“Vou tacar fogo na casa se não me pagarem”. É o que diz Kleyton de Souza Silva, traficante ligado ao Primeiro Comando da Capital (PCC) e principal alvo do Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (GAECO) na Operação Blindagem. Na ocasião da frase, o narcotraficante, de dentro da cadeia de Aquidauana, em 2022, comandava serviços de agiotagem e, por meio de comparsa, mandava cobrar a dívida de forma violenta.
O proprietário de uma casa noturna no distrito de Águas de Miranda, no município de Anastácio, foi vítima da quadrilha de Kleyton, que praticou extorsão armada, usura (agiotagem) e ameaças, com participação de pelo menos quatro suspeitos identificados nas investigações. Os fatos apurados pelas investigações remontam a junho/julho de 2022, quando ocorreram as comunicações e tramitação dos cheques e quando foram trocadas as mensagens que detalham a ação criminosa.
De acordo com as peças juntadas ao procedimento, Kleyton de Souza Silva teria emprestado ao proprietário da casa noturna Ed Show Bar, a quantia inicial de R$ 180 mil, com taxa de 10% ao mês. Pelas contas informadas pelos próprios investigados, a dívida teria crescido para R$ 400 mil em razão dos juros.
Kleyton justificou que aceitaria encerrar a dívida mediante o recebimento de R$ 300 mil, valor que dividiria com outro comparsa, identificado como Lucas Wesley de Souza Santos, o “Pastorzinho”.

Para forçar o pagamento, os investigados combinaram abordagem violenta e ameaças, inclusive a intenção de incendiar a residência do devedor com ele e seus familiares dentro do imóvel.
“Eu falei que ia tacar fogo neles, com casa e tudo lá se eles não me pagasse. Eu falei: eu tô preso mesmo, vou pegar mais 10, 20 anos, mas vocês não vai gozar com meu dinheiro não! ”, disse Kleyton em áudio ao comparsa.
Deve ser enfatizado que a vítima, além de ser ameaçada pela arma de fogo empunhada por Lucas Wesley, também foi coagido por esse mesmo agente com um bastão de madeira, objeto que Kleyton chamou de “JUIZ”, pois quando o dono da boate indicou que procuraria a justiça para discutir a dívida, ele se vangloriou dizendo que o referido item seria o pedaço de madeira em questão.
"É, esse povo aí que me deve aqui, moço. Aí falou... a justiça, não sei o que ia levar na justiça, ó lá a justiça, o pedaço de pau, de beisebol lá, a justiça é isso aí! Esse é o Juiz, aí você vê, não vai pra justiça? Aí ó, saiu cheque, ja saiu tudo, fora esses dois aí que eu vou trocar no agiota, to apertado. se quiser trocar pra mim eu tô precisando. Tem mais um monte de cheque deles de 50 mil, é 300 mil real a conta".

Foram apresentadas, aos comparsas, imagens de várias lâminas de cheque emitidas em nome de Edemar como parte do pagamento, entre eles cheques de R$ 30.000, R$ 40.000, R$ 50.000 e duas lâminas de R$ 65.000), que seriam trocadas por dinheiro vivo.
Quadrilha
O relatório de investigação identifica, com base em mensagens, áudios e provas juntadas ao inquérito, a participação de ao menos quatro pessoas:
Kleyton de Souza Silva — apontado como líder e autor mediato das extorsões; quem articulou a cobrança e combinou com comparsas a forma violenta de cobrança.
Lucas Wesley de Souza Santos (vulgo “Pastorzinho”/“Pastorzin2”) — indicado como executor preparado para a abordagem violenta; em troca, ficaria com R$ 150 mil, ou seja, metade do valor.
Lana da Silva Gonçalves — convivente de Kleyton; nas investigações, consta que ela recebeu e enviou imagens de cheques (o que, segundo os autos, demonstra que ela teve posse dos títulos e participou da articulação).
“Rio Preto Rua Rua” — apelido de outro comparsa indicado por Kleyton para participar das cobranças; mencionado em diálogos como executor de práticas de extorsão.


