Ao menos 20 funcionários estão debilitados por arbovirose que vitimou quatro pessoas em três semanas
O surto de chikungunya paralisou as aulas em quatro escolas nas aldeias indígenas Bororó e Jaguapiru, em Dourados, interior do Estado. Em menos de três semanas, quatro pessoas foram vítimas da arbovirose transmitida pelo Aedes Aegypt, mosquito também transmissor da dengue.
Em entrevista ao Correio do Estado, o cacique Vilmar Machado assegurou que a paralisação programada inicialmente para esta quarta-feira (18) ocorrerá na Escola Municipal Francisco Meireles, Escola Municipal Indígena Ramão Martins, Escola Municipal Indígena Tengatiu Magangatu e Escola Estadual Indígena Guateka Marçal de Souza, uma vez que ao menos 20 funcionários estão com chikungunya.
"Não temos condição de trabalhar, de manter a escola em funcionamento. Primeiro pela segurança dos alunos, e segundo porque temos professores, merendeiras, todos doentes", destacou o cacique.
A paralisação das aulas tem objetivo de chamar atenção da prefeitura de Dourados, uma vez que as aldeias possuem subnotificação de casos, disse.
"Precisamos chamar atenção da prefeitura para algo maior, temos muitas pessoas que estão doentes e que sequer conseguem ir ao hospital, o número divulgado é muito menor do que o real".
Questionado sobre a situação sanitária dentro das aldeias, disse que o agravamento da situação também ocorre em simultâneo com o rompimento do Distrito Sanitário Indígena (Dsei) com a empresa de veículos Cunha, responsável por alugar veículos que auxiliavam no atendimento de saúde indígena local.
De acordo com o Ministério da Saúde, o rompimento com a empresa ocorreu após diversos descumprimentos contratuais.
Vilmar Machado destacou que o surto sanitário decorre da falta de qualidade na água das aldeias, uma vez que as caixas d'água ficam expostas. "Cerca de 90% dos casos são por conta da água. As caixas ficam no chão e concentram a maioria dos focos de mosquitos, com isso os moradores ficam em um dilema entre beber água, ou correr risco de tomar e ficar doente", disse.
Números
De acordo com o levantamento mais recente, são 407 casos notificados somente entre indígenas, sendo 202 confirmados, 181 em investigação e 24 descartados.
A primeira vítima foi uma mulher de 69 anos, morte ocorrida no último dia 26, além de um homem de 73 anos, um bebê de 3 meses e uma mulher de 60 anos, morte confirmada no último dia 12.
Na área urbana de Dourados, os números também cresceram em 2026. São 912 notificações, das quais 379 foram confirmadas, 383 ainda aguardam resultado e 150 foram descartadas. Até o momento, não há registro de mortes fora das reservas indígenas.
Impacto
Apesar da população significativamente menor (cerca de 20 mil pessoas nas aldeias) e aproximadamente 264 mil na área urbana, a incidência proporcional de casos é mais elevada entre a população indígena. Os dados atuais já superam todo o registrado em 2025, quando o município contabilizou 184 casos confirmados e apenas uma morte.
Para conter o avanço da doença, a Prefeitura de Dourados mobilizou uma força-tarefa com equipes da Secretaria Municipal de Saúde, com apoio do Governo do Estado e da Prefeitura de Itaporã, que disponibilizou dois carros para auxiliar os aldeados .
O mutirão nas aldeias Jaguapiru e Bororó já vistoriou 4.319 imóveis, realizou tratamento em 2.173 locais e identificou 1.004 focos do mosquito, sendo 90% em caixas d’água, lixo e pneus.
As ações incluem ainda borrifação em imóveis, uso de equipamentos de inseticida e atuação de 86 agentes de endemias e 29 agentes de saúde indígena.
Paralelamente, há uma articulação com o Ministério da Saúde, o Distrito Sanitário Especial Indígena (Dsei), a Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), a Força Nacional do SUS e o Hospital Universitário da Universidade Federal da Grande Dourados para enfrentar o avanço das arboviroses.
O secretário municipal de Saúde, Márcio Figueiredo, afirmou que, apesar do reforço das equipes, o controle da doença depende da colaboração da população. Segundo ele, é fundamental eliminar recipientes com água parada, principal ambiente de proliferação do mosquito transmissor.
Transmissão
A chikungunya é transmitida pelo mosquito Aedes aegypti e provoca sintomas como febre alta, dores intensas nas articulações e fadiga. Em casos graves, pode evoluir para complicações neurológicas, como encefalite e meningite, além de deixar sequelas com dores persistentes.
Histórico
Histórico recente da doença no Estado mostra oscilações ao longo dos anos. Após ausência de mortes em 2016 e 2017, foram constatadas três mortes por Chikungunya em 2018. Entre 2019 e 2022, não foram registrados casos fatais, ao passo que entre 2023 e 2024, foram contabilizadas três e uma morte, respectivamente. Em 2025, foram confirmadas seis mortes.
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