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STF: Corte Constitucional ou rearranjo do possível?

Sob inspiração do modelo norte-americano, o Supremo assumiu o papel de guardião da Constituição e árbitro do pacto federativo

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Nas últimas décadas, o Supremo Tribunal Federal se tornou o centro gravitacional da vida política brasileira. Crises institucionais, disputas eleitorais, conflitos federativos, temas morais sensíveis e embates entre os próprios Poderes acabam, quase sempre, na Corte.

Diante disso, impõe-se uma pergunta legítima: o STF é uma Corte Constitucional ou o resultado de um rearranjo histórico do que foi possível construir no Brasil?

Criado pela Constituição de 1891, sob inspiração do modelo norte-americano, o Supremo assumiu o papel de guardião da Constituição e árbitro do pacto federativo.

Contudo, diferentemente dos EUA, o Brasil manteve a tradição romano-germânica, fundada na centralidade da lei escrita. Desde a origem, o STF nasceu híbrido: inspirado no common law, mas inserido em sistema jurídico diverso.

A Constituição de 1988 ampliou significativamente suas competências. Além do controle de constitucionalidade, difuso e concentrado, o STF se tornou tribunal penal de autoridades com foro por prerrogativa de função, instância recursal ampla e protagonista na solução de crises políticas. Acumulou funções que, em muitos países, são distribuídas entre diferentes tribunais.

O contraste com o modelo europeu é evidente. Cortes Constitucionais como as da Alemanha, Itália ou Espanha têm mandato fixo, competência estritamente constitucional e estrutura separada do Judiciário comum.

Não julgam ações penais nem atuam como última instância recursal generalizada. São tribunais especializados na guarda da Constituição.

O STF não segue integralmente esse modelo, tampouco replica o padrão norte-americano. É uma construção própria, moldada por circunstâncias históricas e arranjos políticos sucessivos. Não nasceu de um desenho teórico puro, mas das possibilidades institucionais de cada momento da história republicana.

Nesse contexto, ressurge o debate sobre mandato fixo para ministros. Hoje, nomeados pelo Presidente da República e aprovados pelo Senado, permanecem no cargo até os 75 anos. Para alguns, a vitaliciedade com limite etário assegura estabilidade; para outros, concentra poder excessivo.

A discussão não é nova. Desde a Constituinte de 1987/1988 há propostas de mandatos temporários. PECs recentes sugerem períodos de 8, 10 ou 15 anos, sem recondução, sob o argumento de promover “oxigenação” institucional e reduzir personalizações.

A proposta é sedutora, mas exige cautela. Mandato fixo, isoladamente, não resolve problemas estruturais. Independência judicial depende também do processo de escolha, da cultura institucional e das garantias de exercício do cargo.

Se a nomeação continuar concentrada no Executivo, com aprovação política majoritária no Senado, a mudança pode apenas deslocar o foco da disputa. Altera-se o tempo, não necessariamente a lógica.

Há ainda o risco de coincidência entre mandatos e ciclos eleitorais, intensificando pressões partidárias. Em vez de reduzir politização, pode-se reforçá-la.

A reforma necessária é mais profunda. Exige repensar critérios objetivos de escolha, ampliar transparência nas sabatinas, avaliar diversificação das indicações e, sobretudo, redefinir competências.

O STF concentra atribuições excessivas para um único órgão, o que amplia sua exposição e tensiona permanentemente as relações entre Poderes.

Não parece casual que propostas de reforma surjam em anos eleitorais, especialmente quando decisões judiciais impactam o jogo político e principalmente porque a Presidência do TSE é exercida por ministro do STF.

Discutir mudanças estruturais nesse contexto é, no mínimo, inconveniente. Reformas dessa magnitude requerem serenidade, maturação técnica e ampla convergência democrática, não impulso circunstancial.

Há risco adicional quando alterações institucionais são tratadas como resposta a decisões específicas, enfraquece-se a separação de Poderes. O desenho de uma Suprema Corte deve ser pensado como arquitetura de Estado, não como instrumento de disputa conjuntural.

O Brasil precisa discutir seu modelo de jurisdição constitucional com profundidade. Devemos decidir se desejamos uma Corte estritamente constitucional, nos moldes europeus, ou se manteremos o formato híbrido atual.

É preciso avaliar se a concentração de competências fortalece ou fragiliza a democracia. Reformas pontuais não produzem milagres.

O STF é fruto de mais de um século de evolução institucional. Não é erro histórico nem obra acabada, mas arranjo que reflete as possibilidades políticas de cada época. Questioná-lo é legítimo; reformá-lo pode ser necessário. Mas isso exige responsabilidade histórica, distante da retórica fácil.

Mandatos podem integrar a solução, mas não são solução em si. Sem repensar processo de escolha, competências e mecanismos de equilíbrio entre Poderes, qualquer mudança corre o risco de ser apenas cosmética resultando em novo rearranjo do possível, e não do estruturalmente adequado.

Definir se o STF deve se tornar uma verdadeira Corte Constitucional ou permanecer como instituição híbrida é decisão que transcende conjunturas. Trata-se de escolher a arquitetura constitucional das próximas gerações, com impacto direto sobre o sistema de justiça, os direitos fundamentais e o processo eleitoral.

E isso não pode ser decidido sob o calor das urnas ou das urgências de ocasião, mas no debate sereno entre os poderes da República com a necessária participação ativa da sociedade civil.

EDITORIAL

Água tratada leva dignidade às aldeias

Pela dimensão do impacto social, este certamente figura entre os maiores e mais relevantes investimentos em infraestrutura já realizados em Mato Grosso do Sul

03/04/2026 08h15

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O investimento superior a R$ 50 milhões para levar água tratada às aldeias Bororó e Jaguapiru, em Dourados, representa um passo civilizatório que merece ser reconhecido. Trata-se de uma iniciativa que vai além da infraestrutura básica: é uma ação que dialoga diretamente com a dignidade humana, com a saúde pública e com o respeito a uma população que, por décadas, viveu à margem de serviços essenciais. A decisão de implantar um sistema estruturado de abastecimento atende a uma demanda histórica e corrige uma lacuna que não deveria ter persistido por tanto tempo.

A direção da Sanesul e os parlamentares federais que destinaram recursos de emendas para viabilizar a obra estão de parabéns. A articulação institucional demonstrou que, quando há vontade política e coordenação entre diferentes esferas, é possível avançar em soluções concretas. Mais do que anunciar programas ou intenções, a aplicação efetiva dos recursos públicos em obras estruturantes é o que transforma realidades. E, nesse caso, o impacto será direto na vida de milhares de pessoas.

As aldeias Bororó e Jaguapiru, formadas majoritariamente por indígenas das etnias guarani-kaiowá, existem há mais de 40 anos. Quando foram criadas, situavam-se em área rural, distante da expansão urbana. Com o crescimento de Dourados, porém, essas comunidades foram praticamente engolidas pela cidade, tornando-se parte de seu entorno urbano. Ainda assim, permaneceram sem acesso a um serviço básico como a água tratada, um contraste que evidencia desigualdades históricas e a necessidade de políticas públicas mais inclusivas.

É difícil compreender que um espaço onde vivem mais de 14 mil pessoas – população superior à de muitos municípios de Mato Grosso do Sul – tenha permanecido por tanto tempo sem abastecimento adequado. A ausência de água tratada impacta diretamente a saúde, a alimentação e as condições mínimas de higiene. Ao longo dessas décadas, os moradores enfrentaram períodos de fome, dificuldades estruturais e, mais recentemente, lidam com um surto de febre chikungunya, que expõe ainda mais a vulnerabilidade sanitária da região.

Nesse contexto, o investimento não deve ser visto apenas como uma obra de saneamento, mas como uma medida preventiva de saúde pública. O acesso à água tratada reduz a incidência de doenças, melhora a qualidade de vida e cria condições para o desenvolvimento social. Trata-se de uma intervenção que dialoga com o presente, mas também com o futuro dessas comunidades, que passam a ter melhores condições para superar desafios históricos.

Pela dimensão do impacto social, este certamente figura entre os maiores e mais relevantes investimentos em infraestrutura já realizados em Mato Grosso do Sul. Não apenas pelo volume de recursos, mas pelo alcance humano e simbólico da iniciativa. Garantir água tratada a milhares de indígenas é promover dignidade, reduzir desigualdades e reconhecer que todos os sul-mato-grossenses têm direito aos mesmos serviços básicos.

Que essa obra seja concluída com celeridade e que sirva de exemplo. Investimentos desse porte demonstram que políticas públicas bem direcionadas podem, de fato, transformar realidades e corrigir injustiças históricas. 

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O custo invisível da IA

Em outras palavras, o retorno da IA não se mede apenas no corte de despesas, mas na vantagem competitiva construída com seu uso

02/04/2026 07h45

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Entre ganhos e perdas, o uso de inteligência artificial (IA) pelas empresas tem sido muito discutido a partir do viés financeiro. Alguns levantamentos reforçam um cenário multifacetado, como a pesquisa global da KPMG, que mostra que 57% dos líderes afirmam que o retorno sobre investimento com IA supera as expectativas, enquanto um estudo do MIT indica que 95% das implementações de IA generativa nas companhias ainda não revelam impacto mensurável no lucro e prejuízo.

Números como esses ressaltam que, mesmo com muitas organizações percebendo valor na adoção da tecnologia, a captura plena de benefícios financeiros ainda não está acontecendo.

Se por um lado a IA reduz gastos ao automatizar tarefas repetitivas, otimizar processos e aumentar a eficiência operacional, por outro também gera custos relevantes com infraestrutura tecnológica, processamento em nuvem, governança de dados, adequação regulatória e capacitação contínua das equipes.

A mensuração da sua eficácia, portanto, não pode ser feita levando em consideração as economias imediatas, sendo necessário analisar o valor estratégico gerado ao longo do tempo, seja na melhoria da qualidade das decisões, aceleração de ciclos de inovação, redução de riscos operacionais ou capacidade de escalar o negócio com maior previsibilidade.

Em outras palavras, o retorno da IA não se mede apenas no corte de despesas, mas na vantagem competitiva construída com seu uso. Por isso, os debates deveriam focar no quanto se transforma a partir dela – além de, é claro, seus custos invisíveis.

O primeiro deles ocorre antes mesmo do modelo entrar em produção, ao preparar, integrar e qualificar dados, tarefas que exigem das organizações um compromisso estratégico com governança de dados e maturidade analítica desde o início e não apenas quando surgem resultados tangíveis.

Outro impacto pouco comentado é o custo operacional contínuo dos sistemas de IA. Ao contrário de aplicações tradicionais, os modelos de IA exigem monitoramento constante, retraining para lidar com deriva de dados, ferramentas de observabilidade e atualizações de segurança.

Todas essas despesas podem corresponder a uma boa parcela do custo inicial anualmente, transformando a IA de um ativo estático em um sistema vivo que precisa de atenção contínua.

Há também gastos que surgem indiretamente, como a complexidade de governança e compliance. A ausência dessas estruturas pode comprometer confiança, exposição ao risco regulatório e até valuation corporativo, o que, paradoxalmente, pode custar mais caro do que a tecnologia em si.

Portanto, é preciso entender que governança de IA não é um “extra”, mas sim parte integrante da sustentabilidade tecnológica de longo prazo.

Ainda assim, não devemos focar apenas nos custos e ignorar as oportunidades trazidas pela tecnologia: quando bem planejada e integrada à estratégia corporativa, ela tem potencial para desbloquear valor exponencial.

Um relatório da Deloitte estima que a IA pode evitar cerca de US$ 70 bilhões em perdas anuais com desastres naturais até 2050, ao aumentar a resiliência das infraestruturas críticas.

Acredito que o verdadeiro desafio hoje é saber escolher quando vale a pena usar a inteligência artificial para ganhar vantagem competitiva. Para isso, as empresas precisam priorizar iniciativas que resolvam problemas centrais dos negócios, em vez de se deixar levar por todo novo “hype tecnológico”.

A discussão sobre o custo invisível nos leva, portanto, a uma conclusão prática: não existe IA barata, mas existe IA valiosa, e quem compreender e internalizar essa visão poderá verdadeiramente aproveitá-la de forma positiva e sustentável.

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