Um novo relatório publicado neste mês indicou que existe 70% de probabilidade de que partes de Mato Grosso do Sul sejam atingidas por um recorde de altas temperaturas combinadas à umidade de maneira fora do convencional para o período correspondente ao inverno (entre 20 de junho e 22 de setembro).
Essa condição está favorecida pelos efeitos do El Niño em combinação ao aquecimento global, o qual foi gerado pelas mudanças climáticas das últimas décadas. Essa previsão foi apontada com alerta para áreas próximas à linha do Equador, regiões da América do Sul – o que inclui Mato Grosso do Sul – e a Austrália.
Os indicativos foram obtidos a partir de análises estatísticas feitas por cinco cientistas da Universidade de Berkeley. O resultado foi publicado originalmente na revista científica Geophysical Research Letters, edição deste mês.
Os pesquisadores demonstraram diferentes níveis de ondas de calor úmido e sugeriram que a proposta desse trabalho científico – que busca prever resultados de longo prazo – visa auxiliar regiões a se prepararem para eventos classificados como de extremo calor. Nessas situações, seres humanos, animais e plantas podem ser fatalmente atingidos.
“Ajuda humanitária, preparação para atendimentos médicos e disseminação de recomendações, bem como distribuição de equipamentos para a agricultura, podem ser ajustados para dar conta do que está previsto para ocorrer”, disse William Boos, um dos autores do estudo, para a Phys.org, um agregador on-line de notícias científicas.
Conforme mapa elaborado nesse estudo, é possível obter algumas referências para áreas que cobrem a região do Pantanal, bem como para parte do Cerrado. Nessa pesquisa, o alerta destaca que pode ocorrer uma combinação entre altas temperaturas e umidade fora do normal para o período.
Segundo os pesquisadores,, isso representa um golpe duplo para a saúde das pessoas: o calor úmido tende a ser mais estressante para o corpo do que o calor com estiagem.
A explicação apontada é que quanto maior é a umidade, menos suor é evaporado, e isso reduz o sistema de resfriamento do corpo para manter a média corporal natural.
“Se você não consegue equilibrar a temperatura corporal abaixo de 37°C, a pessoa pode vir a óbito. O suor é a principal forma de resfriar o corpo quando está muito quente. Sem as condições para uma pessoa suar para equilibrar a temperatura, a sobrevivência chega ao limite”, ponderou Boos.
Os cientistas ainda indicaram que essas condições que podem ocorrer a partir de junho se referem a um outro pico do efeito El Niño. A última grande onda de calor foi registrada em dezembro de 2023, ou seja, a quatro meses atrás.
Naquele período, Três Lagoas, por exemplo, chegou a registrar 37,8°C em 20 de dezembro. Enquanto isso, Aquidauana marcou 36,8°C e Água Clara, 36,2°C.
Já Porto Murtinho teve termômetros na casa dos 40,5°C em 28 de dezembro e Campo Grande, 35,7°C, conforme dados do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet).
O que a pesquisa da Universidade de Berkeley atestou – a partir dos estudos de Yi Zhang, William R. Boos, Isaac Held, Christopher J. Paciorek e Stephan Fueglistaler – também trouxe um alerta para o Painel El Niño 2023-2024 deste mês, feito pelo Intem, pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) e pelo Centro Nacional de Gerenciamento de Riscos e Desastres (Cenad).
“A previsão de temperatura indica maior probabilidade acima da faixa normal em grande parte do País, principalmente no Centro e no Norte”, sugeriu o boletim conjunto, o qual também alertou sobre o armazenamento de água no solo.
“Na parte central do País e no sudeste do Rio Grande do Sul, são previstos valores de umidade do solo mais baixos. Enquanto em Mato Grosso do Sul, no sul de Mato Grosso, no oeste de São Paulo e do Paraná
e no norte dos estados de Roraima, de Minas Gerais, do Espírito Santo e do Rio de Janeiro, bem como no interior da Região Nordeste, prevê-se uma redução dos níveis de armazenamento de água no solo para abril de 2024, que podem afetar o manejo e o desenvolvimento dos cultivos das lavouras”, frisou o estudo brasileiro.
SETOR PRODUTIVO
Para o território sul-mato-grossense, quem emitiu um alerta ao setor produtivo foi a Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso do Sul (Sistema Famasul).
“É necessário um planejamento forrageiro e nutricional adequado à realidade de cada propriedade, para evitar sofrimento com a redução da produtividade e com o aumento no tempo de permanência dos animais na fazenda, fazendo com que o produtor gaste além do planejado”, comentou o coordenador de Bovinocultura de Corte do Programa de Assistência Técnica e Gerencial (ATeG), Fabiano Pessati, em publicação reproduzida pela Associação dos Criadores de Mato Grosso do Sul (Acrissul).
A imagem de cima mostra os efeitos do El Niño e do aquecimento global, enquanto a de baixo se fosse só o efeito El Niño em ação. O estudo mostra uma diferença de 0,25°C a 0,50°C causada pelo aquecimento global. DADOS SOBRE SAÚDE
Diante desses prognósticos climáticos com risco para a saúde humana, outro cenário para alerta e preparação de atendimento na saúde refere-se a doenças em circulação no atual momento.
O monitoramento de casos de síndrome respiratória aguda grave (SRAG) feito pelo sistema InfoGripe, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), mostrou que há uma probabilidade de 95% no crescimento da doença em Mato Grosso do Sul no longo prazo (últimas seis semanas).
Em termos locais, as macrorregiões de Campo Grande e de Três Lagoas seguem com a mesma tendência de crescimento de doenças respiratórias. Já para as macrorregiões de Corumbá e de Dourados, a previsão é de estabilidade na transmissão.
O principal agente infeccioso que tem causado adoecimento na população é o vírus sincicial respiratório (VSR), além do vírus da influenza tipo A e do rinovírus.
“Para a gripe, em particular, a gente tem as vacinas à disposição em todo o País. Estamos em plena época de campanha, então é fundamental que se vacinem, que busquem os pontos de vacinação, para diminuir o risco de um resfriado acabar desencadeando uma internação, até mesmo uma morte, por conta da gripe”, alertou o coordenador do InfoGripe, Marcelo Gomes.
Fonte: Sejusp


