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Maria de Fátima Soalheiro: Meninos, eu vi

Maria de Fátima Soalheiro é Advogada

Redação

19/10/2014 - 01h00
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A década era de 80. O Brasil, após o movimento das Diretas Já, enfim, tinha um presidente para ser empossado. O que não estava no script era a inesquecível diverticulose que se transformou em diverticulite, e toda a população brasileira passou acompanhar o calvário de Tancredo Neves.Não sei quanto tempo durou, mas para mim pareceu uma eternidade. Assume ou não assume? Meu Deus, é verdade a doença, ou tem dedo de milico por traz disto? 

Quando tinha forças, Tancredo Neves acenava para os brasileiros, de uma das janelas do hospital.

Ao seu lado, além de Dona Risoleta, a figura de um jovem. Não era ele que lia os boletins médicos, o que era feito por um porta-voz, famoso jornalista, que depois veio a ser governador de Minas Gerais.

Aquele jovem, sempre presente nas aparições públicas ao lado de Tancredo Neves doente, era o seu neto, Aécio Neves. Pronto para assistir a família. Isto, meninos, eu vi.  

Aquele  momento político, como o de hoje, também  não era para brincadeira. Apenas não se falava em dinheiro nosso para o porto de Cuba, mas a democracia, recém-nascida, suportaria o golpe do destino?   

Lembro-me da comoção nacional e em particular da minha, a qual foi externada em uma modesta crônica, chamada “A grande dor brasileira”. Se tivesse ouvido meu marido, teria guardado uma cópia, mas não o fiz. Na época, se não me engano, a mesma mereceu a atenção do maior jornal de circulação de nosso Estado, que gentilmente a publicou, na coluna chamada Palavra Franca.

A figura do jovem neto Aécio me chamava muito atenção. Completamente dedicado aos seus avós, no momento da dor. Quantos anos tinha? É só fazer a conta. O tempo passou, e a vida pública de Aécio é de todos conhecida, em duas versões: a nossa, que queremos levá-lo à Presidência da República, e a dos outros, que não querem largar o poder. É só refletir, lembrando  as palavras do grande teólogo Agostinho: “O medo é a falta de socorro que vem da reflexão.Quanto menos reflexão, mais medo”.

Ontem, estes fatos me vieram à mente, quando  vi e ouvi um dos  filhos do falecido Eduardo Campos, ao lado de sua mãe, cujos cabelos brancos escancaram a dor do luto, com voz jovem e forte, ler aos brasileiros, uma carta de apoio, ao candidato Aécio Neves.

O jovem que um dia viu seu avô esforçar-se além da conta para reconduzir o Brasil para o caminho da democracia, serviu o estado de Minas Gerais por duas vezes e se apresenta agora com um “eu estou pronto”. Hoje, o jovem pernambucano, que mal pôde se dar ao luxo de vivenciar o luto, lê o seu apoio ao Brasil (isto mesmo, ao Brasil) e o faz com palavras, tom e emoção, sinalizando que uma nova liderança está nascendo.  

Isto também, meninos, ou estou vendo e me animando.

EDITORIAL

Água tratada leva dignidade às aldeias

Pela dimensão do impacto social, este certamente figura entre os maiores e mais relevantes investimentos em infraestrutura já realizados em Mato Grosso do Sul

03/04/2026 08h15

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O investimento superior a R$ 50 milhões para levar água tratada às aldeias Bororó e Jaguapiru, em Dourados, representa um passo civilizatório que merece ser reconhecido. Trata-se de uma iniciativa que vai além da infraestrutura básica: é uma ação que dialoga diretamente com a dignidade humana, com a saúde pública e com o respeito a uma população que, por décadas, viveu à margem de serviços essenciais. A decisão de implantar um sistema estruturado de abastecimento atende a uma demanda histórica e corrige uma lacuna que não deveria ter persistido por tanto tempo.

A direção da Sanesul e os parlamentares federais que destinaram recursos de emendas para viabilizar a obra estão de parabéns. A articulação institucional demonstrou que, quando há vontade política e coordenação entre diferentes esferas, é possível avançar em soluções concretas. Mais do que anunciar programas ou intenções, a aplicação efetiva dos recursos públicos em obras estruturantes é o que transforma realidades. E, nesse caso, o impacto será direto na vida de milhares de pessoas.

As aldeias Bororó e Jaguapiru, formadas majoritariamente por indígenas das etnias guarani-kaiowá, existem há mais de 40 anos. Quando foram criadas, situavam-se em área rural, distante da expansão urbana. Com o crescimento de Dourados, porém, essas comunidades foram praticamente engolidas pela cidade, tornando-se parte de seu entorno urbano. Ainda assim, permaneceram sem acesso a um serviço básico como a água tratada, um contraste que evidencia desigualdades históricas e a necessidade de políticas públicas mais inclusivas.

É difícil compreender que um espaço onde vivem mais de 14 mil pessoas – população superior à de muitos municípios de Mato Grosso do Sul – tenha permanecido por tanto tempo sem abastecimento adequado. A ausência de água tratada impacta diretamente a saúde, a alimentação e as condições mínimas de higiene. Ao longo dessas décadas, os moradores enfrentaram períodos de fome, dificuldades estruturais e, mais recentemente, lidam com um surto de febre chikungunya, que expõe ainda mais a vulnerabilidade sanitária da região.

Nesse contexto, o investimento não deve ser visto apenas como uma obra de saneamento, mas como uma medida preventiva de saúde pública. O acesso à água tratada reduz a incidência de doenças, melhora a qualidade de vida e cria condições para o desenvolvimento social. Trata-se de uma intervenção que dialoga com o presente, mas também com o futuro dessas comunidades, que passam a ter melhores condições para superar desafios históricos.

Pela dimensão do impacto social, este certamente figura entre os maiores e mais relevantes investimentos em infraestrutura já realizados em Mato Grosso do Sul. Não apenas pelo volume de recursos, mas pelo alcance humano e simbólico da iniciativa. Garantir água tratada a milhares de indígenas é promover dignidade, reduzir desigualdades e reconhecer que todos os sul-mato-grossenses têm direito aos mesmos serviços básicos.

Que essa obra seja concluída com celeridade e que sirva de exemplo. Investimentos desse porte demonstram que políticas públicas bem direcionadas podem, de fato, transformar realidades e corrigir injustiças históricas. 

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O custo invisível da IA

Em outras palavras, o retorno da IA não se mede apenas no corte de despesas, mas na vantagem competitiva construída com seu uso

02/04/2026 07h45

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Entre ganhos e perdas, o uso de inteligência artificial (IA) pelas empresas tem sido muito discutido a partir do viés financeiro. Alguns levantamentos reforçam um cenário multifacetado, como a pesquisa global da KPMG, que mostra que 57% dos líderes afirmam que o retorno sobre investimento com IA supera as expectativas, enquanto um estudo do MIT indica que 95% das implementações de IA generativa nas companhias ainda não revelam impacto mensurável no lucro e prejuízo.

Números como esses ressaltam que, mesmo com muitas organizações percebendo valor na adoção da tecnologia, a captura plena de benefícios financeiros ainda não está acontecendo.

Se por um lado a IA reduz gastos ao automatizar tarefas repetitivas, otimizar processos e aumentar a eficiência operacional, por outro também gera custos relevantes com infraestrutura tecnológica, processamento em nuvem, governança de dados, adequação regulatória e capacitação contínua das equipes.

A mensuração da sua eficácia, portanto, não pode ser feita levando em consideração as economias imediatas, sendo necessário analisar o valor estratégico gerado ao longo do tempo, seja na melhoria da qualidade das decisões, aceleração de ciclos de inovação, redução de riscos operacionais ou capacidade de escalar o negócio com maior previsibilidade.

Em outras palavras, o retorno da IA não se mede apenas no corte de despesas, mas na vantagem competitiva construída com seu uso. Por isso, os debates deveriam focar no quanto se transforma a partir dela – além de, é claro, seus custos invisíveis.

O primeiro deles ocorre antes mesmo do modelo entrar em produção, ao preparar, integrar e qualificar dados, tarefas que exigem das organizações um compromisso estratégico com governança de dados e maturidade analítica desde o início e não apenas quando surgem resultados tangíveis.

Outro impacto pouco comentado é o custo operacional contínuo dos sistemas de IA. Ao contrário de aplicações tradicionais, os modelos de IA exigem monitoramento constante, retraining para lidar com deriva de dados, ferramentas de observabilidade e atualizações de segurança.

Todas essas despesas podem corresponder a uma boa parcela do custo inicial anualmente, transformando a IA de um ativo estático em um sistema vivo que precisa de atenção contínua.

Há também gastos que surgem indiretamente, como a complexidade de governança e compliance. A ausência dessas estruturas pode comprometer confiança, exposição ao risco regulatório e até valuation corporativo, o que, paradoxalmente, pode custar mais caro do que a tecnologia em si.

Portanto, é preciso entender que governança de IA não é um “extra”, mas sim parte integrante da sustentabilidade tecnológica de longo prazo.

Ainda assim, não devemos focar apenas nos custos e ignorar as oportunidades trazidas pela tecnologia: quando bem planejada e integrada à estratégia corporativa, ela tem potencial para desbloquear valor exponencial.

Um relatório da Deloitte estima que a IA pode evitar cerca de US$ 70 bilhões em perdas anuais com desastres naturais até 2050, ao aumentar a resiliência das infraestruturas críticas.

Acredito que o verdadeiro desafio hoje é saber escolher quando vale a pena usar a inteligência artificial para ganhar vantagem competitiva. Para isso, as empresas precisam priorizar iniciativas que resolvam problemas centrais dos negócios, em vez de se deixar levar por todo novo “hype tecnológico”.

A discussão sobre o custo invisível nos leva, portanto, a uma conclusão prática: não existe IA barata, mas existe IA valiosa, e quem compreender e internalizar essa visão poderá verdadeiramente aproveitá-la de forma positiva e sustentável.

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