Em todo o país, cerca de 68 milhões de pessoas reconhecem a presença de grupos organizados ligados ao tráfico ou a milícias em seus bairros
Pesquisa divulgada neste domingo (10) pelo Fórum Brasileiro da Segurança Pública em parceria com o Datafolha constatou que 4 em cada 10 brasileiros com 16 anos ou mais (41,2%) reconhecem a presença de grupos organizados ligados ao tráfico ou a milícias em seus bairros, cerca de 68 milhões de pessoas em todo o país.
Conforme o levantamento, o fator crime organizado no bairro de residência amplia a vitimização, interfere nas regras de convivência, altera sociabilidades e restringe a confiança nas instituições [de segurança pública].
Em termos analíticos, isso sugere, segundo o levantamento, que a atuação desses grupos não é percebida como fenômeno excepcional ou restrito a áreas muito específicas, mas como uma experiência socialmente
disseminada, que já integra o horizonte de insegurança de uma parte expressiva da população.
Quanto ao recorte territorial, o levantamento destacou que a percepção da presença desses grupos
é maior em grandes cidades: nas capitais, 55,9% afirmaram haver crime em sues bairros.
Em linhas gerais, a presença percebida é maior onde há maior densidade urbana, mercados ilícitos mais robustos, disputas territoriais mais intensas e maior capacidade desses grupos de ordenar a vida local.
Apesar de atuar nos grandes centros, ao longo dos últimos anos, o crime organizado no Brasil
deixou de ser um fenômeno concentrado nas grandes capitais e passou a operar por difusão
territorial, capilarização e interiorização.
"Facções como Comando Vermelho e PCC, que nasceram grandes centros urbanos, como Rio de Janeiro e São Paulo, expandiram sua atuação para cidades médias e pequenas, valendo-se de"rotas logísticas, alianças com grupos locais, dinâmicas prisionais e inserção em mercados ilícitos e lícitos.", traz o documento.
Segundo a pesquisa, esse movimento acompanha uma série de transformações nas dinâmicas criminais, que passa pelo processo de nacionalização de ambos os grupos entre o final dos anos 1990 e início dos anos 2000, a circulação de lideranças pelos presídios federais a partir de 2006, e a ruptura entre os dois grupos entre
2016 e 2017, que acelerou disputas territoriais, gerou a busca por novas rotas para o transporte da droga e reconfigurou a relação das maiores facções com grupos criminosos locais.
MS
Um lavantamento realizado pelo O Globo em agosto de 2025 destacou que Mato Grosso do Sul conta atualmente com pelo menos 10 facções criminosas e ocupa 3ª posição no ranking de estado com maior número de grupos criminosos em atividade. Em nível nacional, o país conta 64 facções espalhadas pelas 27 unidades da federação, com menor ou maior tamanho e influência sobre a sociedade.
Conforme o levantamento, em números de facções, Mato Grosso do Sul está atrás apenas da Bahia e Pernambuco, com 17 e 12 facções, respectivamente. Os dados foram coletados junto a fontes das secretarias de Segurança Pública, Administração Penitenciária e Ministérios Públicos de todos os estados.
Das dez facções em atuação em MS, apenas uma é de origem sul-mato-grossense, sendo a Okaida, enquanto as demais são ramificações e núcleos de grupos que tem como origem outros estados.
Enquanto os dois do Nordeste têm um cenário fragmentado, com muitas facções locais disputando espaço, o território sul-mato-grossense é o maior “importador” de facções de outros estados. Conforme O Globo, a rota do narcotráfico que passa pela fronteira com o Paraguai e a Bolívia estimulou nove das 12 facções interestaduais a criarem núcleos de atuação no Estado.
As facções criminosas em atuação em Mato Grosso do Sul são:
- Okaida
- Primeiro Comando da Capital (PCC)
- Comando Vermelho (CV)
- Amigos do Estado (ADE)
- Bonde do Maluco (BDM)
- Terceiro Comando Puro (TCP)
- Primeiro Grupo Catarinense (PGC)
- Bala na Cara (BNC)
- Os Manos
- Cartel do Sul (CDS)
A Okaida aparece na lista como facção local, enquanto as demais são "importadas", sendo o PCC com sede em São Paulo e presença em 25 estados; CV do Rio de Janeiro e presença em 25 estados; ADE de Goiás com núcleos em MS e TO; BNC com sede no RS e núcleo em MS e SC; PGC de Santa Catarina e núcleo em MS e PR; TCP do Rio com núcleos em MS, ES, MG e SP; CDS do Paraná e núcleo em MS e Os Manos, do Rio Grande do Sul com núcleos em MS e SC.
Guerra do tráfico
Apesar da diversidade de grupos criminosos, as duas maiores facções do País, PCC e Comando Vermelho, também são as principais no Estado.
Conforme reportagem do Correio do Estado, a popularização da cocaína e a consequente redução do preço no mercado interno acirrou a guerra para tomar o controle das rotas de tráfico na região de fronteira de Mato Grosso do Sul com o Paraguai e a Bolívia.
E é por causa desse “mercado aquecido” que as duas maiores facções criminosas do País, Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV), têm travado uma guerra sangrenta em Mato Grosso do Sul.
Em alguns casos, a população pode estar se referindo a grupos locais menores, como gangues
envolvidas com o comércio varejista de drogas, cuja atuação é percebida no cotidiano por meio de pontos de venda de drogas e, eventualmente, pela circulação de pessoas armadas.
Em outros, porém, essa resposta pode remeter a contextos de presença mais explícita e estruturada de facções ou milícias, com controle territorial armado mais visível, com a presença de barricadas para impedir a entrada da polícia, imposição de regras sobre horários e circulação e restrição do ir e vir.
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