Cidades

Caso Sophia

Mãe e padrasto de Sophia serão julgados na próxima semana; relembre o caso

Stephanie de Jesus da Silva e Christian Campoçano Leitheim, apontados como responsáveis pela morte da menina, passarão por Júri Popular nos dias 4 e 5 de dezembro

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Nesta quarta e quinta-feira, dias 4 e 5 de dezembro, acontece o julgamento de Stephanie de Jesus da Silva (26) e Christian Campoçano Leitheim (27), mãe e padrasto de Sophia de Jesus Ocampo, réus pela morte da menina em janeiro de 2023.

A expectativa é de que, no primeiro dia de julgamento, sejam ouvidas doze testemunhas de acusação e defesa, dentre elas médicos legistas e policiais que investigaram o caso. Também é esperado que os réus sejam interrogados, mesmo que o juri precise acabar tarde da noite.

Já no segundo dia, a acusação e os advogados de Cristian Campoçano e Stephanie de Jesus devem apresentar suas versões. 

Sophia tinha apenas aos 2 anos e 7 meses de idade quando foi morta. A responsabilização da mãe e do padrasto pela morte da menina, se deve ao fato de que o laudo necroscópico do Instituto de Medicina e Odontologia Legal (Imol) concluiu que ela morreu devido a um traumatismo na coluna, causado por agressão física. Além das diversas lesões no corpo, a criança apresentava, ainda, sinais de estupro.

Posteriormente, investigações concluíram que as agressões faziam parte da "rotina" da casa da família, e que eram, inclusive, relatadas via aplicativos de mensagem.

Além disso, o pai da menina já havia tentado a guarda e acionado o conselho tutelar diversas vezes, mas o caso foi negligenciado pelas autoridades que deveriam proteger as crianças.

O caso, que aconteceu em Campo Grande, chocou todo o Mato Grosso do Sul, e repercutiu a nível nacional. Agora, quase dois anos após o crime, os apontados como responsáveis pela morte da menina finalmente serão julgados, e o caso será concluído.

Stephanie de Jesus da Silva responde por homicídio doloso e omissão por motivo fútil, meio cruel, contra menor de 14 anos e está sendo assistida pela Defensoria Pública. Christian Campoçano Leitheim foi denunciado pela promotoria de justiça por homicídio triplamente qualificado por motivo fútil, meio cruel e contra menor de 14 anos, e estupro de vulnerável.

Desde o dia em que a morte de Sophia veio à tona, o Correio do Estado tem acompanhado o caso. A seguir, relembre os desdobramentos e confira alguns dos acontecimentos destes últimos 23 meses.

Últimas horas de Sophia

Em fevereiro de 2024, o Ministério Público de Mato Grosso do Sul fez um relatório sobre as últimas horas de vida da criança, baseado em mensagens encontradas no celular do padrasto, Christian Campoçano.

O documento foi apresentado pela promotora Ana Lara Camargo de Castro, e incluído nos autos do processo judicial.

25 de janeiro - 14h30

Christian envia mensagem para Stephanie dizendo que estava irritado porque a internet da residência estava lenta e por isso não conseguia se conectar aos jogos onlines.  

Neste momento, o réu relatou que Sophia estaria chorando,dizendo à mulher que a menina estaria “endemoniada”, e que por isso havia mandado a criança se deitar. Ainda conforme relatado nas mensagens, Sophia não obedeceu, e por isso ele teria a agredido. Segundo a promotora, foi nesse momento que a vítima sofreu as agressões que a levaram a óbito.  

Ana Lara Camargo afirma que “tal conclusão se dá” porque algumas horas depois de relatar que estaria irritado, o réu enviou mensagens por volta das 18h, relatando que Sophia apresentava febre e quadro de vômito.

25 de janeiro - 18h

Após a mensagem relatando que Sophia estaria com febre e vomitando, Christian contou que ministrou soro e dois tipos de medicamentos, além de ter dado um pano para a criança não se sujasse, já que ela havia vomitado diversas vezes.   

“Sophia foi agredida com tapas e “quebra-costela”, como forma de punir a vítima, agressões que eram seguidas de sufocamento como forma de interromper o choro da criança, cujo pranto era silenciado pela ânsia de respirar enquanto tinha seu rosto pressionado contra um colchão”, diz o relatório.

O documento relata as falas de Christian ao ver Sophia passando mal. 

“Dá uns tapão nela, aí você vira a cara dela pro colchão e fica segurando porque aí ela para de chorar. É sério. Parece até tortura mais [sic] não é, porque aí ela fica sem ar para chorar e para de chorar. Entendeu?”, orienta o réu acusado, conforme relata o relatório. 

26 de janeiro - 0h

Stephanie e um amigo, saem em busca de remédios. Ela retorna algumas horas depois, e Christian vai dormir por volta das 5h.  

26 de janeiro - 16h: 

O acusado relatou que teve conhecimento geral sobre o estado de Sophia somente nesse horário, quando foi acordado por Stephanie dizendo que a filha estava com a boca roxa e convulsionando.  

26 de janeiro - 18h

Christian, após o conhecimento de que a vítima estaria passando mal, liga para a própria mãe dizendo que Sophia estava convulsionada e não conseguia respirar e que a menina seria levada para o Pronto Socorro.  

Chegada à Unidade de Pronto Atendimento

Quando chegou à Unidade de Pronto Atendimento (UPA) Coronel Antonino, em Campo Grande, Sophia já estava morta a pelo menos 7 horas.

As enfermeiras que realizaram os primeiros atendimentos constataram que a menina já apresentava rigidez cadavérica quando chegou à unidade. Posteriormente, a perícia constatou que o corpo estava sem vida a 7 horas.

O laudo necroscópico do Instituto de Medicina e Odontologia Legal (Imol) indicou que Sophia morreu por um traumatismo na coluna causado por agressão física. Além das diversas lesões no corpo, a criança apresentava, ainda, sinais de estupro.

Mensagens trocadas entre a mãe de Sophia e o padrasto, no momento em que a mulher estava na UPA, indicam que a dupla já sabia que a menina estava morta.

“Eu não tenho condições de cuidar de filhos. [...] Eu te avisei que sua vida ia ficar pior comigo, mas você não acreditou”, disse Christian Leitheim à mãe de Sophia. 

Na mesma conversa, o homem ainda ameaça tirar a própria vida após Stephanie o informar que Sophia está morta.

“Tô saindo. Não vou levar o celular e nem identidade para, quando me acharem, demorar para reconhecer ainda. Desculpa, Stephanie, vou sair da sua vida”, disse o padrasto em uma das mensagens.

Ainda de acordo com o documento a que o Correio do Estado teve acesso, logo após dar a notícia da morte da criança, Stephanie conta que exames constataram que Sophia tinha sido estuprada. Esse fato foi relatado pela mãe à polícia quando prestou os primeiros esclarecimentos e confirmado por meio de laudo necroscópico.

“Disseram que ela foi estuprada”, disse Stephanie, ao que Christian respondeu: “Nunca. Isso é porque não sabem o que aconteceu com ela e querem culpar alguém. Sei que você não vai acreditar em mim”. 

O padrasto completou: “Se você achar que é verdade, pode me mandar preso, pode fazer o que quiser”

Durante o diálogo, ele ainda dá a entender que não teria sido a primeira vez que Sophia havia sofrido algum tipo de agressão grave, já que ele disse para a mãe “inventar qualquer coisa” que justificasse os hematomas.

“Fala que se machucou no escorregador do parquinho, igual da outra vez”, sugeriu. 

Em dois anos e sete meses de vida, Sophia já havia passado por pelo menos 30 atendimentos nas unidades de saúde.

Audiências

primeira audiência de instrução - um ato processual que serve, principalmente, para colher todas as provas das partes e depoimentos das testemunhas - do "Caso Sophia" foi realizada no dia 17 de abril.

Foram ouvidas seis testemunhas: o pai biológico da vítima, um investigador de Polícia Judiciária, pai e mãe de Stephanie, e uma ex-namorada de Christian.

Avô e avó maternos de Sophia, pais de Stephanie de Jesus da Silva, foram os primeiros a serem ouvidos.

Rogério Silva relatou o choque de ver a neta no velório, e afirmou que, ao passar a mão no rosto da criança, era possível sentir que os ossos de sua face estavam quebrados.

"Eles desfiguraram ela. Eu senti os farelos dos ossos no crânio e no maxilar, entre a testa e o nariz. A gente colocava a mão e afundava, não tinha osso", disse, emotivo.

Silva explicou que não era muito próximo de sua filha, já que se divorciou da mãe de Stephanie há 21 anos. Segundo ele, a filha sempre reclamou da ausência dos pais. Apesar de não haver tanta proximidade, o homem afirmou já ter visto hematomas na criança, mas nunca imaginou que Sophia era espancada. 

O avô da vítima ainda acrescentou que ele e a avó da menina tinham medo da Sophia ser estuprada, porque desde que Stephanie havia passado a morar com Christian, a casa "vivia cheia de homens".

A mãe de Stephanie, Delziene da Silva de Jesus, relatou que a filha se afastou depois de ter conhecido Christian, e que chegou a proibi-la de entrar na residência do casal.

"Depois que ela conheceu o Christian mudou por completo. Ela se afastou de mim porque não gostava que eu interferia, ela me proibiu de entrar na casa dela".

Por conta do contato reduzido, Delzirene afirmou não ter conseguido notar os sinais de violência, e só constatou as agressões quando viu o laudo médico. 

Stephanie procurou pela mãe no dia em que Sophia morreu.

"Eu fui recebendo mensagens de que a Sophia estava passando mal, e recebi uma foto da menina dormindo. Sthephanie informou que iria esperar para levar a menina para o UPA", afirmou a testemunha.

Chegando à Unidade, Stephanie ligou para sua mãe para informar que Sophia estava morta. Delzirene acredita que Stephanie foi conivente com a violência sofrida pela criança.

"Por conta das mensagens que ela foi me mandando durante o dia, por conta da enfermeira relatar que Sophia estava há mais de quatro horas morta, não tinha como ela não saber que ela estava morta", disse. "Nas mensagens ela estava com a voz apavorada, de uma forma diferenciada. Ela estava chorando quando me mandou um áudio falando que a Sophia tinha morrido", concluiu Delziene.

Além dos avós, foram ouvidos o pai biológico de Sophia, um investigador e a ex-namorada de Cristian, que já tem medida protetiva contra ele por violência doméstica.

Andressa Fernandes, a ex-namorada, foi ouvida como informante. Ela teve um casamento de dois anos com Christian, com quem tem um filho. No depoimento, afirmou que Christian sempre bateu nela e no filho do casal

Em uma ocasião, Andressa foi chamada para limpar a casa em que Sophia morava com Stephanie e Christian, e relatou que o ambiente era extremamente sujo. A testemunha ainda confirmou que os tutores eram agressivos com a criança.

"Eu sei dizer que as poucas coisas que eu presenciei foi que eles eram agressivos com a Sophia".

Nesse dia, a mulher afirmou não ter dito nada a ninguém por medo de que Christian agredisse o filho.

A segunda audiência precisou ser suspensa após uma confusão generalizada entre os advogados de defesa de Christian Leitheim, padrasto de Sophia e o juiz da 1ª Vara do Tribunal do Júri, Carlos Alberto Garcete. 

Antes da suspensão, cinco testemunhas tiveram tempo de ser ouvidas. A primeira foi a vizinha do casal, que relatou que os dois agrediam os cachorros, e que as crianças choravam muito.

Ela confirmou ainda que a casa era suja e mantida em péssimas condições. Além disso, afirmou que não reparava se a casa costumava receber muitas pessoas de fora, mas que seu pai, que frequenta um bar nos arredores, já havia comentado sobre a movimentação na residência.

"Meu pai disse que às vezes eles amanheciam, e entravam muitos homens na casa", afirmou.

No dia da morte de Sophia, Elisângela viu o momento em que Stephanie saiu com a menina para a Unidade de Pronto Atendimento, e disse durante a audiência que havia pensado que Sophia estava "desfalecida" no colo da mãe.

A segunda testemunha, Lauricéia Amaral de Carvalho, atua como agente de saúde na região em que Sophia morava com a mãe. Durante o depoimento, afirmou que quando esteve na casa não conseguiu notar se as crianças eram agredidas, já que apenas uma filha de Christian com Stephanie estava no local.

"Eu passei dia 11 de janeiro, era uma área nova. O Christian estava em casa, fiz o cadastro, mas ele não encontrou as carteirinhas de vacinação. Apenas a filha dos dois estava em casa", afirmou.

Outro vizinho do casal, Ronaldo Correa, afirmou que morou ao lado da família por cinco meses, mas que não se recorda de brigas entre o casal. Além disso, pontuou que "de vez em quando" havia festa na residência.

Testemunhas de defesa

A quarta testemunha a depôr na segunda audiência foi uma colega de trabalho da mãe de Sophia, chamada Micauani Amorim, gerente da loja onde Stephanie trabalhava. Ela disse que a mulher costumava faltar, alegando que levaria a menina no posto de saúde. Inclusive, essa foi a justificativa apresentada quando faltou no dia da morte da Sophia.

"Antes da morte da Sophia, a Stephanie era tranquila e parecia uma pessoa sem problemas. Antes dela começar a faltar era a melhor vendedora da loja", afirmou.

Micauani explicou que mantinha apenas relações profissionais com Stephanie, mas que já havia presenciado agressões à Sophia em uma ocasião.

A última testemunha foi a melhor amiga de Stephanie, e madrinha de Sophia. Ela afirmou que antes da mulher conhecer Chritian ela era outras pessoa. Contou ainda que sempre foi próxima da mãe da vítima, principalmente quando ela ainda morava no Jardim Columbia. Na época em que o casal morava no local, a testemunha afirma nunca ter visto Christian maltratando a menina.

"Depois de mudar de casa ela se afastou, e era difícil até de conversar com ela pelo celular", comentou.

A testemunha acrescenta ainda que achava que Stephanie não estava muito feliz, e que o casal chegou a se separar. Quando reataram, a mãe de Sophia teria se afastado mais ainda.

Depois que a família se mudou para a Vila Nasser, a amiga fez apenas duas visitas, e afirmou que da última notou que Sophia estava quieta e "diferente de como ela era antes".

Ao ser questionada sobre a possibilidade de Stephanie ter matado Sophia, a amiga respondeu que a mulher era sim capaz de agredir a filha, mas não de matar. Ela concordou que Stephanie foi omissa.

"Ela deveria ter pedido ajuda".

A amiga revelou que na maior parte do tempo, enquanto Stephanie trabalhava, Sophia ficava com Christian. Por isso, ela acredita que o padrasto pode sim ter matado e abusado da criança, mas não descarta a possibilidade de que outra pessoa possa ter cometido os crimes, já que "homens viviam entrando e saindo da casa".

No final de seu depoimento, a testemunha ainda mencionou que poucos dias antes de morrer Sophia estava triste, porque não queria ficar na casa da mãe, mas sim voltar para a casa de sua avó paterna.

Júri Popular

O Tribunal do Júri, que definirá as penas de Stephanie e Christian, é um mecanismo democrático que permite a participação de cidadãos comuns no julgamento de crimes de interesse social.

O júri é composto por um juiz presidente e vinte e cinco jurados, dos quais sete serão sorteados para compor o conselho de sentença e que terão o encargo de afirmar ou negar a existência do fato criminoso atribuído à pessoa.

Assim, é o cidadão, sob juramento, quem decide sobre o crime. Essa decisão do jurado é de acordo com a sua consciência e não segundo a lei. Aliás, esse é o juramento, de examinar a causa com imparcialidade e de decidir segundo sua consciência e justiça.

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Crime Virtual

MPMS recorre contra soltura de cinco adolescentes no caso Lívia no Discord

Promotoria tenta reverter decisão que liberou os investigados e defende a manutenção da internação até a conclusão do processo socioeducativo.

22/09/2026 17h52

Discord foi uma das plataformas utilizadas pelos grupos virtuais investigados no caso da morte de Lívia Cioca Ferreira, de 13 anos.

Discord foi uma das plataformas utilizadas pelos grupos virtuais investigados no caso da morte de Lívia Cioca Ferreira, de 13 anos. Foto: Reprodução.

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O Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS) recorreu à Justiça para tentar restabelecer a internação provisória de cinco adolescentes investigados no caso da morte de Lívia Cioca Ferreira, de 13 anos, ocorrida em Naviraí.

A adolescente morreu após, segundo as investigações, ser submetida a ameaças, humilhações e intensa pressão psicológica por integrantes de grupos que atuavam pela internet, com parte dos acontecimentos transmitida ao vivo pelo Discord.

Por meio de agravo de instrumento com pedido de tutela de urgência, a 4ª Promotoria de Justiça de Naviraí tenta reverter a decisão que determinou a liberação dos cinco adolescentes após o fim do prazo da medida cautelar.

O agravo de instrumento é um recurso utilizado para contestar determinadas decisões tomadas pelo juiz antes do julgamento definitivo do processo.

Neste caso, o MPMS pede que o Tribunal de Justiça reveja a decisão e determine que os adolescentes permaneçam internados até a conclusão do processo socioeducativo.

No recurso encaminhado ao Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul (TJMS), a Promotoria argumenta que a gravidade dos fatos investigados, a complexidade do caso e a proximidade da sentença justificariam a continuidade da internação.

O Ministério Público também sustenta que a demora na conclusão do processo não ocorreu por falta de atuação dos órgãos envolvidos.

Segundo a instituição, o caso exigiu a análise de um grande volume de material digital, a realização de perícias e a cooperação entre autoridades de diferentes estados e até de outros países para identificar os participantes e determinar qual teria sido a atuação de cada um.

A investigação ganhou dimensão nacional após a morte de Lívia, encontrada sem vida em Naviraí no dia 22 de julho deste ano. Inicialmente tratado como suicídio, o episódio passou a ser investigado pela Polícia Civil como resultado de manipulação praticada em ambiente virtual.

Reportagens do Correio do Estado mostraram que a polícia passou a tratar o episódio como um caso de homicídio resultante da atuação de um grupo organizado na internet. 

Pressão antes da morte

As investigações apontaram a existência de grupos organizados em plataformas digitais nos quais adolescentes seriam submetidos a desafios, humilhações, automutilações e outras formas de violência psicológica.

Conforme a Polícia Civil informou anteriormente ao Correio do Estado, os integrantes utilizavam técnicas de engenharia social para se aproximar de jovens, conquistar a confiança deles e, posteriormente, exercer controle sobre as vítimas. 

No caso de Lívia, a polícia apurou que ela teria sido pressionada durante cerca de duas horas no dia de sua morte. Um dos episódios considerados centrais na investigação foi a recusa da adolescente em cumprir uma ordem para matar o próprio gato.

A tarefa era chamada de “luz” dentro do grupo. Conforme explicou à época a delegada Anne Karine Sanches Trevizan Duarte, titular da Delegacia Especializada de Proteção à Criança e ao Adolescente (Depca), depois que Lívia se recusou a machucar o animal, integrantes e pessoas que acompanhavam a transmissão teriam intensificado a pressão para que ela tirasse a própria vida. 

A investigação apontou ainda que um adolescente de 14 anos apreendido na Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro, teria dado as orientações que Lívia deveria seguir.

A apuração identificou suspeitos em diferentes pontos do País e encontrou, durante o cumprimento de mandados, materiais relacionados a ideologias extremistas e ao neonazismo.

Operação Lívia

O avanço das investigações levou à deflagração da Operação Lívia, em 4 de agosto, pela Polícia Civil de Mato Grosso do Sul, por meio da Depca, com apoio do Laboratório de Operações Cibernéticas (Ciberlab), da Secretaria Nacional de Segurança Pública.

Na primeira fase, cinco adolescentes foram apontados como integrantes e administradores dos grupos virtuais conhecidos como “Proxy” e “Snak4”. O Ministério Público posteriormente apresentou representação para aplicação de medidas socioeducativas contra os investigados.

As apurações continuaram e chegaram a outros adolescentes. Em 15 de setembro, foi deflagrada a segunda fase da Operação Lívia, com seis mandados de busca e apreensão e medidas cautelares cumpridos na Bahia, Distrito Federal, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e São Paulo. Os alvos tinham entre 14 e 17 anos. 

O MPMS afirma que já apresentou uma segunda representação, abrangendo outros seis adolescentes identificados ao longo das investigações.

Dessa forma, as duas frentes do processo socioeducativo alcançam adolescentes que, segundo a acusação, desempenhavam diferentes funções na manutenção, administração e organização dos grupos virtuais.

De acordo com as representações citadas pelo Ministério Público, o ambiente virtual teria estrutura organizada, com divisão de tarefas e hierarquia, além da promoção de transmissões e desafios envolvendo violência, pressão psicológica, automutilação, crueldade contra animais e comportamentos autodestrutivos.

Caso colocou Discord sob pressão

A repercussão da morte de Lívia ultrapassou Mato Grosso do Sul e colocou o Discord no centro de uma discussão nacional sobre proteção de crianças e adolescentes na internet.

Em agosto, o Discord informou que havia identificado e desativado o servidor privado relacionado ao caso.

Posteriormente, a Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) determinou a suspensão das transmissões ao vivo e do compartilhamento de vídeos da plataforma no Brasil enquanto não fossem demonstradas medidas suficientes de proteção a crianças e adolescentes. 

A Advocacia-Geral da União (AGU) também entrou na Justiça contra o Discord e pediu R$ 500 milhões em indenização por dano moral coletivo, além de medidas para ampliar a proteção dos usuários.

Nesta segunda-feira (21), o Correio do Estado mostrou que a AGU voltou a se manifestar no processo e classificou como genéricas e insuficientes as propostas apresentadas pela empresa para solucionar as falhas apontadas. 

Agora, enquanto as discussões sobre a responsabilidade da plataforma continuam na Justiça Federal, o processo socioeducativo relacionado aos adolescentes avança em Mato Grosso do Sul.

O novo recurso do MPMS coloca no centro da disputa jurídica a situação dos cinco adolescentes inicialmente internados: a Promotoria pretende que a liberação seja revertida e que eles voltem a cumprir internação provisória até que a Justiça julgue as acusações.

Campo Grande

Relatório de intervenção abre nova etapa para o transporte público

Documento dos interventores será analisado pela Câmara e pela Prefeitura antes de decisões sobre a concessão

22/09/2026 17h30

Consórcio Guaicurus foi assumido pela prefeitura em junho

Consórcio Guaicurus foi assumido pela prefeitura em junho Foto: Paulo Ribas / Correio do Estado

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A entrega do relatório parcial dos primeiros 90 dias de intervenção abre a etapa de análise sobre os próximos passos do Consórcio Guaicurus, com medidas como conclusão da auditoria financeira, apuração de responsabilidades e revisão do contrato de concessão ainda pendentes. O diagnóstico aponta risco de paralisação no início da intervenção e detalha problemas financeiros, operacionais e de gestão que agora serão acompanhados pela Câmara Municipal e considerados pela Prefeitura na definição do futuro do serviço.

Presidente da Comissão de Transporte e Mobilidade Urbana da Câmara, o vereador Dr. Lívio afirmou ao Correio do Estado que o documento ainda não representa uma mudança concreta na situação do consórcio Guaicurus.“Nada mudou. É apenas uma prestação de contas parcial. Vou ler o relatório nesses próximos dias”, afirmou.

Ainda segundo o vereador, a partir da análise do documento, a comissão pretende estabelecer um painel de preocupação e acompanhamento sobre os principais problemas apontados pelos interventores e as medidas que precisarão ser adotadas.

O relatório, com data-base de 15 de setembro, apresenta um diagnóstico provisório da situação encontrada desde a entrada da equipe de intervenção, em 16 de junho. Entre as medidas recomendadas estão a renovação da frota, mudanças nos processos de manutenção e compras, recuperação dos controles administrativos e financeiros e revisão das regras da concessão.

Para o interventor jurídico Alexandre Souza Moreira, porém, os primeiros 90 dias foram suficientes para confirmar parte das preocupações que haviam levado à intervenção.“A principal finalidade desse relatório parcial é uma prestação de contas por parte dos interventores daquilo que foi feito nesses primeiros 90 dias”, explicou.

Segundo Moreira, além de garantir a continuidade do serviço, a equipe precisava identificar internamente as razões que contribuíam para a precarização do transporte. “Uma das finalidades dessa entrada era que a gente pudesse garantir a continuidade dos serviços. Havia aí uma preocupação de que essa continuidade pudesse estar em risco em razão da forma como esse serviço vinha sendo prestado, da precariedade aparente financeira das empresas e também para que a gente pudesse fazer uma avaliação interna das razões pelas quais o transporte estava tão precarizado”, disse.

A intervenção foi decretada pela Prefeitura em junho, por até 180 dias, depois de um histórico de problemas na prestação do serviço e meses após a paralisação do transporte coletivo em dezembro de 2025 por atraso de salários.

Agora, o relatório parcial passa a integrar a análise sobre o futuro da concessão. Entre as recomendações estão a renovação da frota, implantação de manutenção preventiva e preditiva, reorganização de compras e almoxarifado, retomada dos indicadores de desempenho e revisão de linhas e frequências.

Também permanece pendente a decisão sobre a transferência do controle do Consórcio Guaicurus para o Grupo HP Mobilidade, de Goiás, que anunciou a compra da concessionária em julho. A operação ainda depende de anuência do Município.

A prefeita Adriane Lopes (PP) já afirmou que a Prefeitura poderá barrar a transferência caso a proposta não atenda às exigências municipais, tendo citado também a possibilidade de uma nova licitação.

Para Alexandre Moreira, o principal resultado dos primeiros 90 dias foi justamente conseguir dimensionar internamente uma crise que já era percebida pelos usuários.

“Tudo isso foi relatado e acaba por confirmar, sim, uma situação mais complexa do que vinha vivenciando aí o transporte campo-grandense. A gente conseguiu levantar um panorama em 90 dias que, de certa forma, justifica a necessidade da realização dessa medida drástica, que é uma intervenção!, clonclui. 

Valores

Na data em que a intervenção começou, o caixa das empresas somava R$ 415,2 mil, enquanto o adiantamento salarial que venceria poucos dias depois era de R$ 1,03 milhão.

O relatório registra ainda R$ 5,86 milhões em títulos vencidos de fornecedores de diesel, R$ 2,14 milhões em débitos com outros fornecedores e R$ 4,85 milhões em Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) e Imposto de Renda Retido na Fonte (IRRF) vencidos. As linhas de crédito estavam praticamente esgotadas e o estoque de combustível era considerado crítico.

Para Moreira, o conjunto representava risco concreto de interrupção do serviço. “A gente encontrou um cenário inicial de bastante precariedade financeira, o que evidenciava até mesmo uma possível paralisação dos serviços, um fluxo de caixa extremamente deficitário, um estoque de diesel muito baixo, dívidas junto ao fisco, dívidas junto a fornecedores, fornecedores de combustível, fornecedores de peças também outros fornecedores”, afirmou.

Além das dívidas

O diagnóstico não se restringiu ao caixa. Os interventores também apontaram problemas na operação e na gestão das empresas, como manutenção predominantemente corretiva, compras emergenciais, perda de crédito com fornecedores, fragilidade dos estoques e controles administrativos insuficientes.

Na avaliação de Moreira, essas deficiências também pressionam o custo do sistema. “A gente também encontrou uma precariedade operacional dessas empresas, operando de uma maneira que não é a maneira mais adequada e de uma forma que acaba encarecendo ainda mais o custo do sistema, com pagamento de juros, pagamento de protestos, comprando mais caro de fornecedores por falta de crédito”, disse.

O relatório aponta idade média de 10,4 anos para a frota, acima do parâmetro contratual de cinco anos. Dos 460 veículos analisados, 210 foram fabricados até 2015. Também foram identificadas quedas na oferta. Entre 2023 e 2025, as viagens realizadas recuaram cerca de 14%, enquanto a quilometragem caiu 15,2%. A eficiência média das viagens programadas passou de 86,4% para 74,5%.

O histórico de fiscalização também aparece no diagnóstico. Entre 2021 e 2025, a Agência Municipal de Trânsito (Agetran) registrou 21.910 autuações, principalmente por descumprimento de horários, omissão de viagens e problemas em equipamentos obrigatórios.

Apesar de reconhecer a insuficiência das receitas correntes para cobrir as despesas, o documento não conclui que exista desequilíbrio econômico-financeiro do contrato. A questão deverá ser analisada em procedimento específico pela  Agência Municipal de Regulação de Serviços Públicos (Agereg), com reconstrução da equação contratual, análise de receitas, custos, demanda, tarifa, subsídios e matriz de riscos.

 

 

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