Sacerdote salesiano que marcou a história religiosa e educacional da Capital terá processo de beatificação aberto no dia 20 de outubro, na Paróquia São José.
O nome do padre João Crippa, conhecido por identificar uma das ruas mais tradicionais do Centro de Campo Grande, poderá ganhar um significado ainda maior para os católicos. O sacerdote salesiano, que dedicou décadas da vida à evangelização, à educação de crianças e ao atendimento de famílias carentes em Mato Grosso do Sul, terá sua trajetória investigada pela Igreja Católica em um processo que, futuramente, poderá resultar em sua beatificação e até canonização.
O processo que poderá levar o padre salesiano João Crippa ao reconhecimento como santo da Igreja Católica terá um novo capítulo no próximo dia 20 de outubro.
A Arquidiocese Metropolitana de Campo Grande dará início à investigação sobre a vida e as virtudes do religioso, que deixou um importante legado na história da Capital e dá nome a uma das ruas mais conhecidas da região central.
A cerimônia será realizada na Paróquia São José, onde estão depositados os restos mortais do sacerdote, falecido em 1º de agosto de 1941, em Três Lagoas, há 85 anos.
A abertura da investigação representa um passo importante para o reconhecimento religioso de João Crippa, mas não significa que ele já tenha sido declarado santo ou que sua beatificação esteja garantida.
O procedimento envolve a análise de documentos históricos, testemunhos, virtudes cristãs e da reputação de santidade construída ao longo dos anos.
O caminho é regulamentado pelo Vaticano. Conforme a instrução Sanctorum Mater, publicada oficialmente pela Santa Sé, cabe às autoridades eclesiásticas reunir provas sobre a vida e as virtudes de candidatos à beatificação e à canonização, além de investigar possíveis milagres atribuídos à sua intercessão.
De missionário italiano a personagem da história de Campo Grande
João Crippa nasceu em 10 de outubro de 1861, na cidade de Asso, na região da Lombardia, no norte da Itália.
Ainda jovem, aproximou-se da congregação salesiana, fundada por Dom Bosco, cuja missão religiosa tem como uma de suas principais características a educação e a formação de crianças e adolescentes, especialmente os mais pobres.
A trajetória religiosa começou na Europa e ganhou novos capítulos na América do Sul. Crippa ingressou na vida salesiana, passou pelo Uruguai e foi ordenado sacerdote em 17 de fevereiro de 1894.
Ainda naquele ano, iniciou atividades missionárias em Cuiabá, no então território de Mato Grosso, décadas antes da criação de Mato Grosso do Sul.
De acordo com a biografia preservada pelo Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso do Sul (IHGMS), o padre percorreu extensas regiões do Estado, inclusive a cavalo, para atender comunidades que enfrentavam dificuldades de acesso à assistência religiosa e à educação.
O trabalho também alcançou localidades como Aquidauana e Miranda, onde participou da organização das primeiras atividades paroquiais. Posteriormente, concentrou sua atuação em Campo Grande, contribuindo para a expansão da presença salesiana na cidade.
Padre ajudou a criar escolas e deixou legado na educação
A atuação de João Crippa não ficou restrita às celebrações religiosas. Em Campo Grande, o sacerdote se envolveu diretamente com iniciativas educacionais e sociais que marcaram o desenvolvimento da cidade durante as primeiras décadas do século XX.
Entre suas contribuições está a mobilização de um grupo de mulheres para viabilizar a criação do Colégio Nossa Senhora Auxiliadora, instituição ligada à tradição salesiana que se tornaria uma referência na formação de estudantes da Capital.
Crippa também dedicou parte de sua rotina ao atendimento de crianças em situação de vulnerabilidade social.
Conforme os registros históricos, mantinha atividades de alfabetização e catequese para meninos que frequentavam o Oratório São José, espaço que reunia jovens e famílias da comunidade.
O atendimento ocorria em diferentes períodos do dia. Pela manhã e à tarde, crianças recebiam ensinamentos básicos e formação religiosa. À noite, o espaço também acolhia adultos que não sabiam ler nem escrever.
A iniciativa representava uma oportunidade de acesso ao conhecimento em uma época em que a rede de ensino ainda era limitada e Campo Grande passava por um processo de expansão urbana.
Igreja São José é uma das principais marcas deixadas pelo sacerdote
A presença de João Crippa na história da Capital também está diretamente ligada à Igreja São José, um dos templos católicos mais tradicionais de Campo Grande.
Em 1925, o religioso adquiriu os dois primeiros terrenos destinados à instalação do Oratório São José, conhecido popularmente como Capelinha.
O espaço se tornou um ponto de encontro da comunidade católica e, com o passar dos anos, revelou-se insuficiente para acompanhar o crescimento do número de fiéis.
O padre passou, então, a defender a construção de uma igreja maior dedicada a São José. A pedra fundamental do templo foi lançada em 15 de maio de 1938, e as obras tiveram início em 1º de setembro de 1939.
Apesar de ter participado dos esforços para concretizar o projeto, João Crippa não chegou a ver a igreja concluída.
Ele morreu em 1941, antes da finalização da construção. Seus restos mortais foram posteriormente depositados no interior do templo, onde sua memória continua preservada.
Os registros do IHGMS apontam que o sacerdote considerava a construção de um templo maior uma das principais realizações que desejava deixar para a cidade.
Rua Padre João Crippa recebeu nome em homenagem ao religioso
A importância histórica do sacerdote levou Campo Grande a eternizar seu nome em uma das vias mais conhecidas da região central.
A atual Rua Padre João Crippa teve diferentes denominações ao longo do desenvolvimento urbano da cidade. Inicialmente conhecida como Rua 15 de Agosto, passou a se chamar Rua da Constituição em 1947. Posteriormente, recebeu o nome do religioso em 1951.
Segundo a publicação histórica Arca, da Prefeitura de Campo Grande, a alteração foi oficializada pela Lei Municipal nº 234, de 25 de dezembro de 1951, como reconhecimento à dedicação do salesiano à educação da juventude.
A via passa em frente à Igreja São José, uma relação geográfica que preserva a conexão entre o nome do sacerdote e uma de suas principais contribuições para a Capital.
Assim, milhares de moradores que circulam pela região central convivem diariamente com uma homenagem a um personagem da história local que agora poderá ter sua trajetória examinada formalmente pela Igreja Católica.
Vaticano estabelece etapas rigorosas para reconhecer um santo
Embora a abertura do inquérito seja uma novidade para os fiéis de Campo Grande, o caminho até uma possível canonização ainda é longo e não possui prazo definido.
Segundo as normas oficiais do Vaticano, disponíveis no documento Sanctorum Mater, a primeira fase consiste na investigação diocesana, responsável por reunir informações sobre a vida do candidato, ouvir testemunhas, examinar documentos e verificar se existe uma reputação de santidade reconhecida pela comunidade religiosa.
Concluída essa etapa, a documentação poderá ser encaminhada ao Dicastério das Causas dos Santos, órgão da Santa Sé responsável pela análise dos processos de beatificação e canonização.
Para candidatos que não morreram como mártires, o reconhecimento das virtudes heroicas pode levar à declaração de venerável.
Em regra, também é necessário o reconhecimento de um milagre atribuído à intercessão do candidato para a beatificação e de outro, ocorrido após a beatificação, para a canonização.
Os supostos milagres precisam passar por investigações específicas, que podem incluir avaliações científicas, médicas e teológicas. O reconhecimento final depende da decisão do papa.
No caso de João Crippa, não foi localizada, até esta sexta-feira (9), uma publicação oficial do Vaticano reconhecendo milagre atribuído ao sacerdote ou anunciando sua beatificação.
A informação confirmada pela cobertura local é a programação da abertura do inquérito diocesano, etapa inicial da investigação.
Campo Grande já entrou para a história com milagre de Carlo Acutis
A possibilidade de reconhecimento de João Crippa surge pouco mais de um ano após a canonização de Carlo Acutis, jovem italiano que se tornou santo em 7 de setembro de 2025, durante cerimônia presidida pelo papa Leão XIV, na Praça de São Pedro, no Vaticano.
A história de Acutis tem uma ligação especial com Mato Grosso do Sul. O primeiro milagre reconhecido para sua beatificação foi a cura de uma criança em Campo Grande, em 2013.
O episódio colocou a Capital sul-mato-grossense em evidência internacional no processo de reconhecimento da santidade do jovem italiano.
A história de João Crippa, entretanto, apresenta uma característica diferente: enquanto Carlo Acutis teve um milagre reconhecido ocorrido na cidade, o sacerdote salesiano construiu parte importante de sua trajetória pessoal e religiosa em Campo Grande, onde deixou contribuições para a educação, a assistência social e a formação de comunidades católicas.
Caso avance pelas etapas exigidas pela Santa Sé, João Crippa poderá ter seu nome reconhecido oficialmente entre os santos da Igreja Católica.
Por enquanto, o processo que começará em 20 de outubro representa o primeiro passo formal de uma investigação destinada a examinar o legado de um religioso cuja memória permanece presente na história e nas ruas de Campo Grande.
Abertura do processo de beatificação
A programação religiosa será realizada no dia 20 de outubro, na Paróquia São José, no Centro de Campo Grande, e será aberta à participação da comunidade.
Confira os horários:
-
18h às 18h40: sessão solene de abertura do inquérito diocesano, com a presença de Paolo Vilotta, postulador da causa, que virá de Roma, na Itália.
-
19h: missa em ação de graças, presidida pelo arcebispo metropolitano de Campo Grande, Dom Dimas Lara Barbosa, com a participação de Dom André Alves dos Santos, presidente da Academia Brasileira de Hagiologia, da Arquidiocese de São Paulo.
Local: Paróquia São José, Rua Pedro Celestino, nº 1.446, Centro de Campo Grande.
Participação: aberta ao público.