Artigos e Opinião

OPINIÃO

Mateus Boldrine Abrita: ""Pibinho" e a demonização do investimento público"

Professor e doutor em Economia

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 No dia 4 de março de 2020, uma quarta-feira, o IBGE divulgou o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) do ano de 2019: o resultado apurado foi de 1,1%, ou seja, ainda não recuperamos as perdas da recessão de 2015 e 2016 e permanecemos no “nível de riqueza” de 2013. Já o crescimento do PIB por habitante foi ainda pior: pífios 0,3%. Mas afinal o que é PIB e qual o porquê destes resultados fracos?

Para o leitor não muito familiarizado com o “economês”, o PIB é uma medida para demonstrar o quanto de produtos e serviços foram produzidos em determinado período, em determinado país ou região. Quando o PIB aumenta, grosso modo, a condição de vida material das pessoas tende a melhorar – num português claro, ficam, na média, mais ricas. Mas então o que explica esses resultados fracos? Vários podem ser os motivos, mas aqui vou abordar um especial: o investimento público.

Os últimos anos vêm sendo caracterizados por uma euforia, seguida por frustrações nas expectativas de crescimento econômico. Todo início de ano a expectativa e os discursos de muitos são os de que o País vai “decolar”, e no decorrer do ano estas expectativas vão sendo revista para baixo até que, ao fim, encerram-se com um resultado fraco. Para citar alguns exemplos largamente divulgados na mídia, primeiro um impeachment salvaria o País; depois o teto de gastos (PEC 241 na Câmara dos Deputados e PEC 55 no Senado Federal); depois foi dito que, na verdade, precisávamos de uma reforma trabalhista (aprovada em 2017), essa sim, geraria 8 milhões de empregos formais e o Brasil decolaria – não aconteceu. Depois a “bala de prata” era a mudança de governo; após isto, a bola da vez foi a reforma da Previdência, essa geraria “anos fabulosos” – novamente o Brasil não decolou. E o resultado de tudo isso é que nossa grande nação está na recuperação mais lenta da história econômica do País.

Como venho argumentando há algum tempo aqui neste veículo de comunicação e em outros, os governos recentes vêm apostando em reformas pelo lado da “oferta” da economia (tributária, trabalhista, previdenciária, liberdade econômica...) para gerar crescimento. São reformas que podem ser importantes dependendo do seu desenho e de como são implementadas. Enfatizo aqui que acho importante existir esse debate nestes pontos. Entretanto, não resultam necessariamente em maior crescimento no curto prazo – talvez nem no médio prazo. A aposta da atual equipe econômica, mais liberal, é melhorar o ambiente para que o investimento privado seja protagonista. Entretanto, neste cenário de instabilidade política e econômica no Brasil e no mundo, é pouco provável que o investidor privado nacional e estrangeiro realize grandes investimentos, por conta do elevado risco. Com a demanda escassa, emprego e renda fracos, é muito improvável que o empresariado realize grandes investimentos, afinal ele nem sabe se vai vender os produtos que já tem em estoque.  

Com os escândalos de corrupção, os investimentos públicos foram demonizados por alguns e, em vez de ser adotada uma agenda prioritária para melhorar sua eficiência e transparência, eles foram destroçados. Para se ter uma ideia, o investimento público previsto para 2020 é um dos mais baixos registrados.

Portanto, é fundamental construir uma agenda que eleve os investimentos públicos no Brasil com eficiência, transparência e prevenção da corrupção, para assim formar um multiplicador positivo de geração de renda que aumente as vendas do empresariado, gerando mais empregos – que, por sua vez, resultem em mais consumo, acarretando aumento das vendas, mais contratações e crescimento, assim sucessivamente. Esperar que o setor privado, sozinho, assuma todo este protagonismo neste cenário de extrema instabilidade mundial e ingenuidade ou má-fé.

EDITORIAL

Ciência é investir no futuro da sociedade

Que a descoberta da polilaminina sirva de inspiração para aqueles que tomam decisões sobre orçamento, prioridades e políticas públicas

28/02/2026 07h15

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A descoberta da polilaminina por pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro é um daqueles acontecimentos que extrapolam os limites do laboratório. Mais do que um avanço científico específico, trata-se de um indicativo claro de que investir em ciência é fundamental para o desenvolvimento da sociedade.

Quando uma universidade pública brasileira alcança um resultado com potencial transformador, reafirma-se a importância de políticas contínuas de financiamento, estrutura e valorização da pesquisa.

Desde a pandemia de Covid-19, o debate público passou a conviver de forma mais intensa com manifestações anticiência. Questionamentos infundados, descrédito às instituições de pesquisa e desinformação ganharam espaço em diferentes setores da sociedade.

É um cenário preocupante, especialmente em um país que depende historicamente do conhecimento produzido em suas universidades para enfrentar desafios sanitários, tecnológicos e sociais.

Ao mesmo tempo, são justamente os resultados concretos da ciência que ajudam a reequilibrar essa narrativa.

Os “milagres” proporcionados pelo método científico – ainda que construídos com rigor, tempo e validação – mostram que a pesquisa não é um luxo acadêmico, mas um instrumento prático de transformação da realidade.

Vacinas desenvolvidas em tempo recorde, tratamentos inovadores, tecnologias que ampliam a qualidade de vida: tudo isso nasce de investimento consistente e planejamento de longo prazo.

No caso da polilaminina, os testes ainda precisam ser confirmados em todas as etapas necessárias. Mas a possibilidade de que tetraplégicos e paraplégicos possam voltar a andar representa um horizonte que até pouco tempo atrás parecia distante.

Trata-se de uma perspectiva que mobiliza esperança, mas também reforça a responsabilidade de garantir condições para que a pesquisa avance com segurança e seriedade.

Investir em ciência é evoluir. Não apenas no sentido de encontrar soluções para a saúde, para a automação ou para tornar o cotidiano mais confortável, é evoluir também como sociedade, ao aprender a pensar de forma crítica, a valorizar evidências e a compreender a complexidade do mundo.

A cultura científica amplia horizontes e fortalece a capacidade coletiva de tomar decisões mais conscientes.

Investir em ciência é se desenvolver. É se sofisticar, não em um sentido arrogante ou excludente, mas como processo natural de amadurecimento social. Uma nação que aposta em pesquisa demonstra confiança em seu próprio potencial e na capacidade de seus profissionais.

Que a descoberta da polilaminina sirva de inspiração para aqueles que tomam decisões sobre orçamento, prioridades e políticas públicas. O futuro não se constrói com descrédito ao conhecimento, mas com compromisso contínuo com ele.

ARTIGOS

Um novo capítulo do tarifaço de Trump

A política tarifária ultrapassa os limites legais da competência do presidente estabelecidas sob a lei do Ato sobre Poderes Econômicos Emergenciais Internacionais

27/02/2026 07h45

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No dia 20 de fevereiro, a Suprema Corte norte-americana revogou as tarifas unilaterais impostas pelo presidente Donald Trump em 2025. A decisão se baseia principalmente no argumento de que Trump teria extrapolado suas competências ao impor essas tarifas.

De acordo com os juízes da Corte, a política tarifária de Trump ultrapassa os limites legais da competência do presidente estabelecidas sob a lei do Ato sobre Poderes Econômicos Emergenciais Internacionais (International Emergency Economic Powers Act), de 1977.

Segundo a Constituição dos Estados Unidos, é o Congresso americano que tem poder para estabelecer tarifas comerciais.

Marca importante da política externa e econômica do governo Trump, o presidente afirma que a imposição dessas tarifas é fundamental para reverter o quadro de deficit comercial dos Estados Unidos e repatriar empregos perdidos no processo de globalização e transferência de processos produtivos para outras regiões do globo.

Contudo, dados mostram uma realidade diferente dessa narrativa. Por exemplo, o balanço comercial dos Estados Unidos, em 2025, alcançou nível recorde, apesar do tarifaço.

Em termos gerais, apesar de ter se mantido estável, a inflação sobre os preços dos alimentos tem crescido, efeito do aumento global das taxas.

Somado ao aspecto econômico doméstico e à narrativa de que a imposição de tarifas atende aos interesses e necessidades da sua base eleitoral, o tarifaço também apresenta um importante papel na política externa trumpista, tendo sido usado como mecanismo de coerção, chantagem e ameaça para assegurar o alinhamento político de importantes parceiros dos Estados Unidos em relação a questões econômicas, sobretudo as políticas.

Além disso, a imposição das tarifas proibitivas ao comércio bilateral também obriga os países a buscarem a abertura de negociações com o governo americano, que as utiliza para estabelecer novos parâmetros para as relações econômicas entre os dois países, desde que sejam consideradas vantajosas para os Estados Unidos, e também para assegurar acesso a recursos importantes, como minerais críticos.

Apesar de representar alívio para diversos países que sofreram com as taxações, outros mecanismos considerados fundamentais para sua política econômica podem ser utilizados pelo presidente.

No mesmo dia em que foi divulgada a decisão da Suprema Corte, Trump manifestou seu descontentamento e estabeleceu uma nova tarifa global de 10%, que posteriormente foi aumentada para 15%, sobre todas as importações de bens americanos.

Contudo, essa nova tarifa tem validade de apenas 150 dias e, depois disso, terá que ser confirmada pelo Congresso americano para continuar em vigor.

Para alguns países, como o Brasil, essa taxa representa um limite bastante inferior em relação ao porcentual de 50% que havia sido previamente imposto.

Apesar das negociações que levaram à ampliação da lista de exceções, muitos setores brasileiros, como o têxtil, ainda continuavam sob tarifas de 50%, afetando negativamente suas exportações para os Estados Unidos.

A derrubada das tarifas unilaterais pela Suprema Corte americana cria uma janela de respiro para o comércio internacional, sobretudo para os países que têm os Estados Unidos como um importante parceiro comercial, como o Brasil.

Mas é importante, porém, continuar a diversificação dos parceiros comerciais do País, uma vez que, certamente, o governo Trump não renunciará às taxações.

Cabe lembrar que as tarifas impostas sobre setores específicos, como as de 25% sobre o setor de aço, continuam em vigor, pois foram estabelecidas a partir do argumento da seção 232, que permite a proteção tarifária a áreas consideradas vitais para a segurança nacional.

Outras tarifas setoriais podem ser impostas pelo governo americano como forma de dar continuidade à sua política tarifária. Contudo, no curto prazo, a suspensão trará alívio para setores afetados negativamente pela política comercial de Trump.

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