Referência nas artes, na arquitetura e no design em Mato Grosso do Sul, Scalise construiu carreira de mais de 35 anos, teve trabalhos influenciados por experiências internacionais e também foi colunista do Correio do Estado.
Morreu nesta quinta-feira (6), aos 58 anos, em Campo Grande, o arquiteto e artista plástico Luis Pedro Scalise, um dos nomes de destaque das artes, da arquitetura e do design em Mato Grosso do Sul. Com mais de 35 anos de carreira, ele construiu uma trajetória marcada pela criatividade, pelas cores e por uma linguagem própria que ultrapassou as telas e chegou à arquitetura, à cenografia e à comunicação.
Scalise estava internado em estado grave na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) da Unimed, na Capital. Nos últimos dias, familiares chegaram a informar que ele respondia bem ao tratamento e pediram orações por sua recuperação. A causa da internação não havia sido divulgada.
Nascido em Florianópolis (SC), Luis Pedro Scalise desenvolveu grande parte de sua trajetória profissional e artística em Mato Grosso do Sul, estado onde consolidou seu nome e se tornou referência em diferentes áreas da criação.
A relação com a arte começou ainda na primeira infância. Autodidata, Scalise pintou o primeiro quadro aos três anos de idade e, ainda criança, frequentou o ateliê da artista plástica Inês Corrêa da Costa, que teve entre seus mestres Cândido Portinari, um dos principais nomes da arte brasileira.
Em 1980, tornou-se o mais jovem artista plástico a integrar a associação de artistas plásticos sul-mato-grossenses. Ao longo dos anos seguintes, participou de inúmeras exposições individuais e coletivas realizadas em Mato Grosso do Sul.
Da arte para a arquitetura
A criatividade que marcou sua produção artística também encontrou espaço na arquitetura. Scalise formou-se em Arquitetura e Urbanismo em 1990 pelo Centro de Ensino Superior de Campo Grande (Cesup), atual Uniderp.
A carreira ganhou projeção dentro e fora do Brasil. O arquiteto trabalhou em países como Emirados Árabes Unidos, onde estão Dubai e Abu Dhabi, além de Catar e Jordânia.
Também passou temporadas na Itália, França e Estados Unidos, experiências que contribuíram para ampliar seu repertório e influenciar seu olhar artístico e profissional.
Nas artes plásticas, ficou conhecido pela criação de um universo colorido, marcado por técnicas particulares e uma identidade facilmente reconhecível.
As referências acumuladas durante as viagens, somadas às experiências vividas nos diferentes estados brasileiros onde residiu, passaram a integrar sua produção.
Ao longo de mais de três décadas, Scalise transitou pela arquitetura, urbanismo, artes plásticas, design e cenografia e chegou a figurar entre os 100 arquitetos mais atuantes do Brasil.
Projetos marcaram a arquitetura e a noite de Campo Grande
Parte do legado de Luis Pedro Scalise permanece em espaços que marcaram diferentes épocas de Campo Grande. Entre seus projetos mais conhecidos está o Pele Vermelha, inaugurado em 2002 e considerado pelo próprio arquiteto uma de suas criações mais importantes.
A casa temática chamou atenção pela concepção pouco convencional, que incluía uma floresta cenográfica e até a carcaça de um avião suspensa na decoração.
Scalise afirmava que o estabelecimento foi o primeiro bar da Capital projetado e construído desde o terreno especificamente para essa finalidade, em uma época em que era comum adaptar residências para receber bares e casas noturnas.
Também levou sua assinatura o Grous Bar, no Jardim dos Estados, conhecido pela estrutura concebida como um grande ninho, além de projetos de casas noturnas e estabelecimentos como Valley, Valley Pub e Valley Tai.
A atuação nesse segmento ajudou a consolidar Scalise como referência em arquitetura temática e projetos de bares e restaurantes na Capital.
Grous Bar, no Jardim dos Estados, foi um dos projetos marcantes assinados por Luis Pedro Scalise em Campo Grande. Foto: Divulgação.Outro trabalho que entrou para a memória afetiva de Campo Grande foi a Casa do Papai Noel, criada no fim da década de 1990 em sua própria residência, no Jardim dos Estados.
Construído em estilo germânico, o imóvel transformou-se em atração natalina e recebeu milhares de visitantes. Na edição de 2005, conforme números divulgados pelo próprio Scalise, mais de 148 mil pessoas passaram pelo espaço, que chegou a contar com 48 ambientes.
A criatividade do arquiteto também alcançou projeção nacional. Em 2012, Scalise assinou, na Casa Cor São Paulo, um ambiente encomendado pela Disney para o lançamento do filme Valente no Brasil.
Inspirado na princesa Merida, o projeto de 58 metros quadrados reuniu elementos medievais, peças exclusivas desenhadas pelo arquiteto e até uma passagem secreta.
Ambiente assinado por Luis Pedro Scalise na Casa Cor São Paulo, em 2012, foi inspirado no filme Valente, da Disney. Foto:Divulgação.
Em 2025, sua trajetória foi homenageada pelo Conselho de Arquitetura e Urbanismo de Mato Grosso do Sul (CAU-MS) e pelo Instituto de Arquitetos do Brasil, Departamento de Mato Grosso do Sul (IAB-MS), em reconhecimento à contribuição profissional nas áreas de arquitetura, cenografia e design.
Conselho de Arquitetura de MS lamenta morte e destaca legado
O Conselho de Arquitetura e Urbanismo de Mato Grosso do Sul (CAU/MS) também lamentou a morte de Luis Pedro Scalise e destacou a contribuição deixada pelo profissional para a arquitetura, a cenografia e o design.
Em nota divulgada nesta quinta-feira (6), a entidade ressaltou os 35 anos de carreira do arquiteto e a projeção alcançada por seus trabalhos dentro e fora do Brasil.
“O legado do arquiteto marca três segmentos: cenografia, arquitetura e design”, destacou o Conselho.
Na manifestação, o CAU/MS lembrou que Scalise se tornou referência em projetos de casas noturnas, bares e restaurantes em Campo Grande, Cuiabá, Goiânia e municípios do interior de São Paulo, além de ter desenvolvido trabalhos em países como Catar, Emirados Árabes Unidos, incluindo Dubai e Abu Dhabi, e Jordânia.
O Conselho também recuperou uma declaração dada pelo arquiteto em 2020, durante participação na série Memórias CAU, na qual Scalise sintetizou uma das ideias que orientavam sua trajetória profissional: “Encontre a sua identidade, isso é muito importante”.
Em 2025, quando completou 35 anos de carreira, Scalise foi homenageado pelo CAU/MS e pelo Instituto de Arquitetos do Brasil em Mato Grosso do Sul (IAB/MS), em uma cerimônia que reuniu amigos e colegas de profissão para celebrar sua contribuição à arquitetura sul-mato-grossense.
“Mãos que falam” no Correio do Estado
A relação de Luis Pedro Scalise com a arte também ganhou espaço nas páginas do Correio do Estado. Em julho de 2018, ele passou a assinar no jornal a coluna "Mãos que falam”, projeto no qual reunia desenhos, frases, música e tecnologia para transformar sentimentos e situações cotidianas em conteúdo artístico.
Na época do lançamento da coluna, Scalise contou que a ideia havia surgido de maneira despretensiosa, a partir de uma demonstração de carinho aos amigos durante a Páscoa.
Com celular, prancheta e lápis, ele produzia os desenhos e selecionava cuidadosamente frases e trilhas sonoras para acompanhar cada criação.
“No início tudo não passou da vontade de demonstrar meu afeto e amizade aos amigos no dia da Páscoa. Escolhi fazer um desenho e uma frase que o completasse. Os elogios foram tantos, que quando havia um tempinho eu fazia mais e mais desenhos, frases”, contou Scalise ao Correio do Estado na época.
O projeto cresceu e passou a incorporar novas ferramentas. Scalise explicou que aprendeu a utilizar a tecnologia para transformar as ilustrações em vídeos, levando o “Mãos que falam” inicialmente para o Instagram e, posteriormente, para o YouTube, onde as produções alcançaram milhares de visualizações.
A coluna sintetizava uma característica presente em praticamente toda a trajetória do arquiteto: a capacidade de misturar linguagens.
Desenho, palavras, música e recursos digitais eram utilizados para transmitir, de maneira simples e sensível, mensagens que tinham como ponto de partida o traço do artista.
Legado de mais de três décadas
Da pintura iniciada ainda na infância aos projetos desenvolvidos no Brasil e no exterior, Luis Pedro Scalise construiu uma carreira que atravessou diferentes linguagens e fronteiras.
Artista plástico, arquiteto, urbanista, designer, cenógrafo e também colunista, Scalise fez da criatividade o elemento comum entre as diversas atividades que exerceu.
Sua morte, nesta quinta-feira, encerra uma trajetória de mais de 35 anos dedicada às artes e à arquitetura e deixa um legado ligado à história cultural e arquitetônica de Mato Grosso do Sul.