Cidades

TRAGÉDIA

Filhos únicos e sonhos dos pais: quem foram as vítimas do atentado em Blumenau

Bernardo Pabst da Cunha, Bernardo Cunha Machado, Larissa Maia Toldo e Enzo Barbosa são as vítimas da tragédia em SC

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O ataque de um homem de 25 anos ao centro educacional Cantinho do Bom Pastor, em Blumenau (SC), nesta quinta-feira (5), matou quatro crianças e arruinou também sonhos recém-realizados por pais e mães catarinenses.

De idades entre 4 e 7 anos, Bernardo Pabst da Cunha, Bernardo Cunha Machado, Larissa Maia Toldo e Enzo Barbosa tinham em comum o fato de serem filhos únicos e de terem sido todos "muito desejados pelos pais", relatam pessoas próximas. Outras quatro crianças feridas no ataque precisaram ser hospitalizadas e tiveram alta médica.

Janaina de Oliveira Tavares, próxima da família de Bernardo Pabst da Cunha, 4, conta que o menino de quatro anos "era um milagre na vida" do casal, os pais Jenniffer e Paulo.

"Eles ficaram uns dez anos tentando engravidar. Ele foi muito esperado e era muito amado mesmo", disse ela, à Folha.

"Era uma criança muito alegre. Gostava muito de super-heróis", disse ela, ao lembrar que Bernardo estava vestido com a roupa do seu personagem predileto, o Homem-Aranha, na despedida desta quinta -o corpo foi enterrado no cemitério São José no final da manhã, onde também foram sepultados os corpos de Larissa e do seu xará.

Em homenagem a Bernardo, alguns familiares e amigos também compareceram ao velório do menino com roupas de super-heróis. Ele foi descrito como uma criança meiga, simpática e alegre. Era fã também de dinossauros, do personagem de videogame Sonic e do Vasco da Gama, mesmo time do pai.

Bernardo Cunha Machado, 5, foi outro muito aguardado pelos pais, Neide e Bruno, que estavam cercados de amigos no velório. Neide Cunha coordena programas federais no âmbito da secretaria de Assistência Social da Prefeitura de Blumenau e, segundo uma amiga que estava no velório, a gravidez do menino foi algo muito esperado.

Abalada, a mãe não conseguiu falar com a imprensa.

Pai do menino, o cabo da Marinha Bruno Machado, foi às lágrimas em frente à creche, na quarta-feira, ao contar que horas antes havia chegado ao local com o filho saltitando, imitando um coelho de Páscoa.
Por causa da profissão do pai, Bernardo era apaixonado pelo universo marinho, como barcos e animais.

Tinha, por exemplo, uma tartaruga de pelúcia e se orgulhava de ter apreendido a soletrar o nome do animal.
A menina Larissa Maia Toldo, 7, estava na creche Cantinho Bom Pastor na manhã do atentado por uma casualidade.

Estudante do segundo ano do ensino fundamental da Escola Alberto Stein, ela costumava frequentar a creche, localizada a 500 metros dali, para realizar atividades extracurriculares no contraturno. Na quarta-feira, a escola não funcionou em razão de uma reunião pedagógica do corpo docente, e Larissa foi para a creche mais cedo.

Moradores que não conheciam pessoalmente as famílias foram até o velório acompanhar a despedida. Na frente da creche, pessoas também chegam a todo momento, inclusive de bairros distantes, para fazerem homenagens, levando velas e mensagens.

Coroas de flores que tinham sido entregues nas capelas que abrigaram os velórios das crianças também foram depois levadas até a entrada da creche.

O corpo de Enzo Marchesin Barbosa, 4, foi o único enterrado em outro cemitério, no Salto Norte. O menino havia sido adotado pelo casal Samira Valeriano Barbosa e Carina Marchesin, ao final de 2021. As duas tinham tatuagens nos braços com a data da adoção, junto a um triângulo rodeado de flores.

No aniversário de Enzo, em maio de 2022, Carina publicou em seu Instagram: "Meses atrás era apenas um sonho, hoje se torna realidade. Que você permaneça sempre com esse sorriso no rosto, as mães vão fazer de tudo para isso".

A chegada de Enzo à família veio em meio a outro desafio: em janeiro do ano passado, Samira começou o tratamento de um câncer no ovário. Os perfis dela e de Carina compartilham fotos sorridentes da família ao longo do tratamento.

Nesta quinta-feira, Carina e Samira postaram uma foto do filho com um sorriso tímido e um texto se dirigindo ao menino: "Você tinha entendido que veio para ficar e que aqui é sua casa e que nunca mais sairia dela" e "daí de cima você vai estar ajudando em todas batalhas".

O texto termina com a frase: "Te amamos muito, esse 1 ano e 4 meses foi o melhor de nossas vidas".
Outras quatro crianças que ficaram feridas com o ataque à creche deixaram o Hospital Santo Antônio e já estão em casa.

"Todas as crianças passaram por exames e avaliação médica. A equipe médica constatou que um dos pacientes apresenta uma lesão na mandíbula, que será tratada ambulatorialmente", informa a nota do hospital.

Também nesta quinta, o autor do ataque teve a prisão em flagrante convertida em preventiva (sem prazo) pela Justiça, após manifestações do Ministério Público e da Defensoria Pública -até aqui, responsável pela defesa dele.

Conforme a decisão, a prisão se justifica pela "manutenção da ordem pública e da reta aplicação da lei penal". Por envolver crianças nos autos, cuja identidade é protegida pelo Estatuto da Criança e do Adolescente, o processo tramitará sob sigilo na 2ª Vara Criminal da Comarca de Blumenau.

O ataque ocorreu na manhã de quarta. Segundo as investigações, Luiz Henrique de Lima, 25, chegou à escola em uma moto, pulou o muro e golpeou as vítimas aleatoriamente. Ao perceber que as professoras correram para proteger as demais crianças, ele tentou fugir pulando novamente o muro. Em seguida, se entregou.

O autor não tem aparentemente nenhuma ligação com a creche, conforme a apuração. A motivação para o ataque ainda é investigada, mas, para a polícia, trata-se de um "caso isolado", não conectado a outros atentados e não coordenado.

Operação

Polícia já identificou 12 envolvidos em suicídio de adolescente em MS

Até agora, 11 jovens, de 14 anos a 17 anos, foram apreendidos e um adulto de 18 anos foi preso por atuarem na morte de Lívia

16/09/2026 07h50

Policiais cumpriram mandados em quatro estados e no DF

Policiais cumpriram mandados em quatro estados e no DF Foto: Divulgação

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A Polícia Civil de Mato Grosso do Sul identificou, em um mês e meio de investigação, 11 adolescentes, de 14 anos a 17 anos, e um adulto de 18 anos que teriam participado diretamente da morte da menina Lívia, de 13 anos, encontrada sem vida em Naviraí, no fim de julho, após ser incitada ao suicídio por grupos extremistas durante transmissão ao vivo.

O Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP), a partir de apuração da Polícia Civil de Mato Grosso do Sul, deflagrou ontem a segunda fase da Operação Lívia, com o cumprimento de seis mandados de busca e apreensão domiciliar e seis medidas cautelares de busca e apreensão envolvendo adolescentes, em quatro estados e no Distrito Federal.

“A análise dos equipamentos eletrônicos, telefones celulares e demais mídias apreendidos permitiu avançar na identificação de outros suspeitos de integrar comunidades virtuais investigadas pela prática de crimes de ódio, misoginia, crueldade contra animais, coerção psicológica e indução à automutilação e ao suicídio, tendo crianças e adolescentes entre os principais alvos”, disse o Ministério.

Todos os alvos desta nova operação teriam participado do dia da morte da adolescente e acompanhado a transmissão da menina ao vivo.

“Entre as práticas investigadas está a chamada ‘escravidão digital’, termo técnico utilizado para descrever uma dinâmica de coerção, chantagem e controle exercida no ambiente virtual, na qual vítimas são submetidas a ameaças e pressões para cumprir determinações dos integrantes desses grupos, inclusive relacionadas à automutilação e a outros atos de violência”, explica o MJSP.

Além disso, o órgão federal afirma que, dentre os novos jovens apreendidos, há suspeitos de terem atuado na administração e moderação de comunidades virtuais utilizadas para abordar, coagir e chantagear vítimas em situação de vulnerabilidade, como se fosse uma espécie de rede de violência virtual.

Amanhã, às 10h, a delegada Anne Karine Sanches Trevisan Duarte, titular da Delegacia Especializada de Proteção à Criança e ao Adolescente (DEPCA), vai conceder coletiva de imprensa para apresentar mais detalhes desta segunda fase.

PRIMEIRA FASE

A primeira fase da Operação Lívia foi deflagrada no dia 4 de agosto, menos de duas semanas depois da morte da menina vir à tona. Foram cumpridos mandados de busca e apreensão em seis locais distintos no Rio de Janeiro, no Ceará, em Minas Gerais, no Pará e em Mato Grosso do Sul contra jovens de 14 anos a 18 anos.

Conforme Anne Trevisan, a investigação dessa organização começou no dia 22 de julho, quando a polícia tomou conhecimento que o suicídio de uma adolescente havia sido transmitido ao vivo pela plataforma de comunicação Discord, muito popular entre os adolescentes.

“Durante a investigação, a gente verificou que não foi um suicídio, mas foi realmente um homicídio. Com isso, nós identificamos os alvos, os autores, ao todo cinco adolescentes e um adulto, em vários locais do País. Nós representamos pela prisão e apreensão deles e a busca domiciliar”, declarou a delegada.

No dia da morte de Lívia, o grupo teria ficado cerca de duas horas pressionando a jovem até que ela decidisse cometer o suicídio, que teria sido um “castigo” por não ter cumprido uma tarefa passada pelos administradores do que eles chamavam de “panela”.

A jovem teria que fazer o que eles chamam de “luz”, que seria matar o próprio gato. Com a recusa dela de machucar o animal, os administradores e também expectadores, segundo a delegada, teriam pressionado a jovem a cometer suicídio.

“É como se eles estivessem jogando um videogame, tem que passar de fase. Então, assim, é uma frieza muito grande, é uma violência muito grande, é desconsiderar a vida humana de forma absurda. Eles têm satisfação com esse resultado. Várias pessoas assistindo e incentivando que praticassem a automutilação, em outros casos, a morte mesmo em si”, contou a delegada.

Ainda conforme a delegada, o adolescente infrator de 14 anos apreendido na Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro, foi quem determinou “todas as coordenadas” que a adolescente que morreu em Naviraí devia seguir para se suicidar. Durante o caso de MS, outro “evento”, como eles chamam esses episódios, era transmitido simultaneamente em outro estado.

DISCORD

No dia 12 de agosto, pouco tempo depois da primeira fase, a Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) expediu uma medida preventiva determinando que a plataforma Discord suspendesse a funcionalidade de transmissão ao vivo, no Brasil, em três dias úteis.

No dia 17 de agosto, a empresa anunciou que interrompeu, por tempo indeterminado, a possibilidade dos usuários transmitirem vídeos usando o aplicativo. 

Segundo a empresa, a suspensão das transmissões ao vivo e de compartilhamentos de vídeos não afeta as comunicações por texto e áudio e outros recursos da plataforma. Além disso, a companhia afirma que está “dialogando” com representantes da ANPD em busca de uma solução que lhe permita restabelecer as transmissões de vídeo para os usuários brasileiros.

“O vídeo é uma parte importante e muito valorizada da experiência no Discord, permitindo que nossos usuários se comuniquem e criem conexões significativas ao compartilhar experiências, jogar juntos e manter contato com amigos e familiares”, acrescentou a empresa.

O Discord classificou a morte da adolescente de Naviraí como “um caso devastador”, resultado de uma “situação muito séria”, uma “campanha coordenada de violência extrema conduzida em múltiplas plataformas” digitais.

* Saiba 

Conforme a Constituição Federal e o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), menores de 18 anos são penalmente inimputáveis.

Isso significa que eles não cometem crimes no sentido técnico da lei penal, mas sim atos infracionais.

Portanto, os 11 jovens, de 14 anos a 17 anos, apreendidos nas duas fases da operação vão responder a um procedimento especial e cumprir medidas socioeducativas, em vez de serem presos.

Justiça

Paulo Gonet nega proximidade com Daniel Vorcaro

Procurador-geral da República se manifestou em sessão do STF

15/09/2026 21h00

Rosinei Coutinho/STF

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O procurador-geral da República, Paulo Gonet, negou nesta terça-feira (15), durante sessão do Supremo Tribunal Federal (STF), vínculos com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master.  

"Não existe nem tive relacionamento de proximidade com o senhor Vorcaro. O único encontro que eu tive com o senhor Vorcaro se deu, com várias autoridades, em abril de 2024. A única ligação, intermediada por advogado, foi brevíssima e banal", disse Gonet.

Ele se manifestou durante o julgamento sobre uma possível abertura de investigação contra o ministro Alexandre de Moraes, também por sua suposta relação com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro.

O nome do procurador-geral da República, Paulo Gonet, aparece em mensagens recuperadas pela Polícia Federal (PF) a partir do celular de Vorcaro, principal investigado na Operação Compliance Zero, que está preso desde o ano passado por fraudes financeiras e corrupção. O material foi divulgado pelo ministro André Mendonça, então relator do caso Master.

Segundo o relatório da PF, Gonet é citado em conversas de Vorcaro com terceiros, e não em mensagens identificadas como trocadas diretamente entre o ex-banqueiro e o procurador-geral. Em uma conversa de 2024, um interlocutor identificado como Ciro Soares afirma a Vorcaro que "Gonet é firme".

Há ainda uma mensagem de 15 de novembro de 2025, dois dias antes da prisão de Vorcaro, na qual o ex-banqueiro demonstra preocupação com o avanço das investigações e pergunta se seria possível "reverter isso com Paulo ou Andrei". De acordo com os investigadores, as referências seriam ao procurador-geral Paulo Gonet e ao diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues.

A mensagem, entretanto, não demonstra que Gonet tenha sido procurado ou que tenha efetivamente atuado para interferir na investigação.

"Eu fico feliz que o ministro André Mendonça afirmou que não tenha nada que foi colhido que pudesse induzir a algum ilícito por parte do procurador-geral da República", comentou Gonet em seguida.

A manifestação ocorreu no contexto de uma questão de ordem levantada no início do julgamento, ainda durante a manhã, pelo ministro Gilmar Mendes, que pediu para incluir a análise pelo plenário das supostas irregularidades que teriam sido cometidas por Mendonça na condução das investigações. 

Durante a sessão, o ministro Flávio Dino pediu vista do julgamento. A análise do caso não tem data para ser retomada. O placar parcial do julgamento ficou em 4 votos a 3.

Os votos pelo julgamento conjunto foram proferidos pelos ministros Cristiano Zanin, Alexandre de Moraes e Gilmar Mendes. Apesar de ter defendido o julgamento conjunto, Dino pediu para não computar sua posição no placar provisório por ter pedido vista. 

O presidente do STF, Edson Fachin, Luiz Fux, Cármen Lúcia e André Mendonça votaram pelo julgamento separado.

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