Artigos e Opinião

EDITORIAL

Saúde: começar pelo essencial

A tecnologia, quando utilizada para melhorar a gestão da Saúde, deixa de ser apenas inovação e passa a produzir benefícios concretos para a população

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A modernização da gestão pública nem sempre depende de grandes obras ou investimentos milionários.

Muitas vezes, ela começa com mudanças aparentemente simples, capazes de corrigir falhas que afetam diretamente a vida da população. É sob essa perspectiva que deve ser vista a implantação do e-SUS Assistência Farmacêutica pela Prefeitura de Campo Grande.

A informatização do controle e da distribuição de medicamentos representa um passo importante para organizar um dos setores mais sensíveis da saúde pública.

Até agora, o Município dependia do Ministério da Saúde para realizar esse gerenciamento. Com o novo sistema, a prefeitura passa a ter mais autonomia para controlar estoques, acompanhar a movimentação dos medicamentos e reduzir falhas que comprometem o abastecimento das unidades de saúde.

Trata-se de uma iniciativa que fortalece a gestão e aumenta a eficiência do serviço prestado ao cidadão.

A medida chega em boa hora. No ano passado, Campo Grande enfrentou sucessivos episódios de falta de medicamentos nos postos de saúde, situação que expôs fragilidades administrativas e prejudicou milhares de pacientes.

A parceria com o Ministério da Saúde para viabilizar essa informatização demonstra que a cooperação entre diferentes esferas de governo pode gerar resultados concretos quando existe disposição para enfrentar problemas históricos.

Ninguém desconhece as dificuldades da saúde pública na Capital. Filas, alta demanda, limitações financeiras e desafios estruturais não serão solucionados de uma só vez, mas problemas complexos começam a ser resolvidos com decisões objetivas.

É como uma pia repleta de louças: enquanto a primeira peça não for lavada, todas continuarão sujas. O primeiro passo costuma ser mais simples do que parece, mas é indispensável para que os demais aconteçam.

Organizar a distribuição de medicamentos é uma dessas providências essenciais. Garantir que os remédios estejam disponíveis para quem deles depende representa eficiência administrativa, mas também respeito ao cidadão.

A tecnologia, quando utilizada para melhorar a gestão, deixa de ser apenas inovação e passa a produzir benefícios concretos para a população.

Há outras medidas igualmente simples que podem contribuir para elevar a qualidade do atendimento. Recepções mais organizadas, limpas, climatizadas e com água e café para quem aguarda consulta ajudam a tornar menos desgastante a espera.

Da mesma forma, investir na capacitação dos servidores que fazem o primeiro atendimento, disseminando princípios de integridade, compliance e acolhimento, exige poucos recursos e pode transformar a relação entre o cidadão e o serviço público.

A implantação do e-SUS Assistência Farmacêutica, detalhada nesta edição, demonstra que melhorar a saúde pública também passa por organizar processos e cuidar dos detalhes. Não resolve todos os problemas, mas representa o começo de uma mudança necessária. E, como toda boa gestão, o mais importante é justamente dar o primeiro passo.

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O que o cinema ensina a uma geração moldada pelo clique?

Em um ecossistema digital projetado para a recompensa imediata e a fragmentação constante, a capacidade de sustentar o foco em uma única história tornou-se uma habilidade rara

14/08/2026 07h20

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Existe uma transformação silenciosa na forma como as crianças se relacionam com o tempo. Acostumadas ao ritmo frenético das telas de bolso, em que qualquer fração de segundo de tédio é interrompida pelo deslizar de um dedo, a nova geração enfrenta uma crise invisível de atenção.

Em um ecossistema digital projetado para a recompensa imediata e a fragmentação constante, a capacidade de sustentar o foco em uma única história tornou-se uma habilidade rara.

É precisamente nesse cenário de aceleração que a sala de cinema deixa de ser apenas um espaço de entretenimento para se converter em um ato de resistência pedagógica e afetiva.

Diferente dos vídeos curtos que entregam estímulos prontos e superficiais a cada três segundos, o cinema exige o exercício da permanência.

Ao sentar diante de uma grande tela, a criança é convidada a aceitar o tempo da narrativa: o silêncio que antecede o conflito, a pausa que constrói a atmosfera e o desenvolvimento gradual dos personagens. A

escuridão da sala e a ausência de botões para pular cenas não funcionam como restrições, mas como uma moldura de proteção.

Ali, o cérebro infantil descobre que o encanto não mora na velocidade da troca de imagens, mas na profundidade do enredo.

Essa desaceleração forçada produz efeitos profundos no repertório cognitivo e emocional dos pequenos. Ao sustentar a atenção durante 90 minutos, a criança aprende a lidar com a expectativa e a tolerar a ausência da recompensa instantânea.

O cinema ensina que os melhores desfechos dependem da construção, que os conflitos exigem maturação e que a complexidade das relações humanas não cabe em recortes de 15 segundos. Trata-se de um treino direto de paciência narrativa, elemento fundamental para o desenvolvimento da empatia, do raciocínio crítico e da leitura de mundo.

Mais do que isso, essa imersão contínua abre espaço para o pensamento próprio. Quando o olhar não é atropelado por uma avalanche ininterrupta de estímulos, a mente da criança ganha brechas para questionar o que vê, fazer pontes com a sua vida e construir significados que pertencem só a ela.

Cultivar o hábito de levar as crianças ao cinema não é uma tentativa nostálgica de combater a tecnologia, mas um compromisso consciente com a saúde do olhar infantil.

Ensinar uma criança a sustentar o tempo de um filme é devolver a ela o direito à contemplação, à imaginação profunda e à escuta atenta. Em um mundo que exige pressa, o cinema ensina à infância a desacelerar e a descobrir a beleza de permanecer até o fim.

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Discord e ANPD: como a suspensão de live migra o compliance do papel para a tecnologia

O episódio é relevante não apenas pela preocupação evidente com a proteção de crianças e adolescentes

14/08/2026 07h15

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A decisão da Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) de determinar a suspensão da funcionalidade de transmissões ao vivo do Discord no Brasil merece ser observada para além do caso concreto.

O episódio é relevante não apenas pela preocupação evidente com a proteção de crianças e adolescentes, mas porque ajuda a revelar uma transformação mais ampla na forma como o Estado passa a regular as plataformas digitais.

Durante muitos anos, boa parte da discussão sobre compliance digital esteve concentrada na camada contratual e documental: políticas de privacidade, termos de uso, avisos legais, procedimentos internos e registros formais de tratamento de dados. Esse modelo continua necessário, mas começa a se mostrar insuficiente.

A nova fronteira regulatória está no desenho da tecnologia. Quando uma autoridade questiona se determinada funcionalidade expõe usuários vulneráveis a riscos relevantes, a discussão deixa de ser apenas jurídica ou formal.

Passa a alcançar arquitetura de produto, mecanismos de controle, sistemas de moderação, verificação de idade, supervisão parental e capacidade de resposta a comportamentos nocivos. Se trata da passagem definitiva do compliance documental para o compliance tecnológico.

O caso Discord ilustra com clareza essa mudança. Ao intervir diretamente sobre uma funcionalidade específica, o live streaming, e não sobre a totalidade da plataforma, o regulador não está apenas dizendo à empresa como ela deve redigir suas diretrizes.

Ele interfere na operação do produto digital e condiciona sua continuidade à adoção de mecanismos técnicos efetivos de proteção.

Isso modifica profundamente o debate e aproxima dois conceitos historicamente tratados de forma isolada: privacy by design (privacidade desde a concepção) e safety by design (segurança na arquitetura).

Não basta publicar regras proibindo abusos; passa a ser exigido que a engenharia da plataforma consiga identificá-los, limitá-los e interrompê-los.

Entretanto, esse avanço traz à tona uma reflexão indispensável sobre os limites da atuação estatal. A proteção da infância é uma exigência constitucional e prioridade absoluta, mas a suspensão de uma ferramenta utilizada por milhões de usuários exige rigor técnica, proporcionalidade e estrito respeito às competências legais.

Em um Estado de Direito, objetivos nobres não dispensam a boa técnica regulatória. Quanto mais grave o risco enfrentado, mais fundamentada e previsível deve ser a intervenção pública, sob pena de gerar insegurança jurídica no ecossistema de inovação.

O episódio também consolida a expansão da ANPD dentro da agenda de governança digital. Originalmente vocacionada ao tratamento de dados pessoais sob a LGPD, a autoridade passa a atuar na convergência entre dados, inteligência artificial, algoritmos e segurança infantil.

Na prática, torna-se inviável isolar o direito à privacidade da proteção do usuário. Para as empresas de tecnologia, a era em que o departamento jurídico recebia um produto pronto e apenas redigia termos de uso chegou ao fim.

Decisões de produto passam a exigir a integração prévia entre advogados, engenheiros, especialistas em segurança e equipes de risco. A regulação digital brasileira migra de regras abstratas para a fiscalização do funcionamento real dos sistemas.

Na economia digital, compliance deixou de ser um conjunto de documentos em uma pasta corporativa: na atual conjuntura, é código, arquitetura, governança e tecnologia.

Assim como já ocorre no mercado financeiro e de capitais, produtos e serviços precisam nascer em conformidade com as regras, garantindo que a proteção aos usuários não esteja apenas escrita no papel, mas devidamente programada na plataforma.

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