A primeira fase da Operação Dirty Pix, deflagrada em novembro de 2025, já havia identificado um suposto esquema de corrupção sistêmica envolvendo membros da administração municipal, vereadores e pessoas ligadas ao Hospital Dona Elmíria Silvério Barbosa. Na época, foram cumpridos 18 mandados de busca e apreensão. Mesmo após essa primeira investida contra o grupo, a corrupção não cessou.
De acordo com fontes do Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS), apesar de vereadores, secretários e do diretor-presidente do hospital terem recebido a visita do Grupo Especial de Combate à Corrupção (Gecoc), o esquema não foi encerrado.
Na época, foram alvo de mandados de busca e apreensão os vereadores Adavilton Brandão (MDB), Izaqueu de Souza Diniz (PSD) e Cledinaldo Marcelino Costócio (PSDB), os ex-vereadores Ademir Gabardo e Eliel da Silva Vaz, além dos secretários municipais de Desenvolvimento Rural, Cleyton Martins Teixeira, e de Desenvolvimento Econômico, Enelvo Felini Júnior.
Nesta nova fase, além das prisões de Jacob Meeuvis Breure – diretor-presidente do hospital –, da policial civil Cristina Rosa Gomes de Carvalho e do assessor político Júlio César Alves da Silva, a Justiça determinou o afastamento por 180 dias dos vereadores e secretários que haviam sido alvo na primeira fase.
A decisão foi proferida pela juíza May Meike Amaral Penteado Siravegna, do Núcleo de Garantias da Comarca de Campo Grande, no âmbito das investigações conduzidas pelo MPMS.
Os investigados são suspeitos de envolvimento em suposto esquema de recebimento de vantagens indevidas relacionado a contratos e convênios destinados ao Hospital Beneficente Dona Elmíria Silvério Barbosa, em Sidrolândia.
A determinação judicial afastou da Câmara: Adavilton Brandão; Cledinaldo Cotócio; e Izaqueu de Souza Diniz. Os parlamentares ficam temporariamente impedidos de exercer suas funções legislativas.
Além deles, o prefeito Rodrigo Borges Basso publicou no Diário Oficial de ontem o afastamento de Enelvo Iradi Felini Junior, do cargo de Secretário Municipal de Desenvolvimento Econômico e Meio Ambiente, e de Cleyton Martins Teixeira, do cargo de Secretário Municipal de Agricultura e Abastecimento, também por 180 dias.
Segundo a publicação, que segue a determinação judicial, durante o período de afastamento “o prefeito municipal exercerá a ordenação de despesas das Secretarias Municipais mencionadas nos incisos I e II do art. 1º, competindo-lhe praticar os atos necessários à execução orçamentária, financeira e administrativa das respectivas Pastas, observada a legislação vigente”.
“Durante o período de afastamento, ficam preservadas as atividades e os serviços públicos sob responsabilidade das respectivas Secretarias, cabendo ao prefeito municipal adotar as providências necessárias à continuidade administrativa das Pastas. Decorrido o prazo estabelecido no art. 1º, os secretários deveram retornar às suas funções, salvo disposição em contrário decorrente de ato administrativo ou determinação legal”, completa o decreto.
No caso da Câmara, o presidente da Casa, Otacir Pereira Figueiredo, deverá providenciar a convocação dos respectivos suplentes para ocupar as cadeiras durante o período estabelecido pela Justiça.
A previsão é de que sejam convocados Maria Tereza Fiúza Ferreira, a Maria Fiúza (MDB), Itamar de Souza Silva (PSDB) e Claésio Lechner de Albuquerque (PSD).
ESQUEMA
Segundo a investigação, o Ministério Público identificou uma série de movimentações financeiras após analisar dados obtidos mediante quebra de sigilos bancários.
Entre os valores apontados na investigação estão R$ 25 mil destinados a Cledinaldo Cotócio e R$ 120 mil, a Gabriel Autocar. Os investigadores também identificaram um repasse de R$ 20 mil para Adriana Zarati Franco Brandão, esposa do vereador Adavilton Brandão.
No caso de Cleyton Martins, foram identificadas transferências de R$ 20 mil e R$ 5 mil. Já Ademir Gabardo aparece relacionado a movimentações nos mesmos valores.
O levantamento aponta ainda que Cristina Fiúza, Enelvo Felini Júnior e Ademir Gabardo teriam recebido R$ 20 mil cada, por intermédio de Júlia Carla Nascimento.
Ela é filha de Júlio César Alves da Silva, identificado nas investigações como representante comercial de empresas envolvidas nas contratações investigadas.
Segundo os dados apresentados, Júlio César recebeu R$ 482,5 mil das empresas, quantia registrada como comissão comercial. Desse montante, R$ 100 mil teriam sido posteriormente transferidos à sua filha, que aparece como intermediária de parte dos pagamentos investigados.
O Ministério Público apura se essas movimentações financeiras foram utilizadas para viabilizar pagamentos indevidos a agentes políticos.
SEGUNDA FASE
Na primeira fase, o esquema descoberto tinha gerado prejuízo ao Hospital Dona Elmíria Silvério Barbosa de R$ 5,4 milhões. Nesta nova etapa, as investigações foram ampliadas e passaram a abranger convênios que somam mais de R$ 18 milhões em recursos públicos destinados ao Hospital Beneficente Dona Elmíria Silvério Barbosa.
Segundo o Ministério Público, o esquema atingiu recursos públicos destinados à aquisição de equipamentos e materiais hospitalares, de unidade de terapia intensiva (UTI) móvel, bem como à execução de obras de reforma do Hospital Beneficente Dona Elmíria Silvério Barbosa, cujos valores ultrapassaram
R$ 18 milhões.
* Saiba
Conforme o MPMS, o esquema fazia uma triangulação do dinheiro desviado; após o ingresso dos recursos públicos nas contas do hospital, parte dos valores era desviada das finalidades previstas nos respectivos convênios e posteriormente redistribuída por meio de sucessivas movimentações financeiras, envolvendo repasses diretos e indiretos a agentes políticos e intermediários.


