Para quem já consertou e fabricou sapatos, alugou mesas de sinuca e vendeu cerveja em um pequeno bar, a conquista do reconhecimento como “Esfiha do Thomaz” veio com muito esforço e paciência. Com alma de brasileiro, o libanês de 86 anos, José Thomaz, chegou a Campo Grande com 9 anos de idade e hoje é dono de um estabelecimento com 33 anos, várias peculiaridades e histórias.
“Quem sai do país de origem é por causa da situação financeira, quem fala que é por outro motivo está mentindo. Viemos porque não dava pra sustentar a família, mas viemos para o paraíso. Lá, a gente trabalhava no tempo de verão para juntar mantimento para o inverno, que nem formiga”, afirma Thomaz. Ele nunca mais voltou para o Líbano, chegou a morar 6 anos no Rio de Janeiro, conhece Aquidauana porque ia jogar futebol perto do Rio, mas é em Campo Grande que ele faz história.
Intuição
No ano de 1950 abriu a sapataria na Dom Aquino, o negócio progrediu e ele já tinha fabricação própria e cerca de 20 funcionários. “Aquilo foi me esgotando, eu era sozinho para atender clientes e lidar com funcionários aí me casei em 58 e abrimos um barzinho, minha mulher fazia os salgados e vendíamos pinga e cerveja também. Mas não achava certo esse início de vender pinga, aí começamos a investir só nos salgados”, conta.
A casa que a família morou quando veio do Líbano era onde fica o estabelecimento hoje, na Rua 7 de Setembro, quase esquina com a Rui Barbosa. Quando começaram, em 78, o local era um corredor, depois outras duas partes foram compradas dos irmãos e hoje já fizeram um estacionamento em frente, um espaço para eventos e querem comprar o imóvel da esquina. “Isso de alimentos não tem limite, a gente começou com esfiha e pastel e agora tem até doces. Meu filho mais velho queria procurar serviço em Corumbá, aí falei pra ele que o lugar dele era aqui e que o negócio ia crescer. É só ter paciência”, reflete Thomaz.
Confiança
Com um mural de fotos das crianças que frequentam o local, Thomaz fica tão alegre quanto as crianças quando vê como se sentem a vontade. O clima é intimista e convidativo, constantemente um cliente cumprimenta Thomaz e conta da família, da vida. Com 86 anos ele fica no balcão, atende também, dá uma lição de humildade e confiança com a política que adotou – lá, se come o quer sem que ninguém anote. Depois, no caixa, a pessoa fala o quanto comeu e paga.
“Pela clientela que temos hoje me sinto orgulhoso, só vê gente boa, ninguém mau caráter. Às vezes alguém mente uma ou outra esfiha, mas não chega a dar prejuízo. Uma vez chegaram dois caras que fiquei de olho, porque você conhece a pessoa quando olha para a feição dela, sabe se presta ou não”, acredita Thomaz.
São quatro filhas e dois filhos, apenas uma delas não trabalha no estabelecimento.”O tempo era outro, criança criava com qualquer coisinha. A gente pensava 'o que Deus quer' e hoje não , restringe para um ou dois filhos”, analisa Thomaz. Assim, com apoio da família, paciência, confiança e um pouco de intuição, José Thomaz consolidou a “esfiha do Thomaz”, que mesmo com os outros salgados e doces, continua sendo carro chefe do local.
Geladeira escondia passagem entre a residência do empresário e imóvel apontado pela polícia como local de desmanche. Foto: Reprodução/Policia Civil.


