Preso desde o dia 9 de setembro por suspeita de comandar um grande esquema de corrupção na prefeitura de Terenos, cidade a 23 quilômetros de Campo Grande, o prefeito Henrique Wancura Budke (PSDB) estava utilizando, entre outras formas, a criação de suínos e touros de raça para "lavar" o dinheiro sujo desviado da prefeitura.
Conforme a denúncia que o Ministério Público apresentou à Justiça pedindo a condenação a mais de 200 anos de prisão, o prefeito é o real proprietário de três barracões para criação de suínos. O investimento na montagem da estrutura foi da ordem de R$ 4 milhões, segundo a denúncia.
Durante a investigação que levou à prisão do tucano, o Ministério Público não fazia menção a esta granja. Mas, durante depoimento de um dos envolvidos, chamado de "camisa 10 do time" da corrupção, Valdecir Batista Alves revelou que era sócio do prefeito e de Rodrigo Rosa da Silva (outro denunciado) de uma chácara com três barracões para criação de suínos. A granja não constava na declaração de patrimônio entregue à Justiça Eleitoral no ano passado.
Valdecir falou sobre esta granja para justificar seu alto padrão de vida, já que a promotoria o questionou como poderia ostentar aquele estilo se recebia apenas R$ 3 mil mensalmente na prefeitura. Quer dizer, ele tentou convencer o Ministério Público de que seu dinheiro era proveniente do lucro da criação de porcos.
De acordo com Valdecir, a granja foi financiada pela Cooperativa Copérdia e até a empresa que montou a estrutura veio do sul do país já com tudo pronto para a montagem dos barracões. Cada um dos sócios teria investido um pouco mais de R$ 1,2 milhão. "cem por cento financiado", afirmou Valdecir no depoimento depois de ter sido preso na operação Spotless, no dia 9 de setembro.
Mas, a promotoria está convencida que nem o prefeito nem Valdecir tinham condições de contrair empréstimo desta magnitude sem o dinheiro sujo da corrupção.
"Ora, é evidente que HENRIQUE WANCURA BUDKE, ante as inúmeras aquisições no período, não tem capacidade financeira lícita (formalmente declarada) para suportar um financiamento tão expressivo, muito menos o denunciado VALDECIR BATISTA ALVES, seu braço-direito ("camisa 10 do time"), que tem um salário de R$ 3.000,00, o qual foi trazido à sociedade na chácara apenas para dissimular a real origem do dinheiro utilizado na empreitada (propina)", descreve a promotoria.
De acordo com o MP, Valdecir não passa de "uma espécie de testa-de-ferro, apenas formalmente, com objetivo de ocultar que a participação real do Prefeito Municipal é muito maior do que aquela declarada documentalmente", escreve a promotoria.
"Enfim, HENRIQUE WANCURA BUDKE é o verdadeiro dono da propriedade rural, onde foi realizado investimento milionário (quase R$ 4.000.000,00 )", conclui o procurador Romão Avila Milhan Junior, procurador-chefe do MPMS.
A criação de suínos não foi a única atividade do "endeusado agro" na qual o prefeito apostou para branquear o dinheiro sujo. Outra atividade foi a criação de touros nelore de raça. Essa atividade também veio a público depois da apreensão de documentos feita no dia da prisão.
Entre estes documentos os investigadores encontraram cópia de um contrato de parceria em que o prefeito cedeu bovinos de raça para seu sogro, Orestes Hildebrand da Silva, "no qual o segundo se obriga a criar 20 (vinte) touros Nelore PO de propriedade do primeiro e, anualmente, pagar 100% em bezerros machos (um bezerro por touro)", especifica o documento entregue à Justiça.
O sogro do prefeito é proprietário de uma fazenda em Aquidauana e desde 2021 mantinha a parceria pecuária com o genro. Desde o começo do contrato até agora, o prefeito já recebeu, em tese, 80 bezerros. Ainda de acordo com o contrato, os 20 touros teriam de ser devolvidos em janeiro de 2026.
"Aqui, cabe uma observação, referente mais uma vez ao tamanho do patrimônio de HENRIQUE WANCURA BUDKE, já que os 20 touros (cada um com 600 quilos) alcançam valor de mercado conjunto, hoje, de mais de R$ 200.000,00 , o que é incompatível com sua capacidade financeira, em virtude de todos os demais investimentos e gastos acima descritos", diz o procurador de Justiça.
Mansão com jacuzzi
Ao falar sobre os gastos acima descritos o procurador fazia referência à luxuosa casa na qual mora a família do prefeito atualmente. Antes de ser eleito, o prefeito morava em uma casa simples no Bairro Camilo Boni. À Justiça eleitoral ele declarou que ela valia R$ 60 mil.
Agora a situação é bem diferente. "Trata-se de imóvel de alto padrão, luxuoso, espaçoso, guarnecido com móveis planejados em seus cômodos e jacuzzi na área de lazer, além de mobiliário novo e requintado, investimento total na casa de R$ 2.000.000,00 (dois milhões de reais)", detalhou a denúncia entregue à Justiça nesta terça-feira (30).
Depois da prisão do prefeito, o MP tomou o depoimento de sua esposa, Cacilda Rocha Hildebrand Budke. Ela disse que a casa foi construída recentemente e afirmou não saber quanto foi investido. Disse acreditar que parte do dinheiro tenha vindo de consórcio.
"A construção da faustosa casa no período, ainda que parte do valor provenha de consórcio (que obviamente tem prestações mensais e oneram as despesas do casal), reforça ainda mais a incompatibilidade entre o patrimônio amealhado no exercício do mandato e os rendimentos ilícitos", descreve o procurador.
Conforme a denúncia, pelo menos 16 licitações foram fraudadas desde que Henrique assumiu o comando da prefeitura, em 2021. Juntos, somam em torno de R$ 16,5 milhões. E isso sem mencionar os contratos firmados por carta-convite ou com dispensa de licitação. Somente na reforma da escola da Colônia Jamic (uma comunidade japonesa) ele teria recebido propina de R$ 225 mil.


