Ela sente que quase não dormiu quando o despertador toca às 5h. É hora de acordar, preparar o café, organizar as mochilas das crianças, deixar a casa pronta e seguir para enfrentar mais de duas horas de deslocamento até o trabalho.
Ninguém fala daquilo que roubam dela todo dia: o tempo, silenciosamente perdido na escala 6x1.
Tempo que vai no transporte e não volta. Tempo que é quase um segundo emprego, como o cuidado da casa, pelo qual ninguém a remunera.
Ao fim do expediente, o caminho de quem volta em pé no transporte coletivo é longo. Outro expediente começa: fazer o jantar, preparar o dia seguinte e cuidar da família. Quando finalmente ela consegue se deitar são poucas horas de sono até que o despertador toque de novo, seis vezes por semana.
Não é difícil compreender por que a Organização Mundial da Saúde e a Organização Internacional do Trabalho alertam que as longas jornadas laborais têm aumentado as mortes por doença cardíaca e acidente vascular cerebral, nem por que mais de 1 bilhão de pessoas no mundo vivem com transtornos mentais ou o motivo pelo qual a Previdência Social concedeu mais de meio milhão de benefícios previdenciários por transtornos mentais e comportamentais no nosso país, em 2025.
Quase 70% das licenças por transtornos mentais foram concedidas para mulheres, que ainda ganham menos que homens e acumulam a jornada diária exaustiva da escala 6x1 com as responsabilidades domésticas.
É importante colocar que esse debate também passa por igualdade racial e de gênero.
A Pnad Contínua 2023, divulgada pelo IBGE em 2024, mostra que as mulheres costumam dedicar, em média, mais de 21 horas por semana aos afazeres domésticos e aos cuidados de pessoas, enquanto os homens dedicam pouco menos de 12 horas.
Entre as mulheres pretas e pardas, essa carga é de cerca de 22 horas semanais, superando a das mulheres brancas. A Pesquisa Nacional sobre Trabalho Doméstico e de Cuidados Remunerados de 2024 revela que 69,9% das pessoas que exercem trabalho doméstico e de cuidados remunerados são mulheres negras.
Isso evidencia como raça e gênero se cruzam na ocupação de postos historicamente desvalorizados e marcados por jornadas intensas.
Dessa forma, discutir o fim da escala 6x1 é discutir não apenas qualidade de vida, mas equidade e justiça social.
Uma jornada mais equilibrada permitiria que milhares de mulheres – que têm histórias como a do início desse texto – tivessem mais tempo para descansar, cuidar da saúde, acompanhar o desenvolvimento dos filhos, estudar, qualificar-se profissionalmente e participar da vida comunitária.
A diminuição da jornada, sem redução do salário, significa tempo e disposição para essas trabalhadoras. Com um dia de descanso semanal, tempo é privilégio para poucos, mas com o fim da escala 6x1 passa a ser direito para todos.


