Artigos e Opinião

EDITORIAL

O outro lado do agro "próspero"

É a velha mentalidade de pessoa física com fachada de pessoa jurídica. Enquanto o patrimônio cresce, a saúde financeira do negócio nem sempre acompanha

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Nesta edição, mostramos que as recuperações judiciais no agronegócio de Mato Grosso do Sul dispararam. O crescimento, de 2023 para cá, é exponencial e acende um alerta que vai além da situação conjuntural do campo.

O aumento acelerado de pedidos de RJ indica que algo não vai bem não apenas na rentabilidade das atividades rurais, mas também na forma como muitos empreendimentos agrícolas têm conduzido sua gestão financeira.

É evidente que fatores de mercado pesam sobre o setor. Oscilações de preços, custos elevados de insumos, juros mais altos e riscos climáticos fazem parte da realidade de quem produz no campo.

No entanto, atribuir apenas ao preço baixo das commodities a enxurrada de recuperações judiciais seria simplificar demais um problema que parece mais estrutural. O que se vê, em muitos casos, é a fragilidade de modelos de gestão que ainda não acompanharam o grau de complexidade e de volume financeiro que hoje envolve o agronegócio.

A comparação com outros setores da economia ajuda a dimensionar essa questão. Indústria e comércio, por exemplo, enfrentam desafios semelhantes de mercado, mas contam com menos facilidades para acessar crédito.

O agronegócio, por sua vez, dispõe de instrumentos robustos de financiamento, que vão desde o Plano Safra e linhas do Fundo Constitucional de Financiamento do Centro-Oeste (FCO) até mecanismos privados cada vez mais sofisticados, como letras de crédito do agronegócio e fundos de investimento nas cadeias produtivas, os chamados Fiagros.

Esse amplo acesso a recursos tem sido um dos pilares do crescimento do setor nas últimas décadas. Porém, ele também impõe responsabilidades. Um aumento expressivo de calotes bancários e de inadimplência em contratos não afeta apenas credores privados.

Parte relevante desses financiamentos conta com subsídios ou mecanismos públicos de apoio. Quando há desequilíbrio generalizado, uma parcela desse custo acaba sendo socializada – direta ou indiretamente – entre os cidadãos que financiam essas políticas por meio de impostos.

Outro ponto que precisa entrar no debate é a forma como muitos empreendimentos rurais ainda estruturam suas finanças.

Tradicionalmente, o agro brasileiro sempre foi muito focado na formação de patrimônio – terra, máquinas, estrutura produtiva. Isso ajudou a consolidar o setor. Mas, em muitos casos, faltou a mesma atenção à preservação de caixa, à capitalização e à gestão profissional do fluxo financeiro.

É, em certa medida, a velha mentalidade de pessoa física com fachada de pessoa jurídica. Enquanto o patrimônio cresce, a saúde financeira do negócio nem sempre acompanha.

Em períodos favoráveis, o modelo funciona. Mas, quando surgem turbulências de mercado, a fragilidade aparece – e o resultado, muitas vezes, é a recuperação judicial.

O agronegócio é um dos pilares da economia brasileira e da sul-mato-grossense. Justamente por isso, precisa avançar também em governança, planejamento e gestão. A profissionalização administrativa é um passo essencial para que o setor continue crescendo com solidez.

Espera-se que o aumento recente de recuperações judiciais sirva como sinal de alerta. Mais do que um fenômeno pontual, ele deve estimular uma reflexão necessária dentro do próprio campo: produzir bem é fundamental, mas gerir bem o negócio é igualmente indispensável. Só assim será possível evitar que a atual onda de RJs se transforme em um problema estrutural para o setor.

Editorial

Quando a informação gera consequência

Quando a informação circula com rigor, a omissão deixa de ser uma opção e o poder é obrigado a reagir

17/04/2026 07h15

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Em um ambiente saturado por desinformação, versões interessadas e ruído permanente, a utilidade do jornalismo profissional deixou de ser uma abstração. Ela se mede pela sua capacidade de produzir efeitos concretos. Não basta informar. É preciso gerar consequência.

Nos últimos dias, dois episódios deixam isso evidente para o leitor.

Após a publicação de reportagens que cobravam explicações técnicas e transparência na atuação da Agência Municipal de Regulação dos Serviços Públicos (Agereg), o tema deixou de ser tratado como questão interna.

A pressão pública se consolidou – e, no dia seguinte, a prefeita de Campo Grande decidiu pela demissão do então presidente da autarquia. Não se trata de coincidência, mas de dinâmica institucional: quando a informação expõe fragilidades de gestão, a inércia se torna insustentável.

O mesmo se repete em outra escala. Questionamentos formais feitos à Polícia Federal sobre a morosidade no andamento da Operação Ultima Ratio contribuíram para trazer à esfera pública desdobramentos que até então permaneciam sem esclarecimento.

Quando a informação circula, o espaço para o silêncio institucional diminui.

Os dois casos têm um ponto em comum: respostas só surgiram após a exposição consistente dos fatos – como demonstraram as reportagens publicadas pelo Correio do Estado.

Esse é o papel central do jornalismo. Não o de protagonizar os acontecimentos, mas o de impedir que eles permaneçam ocultos ou sem resposta. Quando há transparência, há reação. Quando há reação, há correção de rumo – ainda que tardia.

A democracia não se sustenta apenas por normas e estruturas formais, mas pela tensão permanente entre quem exerce o poder e quem o fiscaliza. Sem essa tensão, prevalece a acomodação. E a acomodação, na gestão pública, quase sempre custa caro à sociedade.

Por isso, mais do que narrar fatos, o jornalismo cumpre sua função quando torna a omissão inviável.

Porque quando a informação circula com rigor, a consequência deixa de ser exceção – e passa a ser regra.

“O jornalismo é o que alguém não quer que seja publicado; todo o resto é publicidade”. A frase, frequentemente atribuída a George Orwell, nunca foi tão atual.

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Artigo

Saneamento nas eleições de 2026

É de extrema importância o eleitor saber o que os candidatos pensam a respeito e o que pretendem fazer para melhorar o acesso da população a serviços adequados

16/04/2026 07h45

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Estamos em mais um ano eleitoral e, ainda que as campanhas políticas não estejam ocorrendo de forma oficial, os pré-candidatos aos cargos de presidente da República, governador, senador e deputado federal, estadual e distrital (para o caso do Distrito Federal) já estão se posicionando sobre diversos temas considerados relevantes para o eleitorado.

No entanto, praticamente em todas as eleições, inclusive as municipais, um assunto de extrema importância para toda a população brasileira é frequentemente ignorado e fica de fora dos debates políticos: saneamento básico (ou a falta de).

Hoje, aproximadamente 43% dos brasileiros vivem sem coleta de esgoto e 16% ainda não têm acesso à água potável. Além disso, quase metade do esgoto gerado no País não é tratado. Isso significa que mais de 5 mil toneladas de dejetos são despejadas diariamente nos corpos de água pelo País.

A situação ilustra um problema com graves consequências para o nosso desenvolvimento econômico, ao meio ambiente e para a saúde da nossa população: em 2024, o Brasil registrou mais de 350 mil internações hospitalares por doenças relacionadas à falta de saneamento.

Ou seja, é de extrema importância o eleitor saber o que os candidatos pensam a respeito e o que pretendem fazer para melhorar o acesso da população a serviços adequados para o fornecimento de água limpa e para a coleta e tratamento de esgoto.

Desde que o Marco Legal do Saneamento passou a vigorar, os investimentos no setor cresceram consideravelmente, mas em alguns estados pouco se avançou, especialmente nas Regiões Norte e Nordeste.     

O Marco Legal do Saneamento estabelece como meta que 99% da população tenha acesso à água potável e 90% seja atendida com serviço de coleta e destinação correta do esgoto até o ano de 2033. Porém, pelo que se observa, os esforços até aqui não estão sendo suficientes.

Para alcançar esse objetivo, o País deveria investir, em média, R$ 225 por habitante. Mas levantamento realizado pelo Instituto Trata Brasil aponta que em localidades com os piores índices de saneamento a média de investimentos entre 2020 e 2024 foi de R$ 77,58, 66% abaixo do indicado.

Investir em saneamento é deixar o atraso no passado e acreditar em um Brasil mais moderno e com desenvolvimento social e econômico, permitindo à população mais pobre uma vida digna.

Portanto, neste ano de eleições, caberá a nós eleger quem de fato esteja comprometido com políticas públicas de saneamento que saiam do discurso e se convertam em programas, metas, orçamento, cronograma e entregas.

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