depois, a instituição teve sua denominação alteração para Hospital Nosso Lar, que continua sendo referência na prestação de serviços psiquiátricos para toda a região.

A construção do prédio e a instalação dos equipamentos levaram duas décadas de campanhas realizadas sob a perseverante liderança de Maria Edwiges de Albuquerque Borges, com apoio da comunidade espírita e da população campo-grandense. 

Após fixar residência em Campo Grande, em 1942, Maria Edwiges e seu esposo, Gumercindo Borges, oficial do Exército Brasileiro, empenharam-se para retomar a ideia de construir um hospital psiquiátrico.

Desde a fundação do Centro Espírita Discípulos de Jesus, ocorrida em 1934, havia a intenção de construir um sanatório, conforme consta na imprensa local.

Maria Edwiges dirigiu a instituição por mais de três décadas, até 1997, quando transferiu o cargo para o senhor Jerônimo Gonçalves da Fonseca.

Conforme ficou na memória local, dona Edwiges, como era mais conhecida, atuou em outras instituições sociais, incluindo creches, escolas e de assistência às pessoas com hanseníase, que eram atendidas no Hospital São Julião.

Além das contribuições da população campo-grandense, a finalização da obra contou com o imprescindível apoio do ex-ministro da Saúde Wilson Fadul, que chegou à cidade de Campo Grande como médico da Aeronáutica.

Após tornar-se conhecido na cidade, começou carreira política como vereador, prefeito, deputado federal e, depois, foi nomeado titular da pasta do Ministério da Saúde, do governo de João Goulart, no fim de 1963, em momento de turbulência política nacional.

No exercício da Pasta, Fadul providenciou condições para que 15 jovens indicados por Maria Edwiges recebessem treinamento especial em enfermagem psiquiátrica no Rio de Janeiro, o que era uma das exigências para a inauguração do hospital. 

Esse treinamento foi interrompido em razão do movimento de 1964. Mas, após os jovens retornarem à cidade, o treinamento teve continuidade em um outro hospital do interior de São Paulo.

Quando foi prefeito, Wilson Fadul sempre contribuiu com as campanhas promovidas pela comunidade espírita local. Em visita à cidade como ministro, foi conhecer as obras de construção do sanatório, acompanhado do diretor do Serviço Nacional de Saúde Mental.

Como resultado dessa visita, anunciou que o Ministério da Saúde providenciaria, como de fato ocorreu, o envio de camas, mesas, cozinha, gabinete dentário, entre outros equipamentos, para viabilizar a inauguração da instituição.

Falecida em 5 de julho de 2000, Maria Edwiges recebeu homenagem póstuma no Senado, proposta pelos senadores Ramez Tebet e Lúdio Coelho. Teve sua trajetória de vida registrada no livro do médico Alex Leite de Melo, intitulado “A Missionária do Amor”, assim como em obituário publicado na revista Reformador, de autoria de Jerônimo Gonçalves Fonseca.

Por todos esses e muitos outros motivos, nossas reverências históricas à benemérita senhora que liderou a construção do Sanatório Mato Grosso. 

Assine o Correio do Estado

Artigo

Por que trocar o prazer das telas do celular pelo prazer da leitura

Este apego moderno tem substituído hábitos antigos mais saudáveis, como o da leitura

29/04/2026 07h45

Continue Lendo...

Minha desconfiança com o entretenimento instantâneo começou numa manhã de sexta-feira, a caminho do trabalho. A situação trivial, naquele vagão de metrô, teria sido há muito esquecida, salvo por um detalhe curioso: todas as pessoas sentadas, dentro do meu campo visual, tinham a cabeça inclinada e os olhos pregados em seus respectivos celulares.

Havia, entre elas, rostos curiosos e concentrados; alguns pareciam divertidos e outros, tristes. O único traço comum a todos era o isolamento social.

Vivenciamos, com o advento dos modernos aparelhos celulares, uma era de conforto, comunicação e acesso à informação sem precedentes.

Informação no sentido mais amplo possível: da singela música infantil ao esquema de funcionamento de um artefato bélico nuclear, passando por toda a sorte de conteúdo pensado para capturar a atenção do usuário pelo maior período de tempo possível.

Onipresentes na rede, algoritmos eficientes identificam preferências individuais, realimentando o usuário em um interminável carrossel de novidades afins.

É sabido que o cérebro humano tende a repetir ações que ativem o sistema de recompensa baseado nos chamados “hormônios do prazer”, cuja finalidade é o reforço de comportamentos favoráveis à sobrevivência do indivíduo, como o estresse da caça, a concentração do aprendizado ou o esforço físico produtivo.

Como não há dilemas de sobrevivência envolvidos na interminável rolagem da telinha, temos, nesse caso, o reforço de um hábito que leva o usuário a consumir horas do seu tempo numa atividade absolutamente estéril, tudo pelas endorfinas “baratas” e instantâneas proporcionadas pelo celular.

Este apego moderno tem substituído hábitos antigos mais saudáveis, como o da leitura. Ler exige, contrariamente ao entretenimento instantâneo, investimento de longo prazo.

Adiando a recompensa, comunicamos ao nosso cérebro que coisas boas exigem esforço, investimento e participação. Ler demanda esforço intelectual, disciplina e comprometimento. É treino mental.

Treino que abre portas para a satisfação da tarefa cumprida, do trabalho bem-feito, do aprendizado e da realização pessoal.

Se o usuário compulsivo das telas tende à preguiça e à procrastinação – pois está viciado em recompensas imediatas –, o leitor assíduo treina sua mente para as demandas da vida e para a ação.

E aí, de qual lado você quer ficar?

Assine o Correio do Estado

Artigo

Geopolítica da pressão

Ao revogar permissões de sobrevoo sem aviso prévio, Seychelles, Maurício e Madagascar fecharam seus espaços aéreos à comitiva taiwanesa

29/04/2026 07h30

Continue Lendo...

No cenário das relações internacionais, a logística de uma viagem de Estado raramente ocupa as manchetes, a menos que se torne o epicentro de uma crise de soberania. Recentemente, a visita oficial do presidente de Taiwan, Lai Ching-te, ao Reino de Eswatini – aliado estratégico na África – foi interrompida por uma manobra geopolítica coordenada.

Ao revogar permissões de sobrevoo sem aviso prévio, Seychelles, Maurício e Madagascar fecharam seus espaços aéreos à comitiva taiwanesa, expondo a face mais agressiva da influência de Pequim sobre nações em desenvolvimento.

Este episódio sinaliza como a segurança da aviação civil e o Direito Internacional estão sendo subjugados por táticas de coerção econômica.

A análise dos dados revela que a decisão dessas três nações não foi um ato de soberania, mas uma concessão necessária diante de uma exposição financeira sem precedentes.

Em Seychelles, a influência de Pequim manifesta-se por meio da dependência direta. Em março de 2026, o governo chinês liberou um subsídio de US$ 14,5 milhões para projetos de habitação e saúde.

Com as importações da China crescendo 164% entre 2025 e 2026, o país tornou-se dependente desse fluxo para manter sua estabilidade social. O custo político de autorizar o voo de Taiwan superava o risco de comprometer o capital essencial para suas obras públicas.

No caso de Maurício, a alavancagem é comercial. Primeiro país africano a firmar um acordo de livre comércio (FTA) com a China, a ilha viu as importações de tecnologia chinesa saltarem 170% em fevereiro de 2026.

A integração das cadeias de suprimento e a presença maciça de bancos chineses transformaram o país em um hub financeiro para Pequim. A revogação da permissão de sobrevoo reflete um alinhamento imposto pelo peso das relações que hoje sustentam a economia mauriciana.

Madagascar apresenta o cenário mais crítico de assimetria. O país enfrenta um deficit comercial em que as importações chinesas superam as exportações em uma razão de 10 para 1.

Sem alternativas imediatas de crédito, o governo malgaxe encontra-se em uma posição de vulnerabilidade que permite a Pequim ditar termos que extrapolam o comércio, interferindo diretamente na gestão de seu espaço aéreo.

Este incidente expõe a transformação de protocolos globais em ferramentas de chantagem. Ao forçar nações terceiras a descumprirem permissões de voo, Pequim ignora convenções de aviação civil e subverte o princípio da soberania nacional.

Isolar uma democracia como Taiwan fere a dignidade de seus 23 milhões de cidadãos e estabelece um precedente perigoso: quando espaços aéreos são “armados” para servir a interesses expansionistas, a previsibilidade institucional deixa de existir.

Este episódio deve servir como um alerta urgente para a comunidade internacional: a dependência econômica absoluta em relação à China tem se mostrado, na prática, uma renúncia gradual à soberania nacional.

Se as democracias globais não fortalecerem sua resiliência institucional e buscarem alternativas viáveis à “diplomacia da dívida”, a ordem internacional baseada em regras será irremediavelmente substituída por um sistema de vassalagem financeira em que o direito de ir e vir é ditado por quem detém o crédito.

A segurança de chefes de Estado e a integridade das rotas globais não podem permanecer reféns de interesses autocráticos expansionistas.

Assine o Correio do Estado

NEWSLETTER

Fique sempre bem informado com as notícias mais importantes do MS, do Brasil e do mundo.

Fique Ligado

Para evitar que a nossa resposta seja recebida como SPAM, adicione endereço de

e-mail [email protected] na lista de remetentes confiáveis do seu e-mail (whitelist).