Cidades

CAMPO GRANDE

Sistema inovador deve agilizar compra de medicamentos

Capital deixa de depender do Ministério da Saúde para adquirir remédios, contando com infraestrutura própria de software

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Campo Grande se tornou a primeira capital brasileira a implantar o e-SUS Assistência Farmacêutica (e-SUS AF), um novo sistema que promete ajudar o Município a adquirir medicamentos e organizar melhor o estoque de remédios disponíveis para a população, deixando de depender do Ministério da Saúde para realizar este serviço.

A partir de agora, a Secretaria Municipal de Saúde (Sesau) conta com a infraestrutura própria do novo sistema em toda a rede pública, que começou a ser implantado no fim de abril deste ano, entrando em funcionamento em duas unidades de saúde da Capital, nos Bairros Leblon e Moreninhas, que foram usadas como projeto-piloto.

“A implantação do e-SUS AF contribui para tornar mais ágil e eficiente o planejamento das compras de medicamentos, uma vez que passa a integrar informações que antes estavam distribuídas em diferentes sistemas. Com dados atualizados sobre a dispensação e o consumo dos medicamentos em cada unidade de saúde, a Sesau consegue acompanhar a demanda de forma mais precisa, estabelecer médias de consumo e aprimorar a programação das aquisições”, explica a Pasta.

Antes da chegada do novo software, a Sesau trabalhava com quatro sistemas distintos, que, conforme a secretaria, não se comunicavam entre si, e parte desse planejamento era realizada manualmente, o que tornava o processo mais suscetível a inconsistências. Agora, a tendência é que isso mude significativamente.

“Com a integração das informações em uma única plataforma, a gestão passa a contar com dados mais confiáveis para apoiar a tomada de decisões, qualificar o controle dos estoques e antecipar as necessidades da rede. Na prática, a modernização fortalece a gestão da assistência farmacêutica e contribui para garantir mais eficiência e regularidade no abastecimento de medicamentos à população”, destaca.

Sistema controla quantidade de medicamentos com mais facilidade - Foto: Marcelo Victor / Correio do Estado

Conforme o Município, o novo sistema traz maior controle e rastreabilidade dos medicamentos, integração das informações com as bases nacionais do Ministério da Saúde, redução de processos manuais, mais agilidade para os profissionais das farmácias, gestão mais eficiente dos estoques e maior segurança das informações.

“É importante destacar como uma inovação tecnológica implantada nos bastidores da saúde pública pode melhorar a gestão dos medicamentos e fortalecer o atendimento ao cidadão. Também evidencia o papel de Campo Grande como protagonista na estratégia nacional de transformação digital do SUS, ao desenvolver um modelo de implantação que poderá orientar outras cidades brasileiras”, reforça a Sesau.

PROBLEMA RECENTE

A falta de medicamentos na rede municipal é um problema que acompanhou a atual gestão há, pelo menos, dois anos. Tanto que o Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS) acompanha de perto a situação desde o ano passado, que faz parte de um inquérito civil instaurado pelo órgão.

Em setembro, a 32° Promotoria de Justiça de Saúde Pública realizou uma reunião a respeito do desabastecimento de medicamentos na rede pública de Campo Grande.

A reunião foi conduzida pela promotora de Justiça Daniella Costa da Silva e contou com a presença da promotora Daniela Cristina Guiotti, coordenadora do Núcleo de Apoio Especial à Saúde (Naes) e do promotor Marcos Roberto Dietz, da 76ª Promotoria de Justiça de Saúde Pública.

Também estiveram presentes servidores da Sesau, da Secretaria Municipal da Fazenda (Sefaz) e da Secretaria Especial de Licitações e Contratos (Selc).

Daniella destacou que a investigação tem como foco o recorrente desabastecimento de medicamentos que fazem parte da Relação Municipal de Medicamentos Essenciais (Remune).

Segundo a promotora, foram constatados a falta sistêmica de medicamentos e a ausência de integração entre os sistemas de controle de estoque e de gestão em inspeções já realizadas em unidades de saúde, unidades de pronto atendimento (UPA) e em almoxarifados.

Naquela oportunidade, os servidores da Pasta já haviam informado que a prefeitura estava implantando o e-SUS AF, que ajudaria a agilizar o serviço de compra dos medicamentos.

Ainda, reconheceram as falhas e relataram que já foram realizadas licitações e compras emergenciais, além de negociações com fornecedores para a quitação de débitos e regularização do fornecimento dos insumos.

A promotora Daniela Guiotti classificou a situação como “gravíssima”, especialmente por causa da falta de medicamentos psicotrópicos e alertou que, caso não haja respostas efetivas, o MPMS poderá adotar medidas judiciais.

Na semana passada, o titular da Sesau, Marcelo Vilela, disse ao Correio do Estado que o maior motivo para que Campo Grande entrasse nessa “espiral” de problemas no setor foi a burocracia para licitar a compra dos remédios. Porém, destacou que o problema foi minimizado nos últimos meses.

“A gente não consegue, na mesma velocidade da nossa necessidade, repor o que precisa ser reposto, os insumos e medicamentos. Isso tudo é causado pela morosidade da administração pública. Os caras entram na licitação, mergulham no preço, aí quando a gente pede o produto, ele quer outro preço, só esse embate aí, é no mínimo 90 dias. Hoje, conseguimos reduzir a questão da necessidade dos medicamentos no esforço”, disse.

*SAIBA

Além do e-SUS AF, Campo Grande também está no processo de implantação de outro sistema inovador do Ministério da Saúde, o e-SUS Regulação, que deve garantir mais agilidade, transparência e segurança na organização e marcação de consultas com médicos especialistas, exames e cirurgias no SUS. A ideia é estar 100% implantado até o fim deste ano.

TRANSPORTE

Motoristas vão pagar de R$ 107 a R$ 856 para percorrer a BR-163 após tarifaço

Aumento médio de 40% no pedágio começa a ser cobrado a partir de hoje nos 845 quilômetros da rodovia no Estado

05/08/2026 07h45

Gerson Oliveira / Correio do Estado

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O pedágio cobrado nas nove praças da BR-163 em Mato Grosso do Sul aumenta em média 40% hoje, um ano após a Motiva Pantanal assumir a concessão.

Com este índice, o motorista de um carro de passeio vai gastar R$ 107 para percorrer os 845 quilômetros da BR-163, o que representa R$ 30,90 a mais que os atuais R$ 76,10. Um caminhoneiro com veículo de oito eixos vai desembolsar R$ 856, cerca de R$ 250 a mais.

O maior incremento será em São Gabriel do Oeste, com 42,67% e o menor em Sonora, com 39,19%. O aumento é quase 10 vezes maior que a inflação dos últimos 12 meses, que ficou em 4,64%, segundo o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).

Embora a inflação medida pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) corresponda a pouco mais de 10% do aumento da tarifa de pedágio, o incremento nestes patamares foi autorizado pela Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) no mês passado levando em consideração o IPCA e o degrau tarifário de 33,64% por cumprimento de metas, previstas no contrato.

Este incremento médio na tarifa definido pela Agência é 1% superior aos 39,3% solicitados pela empresa em maio. À época, a empresa pediu reajustes entre 37,8% a 41,3% no pedágio das nove praças nos 845 km da BR-163 no Estado.

Até ontem, motoristas pagavam R$ 10,00 na praça de Campo Grande, valor que foi para R$ 14,10 - Foto: Gerson Oliveira / Correio do Estado

O porcentual a ser aplicado hoje foi definido pela nota técnica nº 7.371/2026 da autarquia, na qual é afirmado que a empresa tem direito ao “acréscimo tarifário de 5,16%”, bem como ao degrau tarifário de 33,64%, totalizando 40,49% de aumento médio. Com os arredondamentos dos centavos este porcentual médio passa a ser de 40%.

Para a empresa, o IPCA estimado entre novembro de 2021 até junho deste ano (considerando até junho) seria menor que o definido pela ANTT.

Em carta enviada à Agência, no dia 15 de junho, a Motiva Pantanal afirmou que aceitaria a aplicação do reajuste proposto pela ANTT, porém ressaltou que “quanto ao cálculo da atualização pelo IRT, a Concessionária não se opõe à aplicação do porcentual calculado por essa agência”, destacando que “caso a 1ª Revisão Ordinária seja aprovada com base no IRT provisório, a eventual diferença em relação ao índice definitivo deverá ser ajustada na Revisão Ordinária subsequente, por meio do Fator C (cesta de índices que entram no cálculo tarifário)”.

Neste mesmo comunicado, a Motiva Pantanal reforçou que aceitava a aplicação do degrau tarifário de 33,64%, porcentual definido no ano passado com a assinatura do aditivo do contrato de concessão que previa este incremento na tarifa caso a concessionária atingisse as metas de execução de obras previstas para até o 9º mês do primeiro ano de concessão da BR-163. A empresa cumpriu estas metas no segundo semestre.

A manifestação da Motiva Pantanal ocorreu dentro do prazo permitido – de 15 dias – para que ela dissesse que concordaria ou não com os critérios do aumento, que considerou uma média do IPCA.

Com a decisão da diretoria da ANTT no mês passado, os reajustes no pedágio a partir de hoje serão entre 39,19% a 42,67%, com média de 40% com os arredondamentos, com o maior reajuste na praça de pedágio localizada em São Gabriel do Oeste e o menor em Pedro Gomes.

PRAÇAS

Em São Gabriel do Oeste, a autarquia estipulou em 42,67% o aumento, elevando a tarifa cobrada dos carros de passeio de R$ 7,50 para R$ 10,70. A ANTT considera que em Campo Grande o aumento será de 41% e em Mundo, 41,54%.

Na Capital, o valor sugerido é de R$ 14,10 por carro de passeio, contra os atuais R$ 10. Já em Mundo, o valor sobe de R$ 6,50 para R$ 9,20.

Já nas praças de Itaquiraí e Caarapó, o aumento será de 40,45% e 41,57% respectivamente, fazendo com que as tarifas fiquem em R$ 12,50 e R$ 12,60. Em Rio Verde, o incremento será 40%, com o pedágio a R$ 14. 

Em Rio Brilhante e Jaraguari, os porcentuais a serem aplicados serão de 39,56% e 39,74%, com as tarifas subindo para R$ 12,70 e R$ 10,90 respectivamente. Em Sonora, o pedágio vai subir 39,19%, com o valor do pedágio para o carro ficando em R$ 10,30.

Estas variações nas tarifas ocorrem, entre outros motivos, por causa da abrangência de cada praça, que tem como parâmetro de cálculo a extensão em quilômetros.

Na praça de Campo Grande o usuário paga por percorrer 111,74 Km mesmo sem utilizar todo o trecho. Em Mundo Novo, são 72,34 km.

Esses porcentuais arredondados fizeram com que o aumento médio definido pela ANTT fosse de 40%, ante os 39,3% solicitados pela empresa, o que pode elevar o pedágio a cada 100 km de R$ 7,50 cobrados hoje para R$ 11,90, contra os R$ 10,47 calculado pela Motiva.

Com os porcentuais definido pela autarquia, o motorista de um carro de passeio vai gastar R$ 107 para percorrer os 845 Km da BR-163, o que representa R$ 30,90 a mais que os atuais R$ 76,10.

Já um caminhão de oito eixos, os bi-trens, vão pagar R$ 856,02, cerca de R$ 250 a mais que desembolsava até ontem. Um ônibus ou caminhão com quatro eixos vai ter de pagar R$ 428 para percorrer toda a BR-163. Serão R$ 120 a mais.

Patrimônio Cultural

Último falante nativo do 'idioma do Pantanal', seu Vicente falece aos 81 anos

Reconhecido internacionalmente por preservar a língua Guató, ancião vivia isolado no Pantanal e deixa um legado histórico para a cultura indígena brasileira.

04/08/2026 19h34

eu Vicente, reconhecido como o último falante nativo da língua Guató, vivia às margens do rio São Lourenço, no Pantanal. Aos 81 anos, tornou-se símbolo da resistência e da preservação da cultura do povo canoeiro, deixando um legado histórico para as futur

eu Vicente, reconhecido como o último falante nativo da língua Guató, vivia às margens do rio São Lourenço, no Pantanal. Aos 81 anos, tornou-se símbolo da resistência e da preservação da cultura do povo canoeiro, deixando um legado histórico para as futur Foto: Divulgação

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Reconhecido como último falante nativo da língua Guató, Vicente Manoel da Silva faleceu aos 81 anos na região da Serra do Amolar/Morro Caracará. Seu Vicente, como era conhecido, vivia em uma área remota do Pantanal, distante mais de seis hora de barco a partir de Corumbá, rio Paraguai acima, sozinho.

Os Guató são uma etnia tradicional no Pantanal, conhecidos como povo canoeiro, que foram referenciados em documentos ainda no século XVI.

Por ser um falante nativo Guató, tendo nascido de mãe e pai da etnia, ganhou reconhecimento dentro e fora do Brasil por conta de documentários e reportagens que foram feitas com ele. A etnia chegou ser declarada extinta no país, entre a década de 1950 e 1960. 

Estudos mostram que o preconceito e a violência sofrida naquela época contribuíram para que os Guató decidissem não se declararem para evitar conflito. Só no final da década de 1970 que houve revisão desse cenário, com Corumbá aparecendo como uma das cidades que abrigava os Guató.

Seu Vicente, que nasceu em 30/05/1945, representa um símbolo de resistência, ao mesmo tempo que uma referência para a tradição guató no Pantanal. Ele vivia sozinho, às margens do rio São Lourenço, em trecho que fica entre a comunidade Barra do São Lourenço e o Parque Nacional do Pantanal Matogrossense.

Nesta terça-feira (4), pessoas da comunidade que circulam na região não viram o ancião pescando e acabaram encontrando-o dentro de casa, conforme informações iniciais, desacordado.

Os Bombeiros de Mato Grosso do Sul, que ficam na base avançada na comunidade Barra do São Lourenço, foram acionados e prestaram atendimento. Contudo, ele tinha falecido.

O Conselho de Lideranças do Povo Guató no Pantanal divulgou, em redes sociais, nota de pesar pela morte de seu Vicente.

“É com profundo pesar que o Conselho de Lideranças do Povo Guató no Guadakan/Pantanal, especialmente a comunidade da Aldeia Barra do São Lourenço, comunica o falecimento do parente Vicente Manoel da Silva, também conhecido como Vicentinho, verdadeira biblioteca de saberes sobre a história, a cultura e a língua do povo Guató. Que o Grande Pai Velho ou o Dono do Mundo lhe receba e o guarde no bom lugar que você merece”, divulgou.

O Instituto Homem Pantaneiro (IHP), que mantém bases de pesquisa na região da Serra do Amolar, também lamentou a morte dele.

“Toda a sua grandiosidade para a cultura e tradição não alterou em nada seu ritmo de vida e suas raízes. Seu Vicente sempre seguiu vivendo em meio ao Pantanal, já há décadas morando às margens do rio São Lourenço, ocupando o território que seus ancestrais viveram, pescando nos corixos que tantos outros Guató pescaram, usando sua canoa de um pau só e as ferramentas tradicionais como remo, zinga, arpão, vara de pesca, zagaia. Ele também conhecia como tocar o ganzá e a viola de cocho.”

A página Documenta Pantanal divulgou vídeo que seu Vicente conta como é o nome de animais e outras coisas do território pantaneiro na língua guató.

“E m 2018, tivemos o privilégio de conviver com ele durante as gravações do filme ‘Ruivaldo, O Homem que Salvou a Terra’. Nos últimos anos de sua vida, seu Vicente dedicou seu tempo ensinando linguistas e professores de aldeias próximas a língua guató, pensando na preservação da língua e de sua cultura. Que seus conhecimentos continuem sendo compartilhados pelas próximas gerações Seu legado está escrito para sempre na história do Pantanal para todo o mundo.”

Por viver em área isolada, ele só foi ter acesso a energia elétrica depois de 2022. Até então, precisava pescar ou caçar de forma quase diária. Além disso, uma canoa que pertenceu a ele acabou doada e está exposta no Memorial do Homem Pantaneiro, em Corumbá.

Língua Guató em risco

O que seu Vicente ajudou a promover para o mundo, atualmente a Escola Estadual Indígena João Quirino de Carvalho - “Toghopanaã”, que fica na Ilha Ínsua, na Aldeia Uberaba Guató, busca consolidar com disciplina regular do ensino do Guató.

Contudo, estudos da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) mostram que há desafios para perpetuar essa língua devido à carência de conhecimento da estrutura linguística e materiais didáticos.

Sepultamento

Ainda não há informação oficial sobre o sepultamento de seu Vicente. O Corpo de Bombeiros de Mato Grosso do Sul, em Corumbá, não confirmou se o corpo dele seria trazido para cidade.

O IHP divulgou que há planos que a Secretaria de Saúde Indígena (Sesai) deve levar uma urna funerária para a região onde o ancião vivia neste dia 5 de agosto. O sepultamento dele ocorreria nesse território.

No local onde seu Vicente vivia, ao menos a mãe dele (Júlia) e um dos tios (José) foram enterrados próximos, divulgou estudo do Instituto Homem Brasileiro.

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