Titular da Secretaria Municipal de Governo e Relações Institucionais (Segov), Ulisses da Silva Rocha conversou com o Correio do Estado sobre a situação de emergência decretado pela Prefeitura Municipal de Campo Grande depois de vendaval que atingiu a cidade, o plano de recuperação dos pontos que foram prejudicados e as ações de prevenção diante da previsão de novos episódios de tempestades.
No dia 10 deste mês, os campo-grandenses foram pegos de surpresa com um temporal que atingiu a Capital. Com rajadas de vento que alcançaram quase 90 quilômetros por hora, diversas árvores caíram, casas ficaram mais de um dia sem energia e grandes estruturas foram destelhadas, como escolas, a Esplanada Ferroviária e uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA).
Diante do cenário, o Município decretou situação de emergência de 180 dias, que foi reconhecida tanto pelo governo do Estado quanto pela União. A prefeita Adriane Lopes (PP) estimou os prejuízos em cerca de R$ 40 milhões.
Porém, a situação pode se agravar, visto que o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) prevê que novas tempestades podem acontecer em Campo Grande até a chegada da primavera, intensificado pela chegada de um intenso El Niño.
Todos esses assuntos foram tratados na entrevista com Ulisses Rocha. Confira a entrevista:
Porque a prefeitura avaliou que seria necessário o decreto de emergência?
Nós vivemos uma situação que acaba sendo inédita na cidade de Campo Grande, porque várias cidades pelo País vêm sofrendo com essas alterações do clima, e nós estamos enfrentando agora esse super-El Niño, como é noticiado por todos os órgãos de comunicação, pelos cientistas e pelos pesquisadores. E isso tem influenciado o clima aqui em Campo Grande.
Nós tivemos na quinta-feira [dia 10] uma tempestade que causou danos na cidade inteira, com ventos de quase 100 km/h, que choveu mais de 24mm em 20 minutos, choveu granizo, e o município, infelizmente, começa a ter que lidar com essas situações climáticas, com esses eventos climáticos que vêm acontecendo.
Você tem como exemplo o Rio Grande do Sul, que há uns dois ou três anos vem sofrendo com essa quantidade de chuvas. Isso causa dano na cidade inteira. Nós tivemos mais de 295 árvores caídas sobre a rede elétrica, fora as outras árvores que caíram nas vias públicas sobre moradias e automóveis.
É um volume e uma intensidade de um temporal que em poucos minutos causou um transtorno gigante para a cidade. Muitas áreas e muitos bairros levaram quase cinco dias para que pudessem restabelecer a energia elétrica nas moradias, justamente porque as árvores destruíram parte da rede toda, não era simplesmente ir lá e fazer uma religação.
E árvores com tamanhos gigantescos, que caíram sobre a rede, que demoravam muitas horas de serviço para remover essas mesmas árvores e restabelecer a energia das pessoas, que foi o que mais afetou nesse momento.
Tivemos poucos pontos de alagamento, mas assim, os danos foram gigantescos. Várias estruturas, tanto públicas quanto privadas, foram danificadas com esse temporal.
Então, o que se buscou é que a gente pudesse dar respostas rápidas para que a gente pudesse restabelecer, primeiro, o vai e vem das pessoas, o fluxo das pessoas nas vias públicas, e claro que atendendo aquelas famílias que ficaram desassistidas, mas assim, que a gente pudesse de alguma maneira trazer respostas imediatas ao que o evento causou para Campo Grande.
Em quanto tempo a prefeitura espera conseguir recuperar o que foi estragado pelo vendaval?
Eu acho que agora é a gente restabelecer o fluxo, permitir que o trânsito flua, as pessoas saiam de casa, pois muita gente ficou com árvores caídas nas suas residências por um tempo maior. A prefeita criou um comitê para que essas ações fossem todas concentradas e organizadas.
A gente trouxe para dentro a Energisa, a companhia de Água, além do governo do Estado com a Defesa Civil, com o Corpo de Bombeiros, com a Secretaria de Obras. Tem a Secretaria de Obras do Município, Defesa Civil do Município e todas as outras secretarias envolvidas. Teve também a participação do governo federal, que em determinado momento vai aportar recursos para que a gente possa fazer frente a esses serviços todos.
O Município de Campo Grande fez o seu papel. Muitas vezes as pessoas não sabem para quem ligar ou quem buscar. Então a gente centralizou esse serviço tudo no 156, para que a gente pudesse se comunicar.
Se caiu em via pública e não houve danos a residências ou a veículos, o município vai lá e faz a remoção. Se houve dano aos veículos e às residências, geralmente o Corpo de Bombeiros é acionado. E se uma árvore que estava dentro do imóvel e caiu dentro do imóvel, o proprietário também tem que fazer a remoção da árvore que causou esse dano.
O Município já vem, ao longo dos anos, se preparando para essas atividades climatológicas, mas isso às vezes passa um pouco do limite. Não tem ventos de 100 km/h em boa parte do ano. Nos últimos anos se considera um ou outro evento que teve um vento muito forte em Campo Grande e esse passou de todos os limites.
E a gente ainda tem previsão de que possam acontecer outros eventos dessa magnitude ou até maiores do que ele até o fim do ano porque parece que vai haver ainda um período crítico do super-El Niño, que vai acontecer no mês de novembro.
Então esse decreto, ele estabelece a forma como o Município vai estar preparado para isso. A busca do recurso é para que a gente possa melhorar a prestação e a entrega do serviço para as pessoas. A gente tenta minimizar esses danos. Claro que você não consegue impedir que a chuva aconteça, mas você pode, após a chuva, dar respostas rápidas para as pessoas.
Qual será a prioridade para iniciar as ações? Quais estruturas serão reconstruídas primeiro?
Na verdade, existe um relatório que foi realizado já nas primeiras horas de quando ocorreu o dano, e muitas dessas situações de destelhamento, de paralisação de serviço, de cair o forro, isso já foi recebido. Por exemplo, a UPA já voltou a funcionar no mesmo dia, a equipe de manutenção da Sesau [Secretaria Municipal de Saúde] foi lá, prestou o serviço e conseguiu restabelecer o funcionamento.
Das muitas escolas que sofreram danos, todas elas já voltaram a funcionar. Uma ou outra ficou prejudicada na segunda-feira, mas na terça-feira o Município já providenciou a recuperação desses espaços. A gente ainda tem o espaço da Esplanada Ferroviária danificado, mas estamos buscando recursos para que a gente possa fazer a restauração daquele espaço. Já tinha uma licitação que estava em andamento por uma finalidade específica, mas a gente vai ampliar isso.
E esse relatório já foi entregue à Defesa Civil nacional, isso está em análise. Há um compromisso do ministro de que a gente possa ter acesso a alguns recursos federais já para também suplantar esses gastos iniciais emergenciais que você possa vir a ter. Porque você quando está numa situação de emergência, se você for para os meios tradicionais de compra de recurso para que você possa dar resposta, são muito demorados.
Às vezes eu preciso comprar lona, vou fazer uma licitação para comprar lona? Com o decreto eu posso ir lá, faço uma tomada de preço e vejo quem está fornecendo mais barato e já compro a lona.
Então o decreto permite isso ou contratar algum prestador de serviço para colaborar e para ajudar nisso. Então há uma flexibilização para você poder fazer esse atendimento mais rápido e entregar, devolver para as pessoas esse fluxo de ir e vir.
A prefeita havia estimado o prejuízo em R$ 40 milhões, esse valor continua o mesmo ou ele pode mudar? Porque?
Sim [pode mudar], mas o relatório precisa ser finalizado. À medida que você vai fazendo o serviço e entregando a prestação você tem uma noção do quanto isso custa. Por exemplo, a remoção de árvore é um serviço pesado, que envolve muita gente. Você teve lá, por exemplo, destelhamento todo da Esplanada Ferroviária, você teve várias escolas que foram recuperadas.
Então, você vai apontando isso e vai colocando no relatório e vai ter uma noção exata dos valores que serão necessários para fazer frente a tudo isso. De imediato, a gente saiu com o compromisso de que o governo federal, com a entrega desse relatório, já pudesse disponibilizar ao município de Campo Grande algo em torno de R$ 5 milhões.
Há previsão de que novos temporais possam atingir a cidade até amanhã, a prefeitura está preocupada com essa situação?
Nós estamos em alerta. A Defesa Civil vem monitorando porque esse monitoramento faz parte de um sistema nacional de monitorização. Nós temos aqui o Estado que também trabalha com esse monitoramento. Muitas das informações chegam durante o dia. Você não tem como fazer uma previsão de que a tempestade vai acontecer no horário x daquela semana.
O que a gente tem é que o ápice do super-El Niño vai acontecer no mês de novembro e início de dezembro. Então, se já ocorreu isso agora em setembro, pode ser que, com o que está anunciado, tenhamos eventos com uma intensidade muito maior do que foi esse evento de agora.
Perfil - Ulisses da Silva Rocha
É formado em Direito pela Universidade Católica Dom Bosco (UCDB) e especialista em Direito Público pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), além de obter especialização em Direito Eleitoral e Processo Eleitoral pela Faculdade Insted. Antes de assumir a titularidade da Segov, foi secretário-adjunto da Pasta em 2024 e 2025.



