Artigos e Opinião

OPINIÃO

Pedro Pedrossian Neto:
"Muros vacilantes"

Economista, professor, Mestre em Economia Política pela PUC-SP

Redação

21/08/2015 - 00h00
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As trincheiras da batalha pela prefeitura de Campo Grande já se encontram cavadas pelos partidos políticos da Capital. Armas em punho, cobiça no peito, muitos estão aparentemente dispostos a matar e a morrer na beligerância cega do poder, mobilizando instintos sombrios e vontades inconfessas. O poder é um fim, o discurso é um meio – e tudo se passa sem que nenhuma palavra seja dita sobre o que querem fazer da cidade sitiada, transformada em espólio. Invasões bárbaras ameaçam, com imenso apetite, o horizonte próximo. 

No ritmo atual, Campo Grande entrará no rol das 17 cidades brasileiras com mais de 1 milhão de habitantes em apenas 9 anos – e problemas dignos de cidades deste porte. Em pouco tempo, serão incorporadas 144 mil novas pessoas – o equivalente a toda a população de Corumbá e Maracaju juntas –, e com elas novas demandas por serviços públicos e cidadania. Superada a condição de “cidade do interior crescida”, a capital será pressionada a resolver conflitos cada vez mais intensos e que demandarão profissionalismo dos gestores públicos.

Da pré-escola até o ensino médio, Campo Grande possui cerca de 180 mil estudantes, dos quais quase metade na rede municipal, um terço na rede estadual e menos do que 20% nas escolas privadas. Um abismo separa a qualidade entre uma e outra: das 20 melhores escolas da capital, 19 eram privadas; entre as 20 piores, 19 eram públicas. Ou seja, para a maioria dos estudantes, a universidade continuará sendo apenas um sonho – e na vida adulta terão que submeter-se a uma inserção subordinada no mercado de trabalho e a baixos salários. As classes sociais (que novidade!) são fabricadas no banco das escolas...

A saúde, por sua vez, apresenta desafios igualmente importantes. Em 2012, último dado disponível pelo IBGE, 2.813 pessoas vieram a óbito em Campo Grande (quase 8 por dia), 458 das quais decorrentes de câncer, 553 de doenças do aparelho circulatório e quase 600 do aparelho respiratório. Falta ainda, na capital, um centro de padrão internacional para tratamento, reabilitação e promoção da qualidade de vida de pessoas com deficiência, tais como paraplégicos, tetraplégicos, vítimas de AVC, e pessoas com deficiência intelectual.

O trânsito ainda é uma maravilha perto do caos das grandes metrópoles, mas em uma década tudo será diferente. A cada dia 50 novos carros são vendidos em média – o que equivale a 1 quilômetro de carros a mais por semana circulando nas ruas. As avenidas largas e planejadas das quais os campo-grandenses se orgulham, em breve darão lugar a congestionamentos cada vez mais freqüentes. Sem uma solução eficiente para o transporte público como o Veículo Leve sobre Trilhos – VLT e a criação de corredores exclusivos de ônibus, o tempo livre para o lazer e para a família será convertido em horas angustiantes no deslocamento cotidiano de casa para o trabalho.

Grandes cidades são, em geral, estruturas excludentes. A especulação imobiliária, refletida no preço dos imóveis e nos aluguéis, expulsa do centro os mais pobres em direção as periferias e, destas, em direção as favelas e cortiços. O déficit habitacional de Campo Grande é de 35 mil moradias, segundo dados da EMHA, mas os projetos em curso do Minha Casa Minha Vida resolverão apenas 17% deste total. O orçamento público, que já é insuficiente, será ainda mais no futuro. Invasões de terrenos, de prédios vazios e construções abandonadas acirrarão o conflito entre proprietários e não-proprietários.

Descolado dessa agenda, o mundo político parece organizar-se por outra lógica. Nele vigora a regra segundo a qual, na guerra, o importante é vencer – mesmo que se deixe a terra arrasada. Campo Grande tem pagado um preço muito alto pela guerra política de forças que competem por hegemonia. As eleições de 2016 serão decisivas para a cidade que queremos edificar no futuro – e incomoda saber que o povo é colocado como coadjuvante nesse processo. Os muros da cidade tremem, vacilantes, contra a vontade de poder.

EDITORIAL

Milhões em isenções, zero em mudanças

A renovação de subsídios sem contrapartidas claras em Campo Grande deixa de ser uma solução financeira para se tornar um financiamento do descaso

04/03/2026 07h15

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A aprovação da isenção de R$ 12 milhões somente em Imposto Sobre Serviços de Qualquer Natureza (ISSQN) e outros R$ 28 milhões de subsídio para o Consórcio Guaicurus pela Câmara Municipal de Campo Grande, ontem, é um filme a que a capital sul-mato-grossense já assistiu repetidas vezes.

No entanto, o roteiro parece cada vez mais desconectado da realidade de quem, sob o sol escaldante, espera por um ônibus que raramente cumpre o horário.

Sob o argumento pragmático de “evitar o aumento da tarifa”, o poder público renova um benefício que, na prática, soa como uma bonificação por um serviço que beira o colapso estrutural. A questão central aqui transcende a contabilidade fria. É uma questão de abrangência e prioridade.

Enquanto o Executivo e o Legislativo utilizam a renúncia fiscal como um “amortecedor” imediato para o bolso do contribuinte, ignoram o custo invisível e muito mais alto pago diariamente pela população: as horas de vida perdidas em atrasos crônicos, o desconforto de uma frota envelhecida e a sensação de insegurança em terminais que pedem socorro.

O círculo vicioso do subsídio sem contrapartida deveria ser discutido à exaustão, principalmente o técnico. O subsídio é uma ferramenta de política social. Contudo, em Campo Grande, o modelo está se tornando um cheque em branco.

Em vez de se discutir soluções, discutem-se benefícios, e o que deveria ser importante fica relegado ao discurso político dos gabinetes. A tal da CPI, que deveria ter efeitos práticos, virou palanque, com agressões verbais a ex-diretores e à imprensa que se pautou em divulgar o trabalho dos nobres edis.

O transporte coletivo é a veia que transporta a força de trabalho para o comércio e a indústria da Capital. Isentar a concessionária de impostos sem exigir cronogramas rigorosos de renovação de frota e climatização é, em última análise, transferir o ônus da má gestão para o cidadão mais vulnerável.

É manter o trabalhador em um sistema de “segregação de mobilidade”.

Recentemente, a Justiça estabeleceu um prazo, até segunda-feira (9), para que a Prefeitura de Campo Grande apresente um plano de ação concreto para sanar as deficiências do setor, chegando a classificar a gestão atual como “omissa”.

A aprovação da isenção ontem, em regime de urgência, parece ignorar esse ultimato. Em vez de uma reforma estrutural no contrato de concessão, oferece-se um paliativo financeiro que apenas adia o inevitável debate sobre a caducidade do contrato.

No fim de 2025, essa mesma proposta enfrentou resistência e foi rejeitada. O que mudou em 60 dias? Não foram os ônibus, que continuam quebrando e chegando atrasados. A mudança foi meramente política, fruto de “articulações” que raramente chegam ao conhecimento do passageiro que aguarda no ponto.

Ao renunciar  a R$ 12 milhões em receitas que poderiam ir para Saúde ou Educação, a Câmara Municipal compra, na verdade, um curto período de paz política e evita um desgaste eleitoral imediato com o aumento da passagem. Mas a paz do gabinete não chega às ruas.

Para o passageiro que enfrentará o calor de 34°C em um veículo lotado, a conta continua chegando alta. O transporte público de Campo Grande precisa deixar de ser tratado como um “problema de planilha de custos” para ser encarado como um direito à cidade.

Enquanto o subsídio for usado apenas para manter um serviço de qualidade duvidosa, a prefeitura não estará poupando os cofres públicos, estará, na verdade, subvencionando o desrespeito a quem move a cidade. No fim das contas, não é apenas o dinheiro do contribuinte que se esvai, mas a própria dignidade do cidadão que o sistema deveria servir.

ARTIGOS

Justiça seja feita, sempre!

STF condenou os mandantes do assassinato da ex-vereadora Marielle Franco e de seu motorista, Anderson Gomes, reafirmando um princípio que sustenta qualquer democracia: a justiça pode tardar, mas não pode falhar

03/03/2026 07h45

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Quase seis anos depois do crime que chocou o País, a resposta do Estado brasileiro chegou. A 1ª Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) condenou os mandantes do assassinato da ex-vereadora Marielle Franco e de seu motorista, Anderson Gomes, reafirmando um princípio que sustenta qualquer democracia: a justiça pode tardar, mas não pode falhar.

Os irmãos Domingos Brazão e Chiquinho Brazão foram condenados a 76 anos de prisão. O ex-major da PM Ronald Pereira recebeu pena de 56 anos por homicídio. O ex-assessor Robson Calixto foi condenado por organização criminosa.

Já o ex-chefe da Polícia Civil do Rio, Rivaldo Barbosa, absolvido da acusação de homicídio por insuficiência de provas, foi condenado por corrupção passiva e obstrução de Justiça. Além das penas, houve a fixação de indenizações milionárias às famílias e às sobreviventes do atentado.

A decisão unânime, com votos dos ministros Alexandre de Moraes, Cristiano Zanin, Cármen Lúcia e Flávio Dino, não devolve as vidas perdidas.

Mas devolve algo igualmente essencial: a confiança de que as instituições funcionam, mesmo sob pressão, mesmo diante de interesses poderosos, mesmo quando o tempo parece corroer a esperança.

O caso de Marielle e Anderson tornou-se símbolo da violência política no Brasil. Mulher negra, oriunda da periferia, defensora dos direitos humanos, Marielle representava uma ruptura com estruturas históricas de exclusão.

Seu assassinato foi um ataque não apenas a uma pessoa, mas à ideia de participação democrática plural. Quando a ministra Anielle Franco afirmou que a decisão era um “recado” aos que minimizaram o crime, sublinhou que não se tratava de vingança, mas de afirmação do Estado de Direito.

Não há democracia sólida onde crimes políticos são anistiados por conveniência, esquecidos por cansaço ou perdoados por cálculo.

Investigar, apurar, acusar, julgar e condenar são etapas de um processo civilizatório. E ele só se completa quando as penas são efetivamente cumpridas. A impunidade é combustível para a repetição. A responsabilização, ao contrário, é freio e exemplo.

O voto da ministra Cármen Lúcia evocou indignação diante da violência que insiste em assombrar o Brasil. Ao questionar quantas “Marielles” e “Andersons” ainda serão vítimas antes que o Estado reaja de modo estrutural, ela apontou para um desafio que vai além deste caso.

A Justiça precisa ser firme não apenas no desfecho, mas na prevenção. A mensagem precisa ser clara: quem atenta contra a vida e contra a democracia responderá por seus atos.

Também é sintomático que um dos condenados ainda receba remuneração pública enquanto aguarda desdobramentos formais. Situações assim tensionam o sentimento social de justiça e revelam a necessidade de aperfeiçoamentos institucionais.

O cumprimento integral das penas e a coerência entre condenação e consequências administrativas são partes do mesmo compromisso com a legalidade.

A decisão do STF estabelece um marco. Mostra que estruturas criminosas sofisticadas podem ser desvendadas; que o tempo não apaga a obrigação de responsabilizar; que a pressão política não deve dobrar a espinha dorsal das instituições.

Para o futuro, fica a lição: crimes não devem ser anistiados nem relativizados. O Estado existe para proteger direitos, não para negociar a aplicação da lei.

Quando a justiça tarda, a dor se prolonga. Mas quando ela falha, a democracia adoece. Neste caso, apesar dos anos de espera, a resposta veio.

Que sirva de exemplo permanente: nenhuma violência pode ser normalizada; nenhum mandante pode se esconder atrás do poder; nenhuma vida pode ser reduzida a estatística.

A memória de Marielle e Anderson exige mais do que homenagens – exige vigilância, firmeza e a certeza de que, no Brasil, o crime não compensa.

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