Campo Grande entrou, nesta semana, no mapa global de eventos, sediando pela primeira vez um evento da Organização das Nações Unidas (ONU). A capital de Mato Grosso do Sul também recebeu dois chefes de Estado na Cúpula de Alto Nível que antecipou o início da 15ª Conferência das Partes (COP) da Convenção sobre a Conservação das Espécies Migratórias (CMS, na sigla em inglês): o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, e o presidente do Paraguai, Santiago Peña.
No discurso de abertura, Lula não poupou o Conselho de Segurança da ONU. Ele citou grandes tensões geopolíticas no planeta, como ações unilaterais de países, atentados à soberania de nações e execuções sumárias de chefes de Estado. “O Conselho de Segurança tem sido omisso. Um mundo sem regras é um mundo inseguro”, disse o presidente da República.
Conflitos recentes, entre Estados Unidos e Israel, de um lado, e Irã, do outro, e entre Rússia e Ucrânia, ocorrem sem aprovação do Conselho de Segurança das Nações Unidas.
Depois de criticar as tensões no mundo, sem citá-las nominalmente, mas com características similares às dos conflitos no Oriente Médio, Lula também fez um paralelo com o tema do evento.
A COP15 da CMS trata da preservação das espécies migratórias, e o presidente também aproveitou a oportunidade para falar de migração. “A humanidade também tem uma história de migração, de deslocamento. No lugar de muros, precisamos de acolhimento”, disse o presidente Lula em discurso, complementando que é preciso preservar espaços de defesa do coletivo e da humanidade.
O evento, promovido pela ONU, em parceria com o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), reúne líderes globais para estabelecer estratégias de conservação de animais silvestres, habitats e rotas migratórias.
O presidente, no discurso de abertura, não fugiu do tema: assinou três decretos que criam ou ampliam áreas de preservação no norte de Minas Gerais e no Pantanal Mato-Grossense.
Também disse aos vizinhos sul-americanos, ao comentar o tema da Cúpula de Alto Nível da COP15: “Não haverá prosperidade duradoura sem a proteção da biodiversidade”.
Em meio aos recados globais e às falas técnicas sobre o tema do evento, Lula também encontrou espaço para prestar conta do trabalho de sua ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva e, de quebra, alfinetar seu antecessor, Jair Bolsonaro (PL).
“Reconstruímos o arcabouço institucional que havia sido desmontado”, disse o presidente da República. Na gestão de Bolsonaro, o desmonte de órgãos como o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), o desmatamento e as queimadas no Pantanal dominaram a pauta neste segmento.
Lula foi categórico: “[Desde 2023] o desmatamento caiu pela metade. No Cerrado, em mais de 30%. Reduzimos as queimadas no Pantanal em mais de 30%”, listou Lula, que ainda citou outras ações na área do meio ambiente, como ter presidido outra Conferência das Partes da ONU, a COP30, no ano passado, em Belém (PA), além de ter participado de ações afirmativas que caminham para tirar espécies como a baleia-jubarte e tartarugas-verdes da ameaça de extinção.
“A imagem internacional do Brasil [antes de 2023] enfrentava impactos profundos”, disse Lula.
Na abertura, também discursou o governador de Mato Grosso do Sul, Eduardo Riedel (PP). A prefeita de Campo Grande, Adriane Lopes (PP), também esteve presente. Lula e Marina Silva agradeceram a Riedel e a Adriane Lopes pelo empenho na organização do evento, o mais abrangente da história de Campo Grande.
Riedel lembrou da Lei do Pantanal, feita nesta década. “São regras claras e seguras para o uso sustentável do território, protegendo e reconhecendo os corredores ecológicos como mecanismo fundamental de preservação”, disse.
Antes da abertura do evento, Marina Silva assustou os presentes. Teve um pico de pressão alta. Foi medicada e liberada para continuar com os trabalhos.
Além dela, estiveram no evento a ministra do Planejamento e Orçamento, Simone Tebet, o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, e o secretário-executivo dos Povos Indígenas, Eloy Terena.
A COP15
Apesar de toda a movimentação na Cúpula de Alto Nível com os chefes de Estado, realizada neste domingo, no Centro de Convenções Rubens Gil de Camilo, em que, além dos presidentes do Brasil e do Paraguai, estiveram presentes embaixadores do México, da África do Sul, da Ucrânia, da França e de outros países, a COP15 começa, de fato, hoje.
O evento deve trazer, até domingo, mais de 3 mil pessoas do mundo inteiro a Campo Grande. Os debates e painéis ocorrerão no Shopping Bosque dos Ipês, no espaço Bosque Expo, onde foi montada a Zona Azul (Blue Zone).
O objetivo do evento é estabelecer corredores, no mundo inteiro, para a preservação das espécies migratórias, sejam elas mamíferos, insetos, aves ou peixes.
Iniciativas locais, como a preservação e o monitoramento da onça-pintada, o maior felino das Américas, serão tema de debate, por exemplo.
(Colaboraram Alison Silva e Laura Brasil)


