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enganoso

Vídeo de hidrelétrica transbordando é antigo e não tem relação com desligamento de bombas d'água

Na verdade, há escassez de água em decorrência de seca e estiagem em alguns estados nordestinos

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Vídeo que viralizou no TikTok engana ao associar suposta ação do governo Lula (PT) em bloquear as águas do rio São Francisco com seca no Nordeste. A publicação mostra uma montagem com duas gravações com contextos diferentes e estabelece uma relação enganosa entre a falta de água e os protestos. Na verdade, há escassez de água em decorrência de seca e estiagem em alguns estados nordestinos. Além disso, o ato mostrado não tem relação com o fechamento de bombas.

Conteúdo investigadoVídeo publicado no Tik Tok mostra o que seria uma usina hidrelétrica na região Nordeste do Brasil. Uma descrição afirma: “governo deixa o Nordeste sem água e vazão da água não tem para onde ir. Águas do São Francisco foram fechadas e está transbordando”.

As imagens são da vista aérea de uma hidrelétrica, onde existem cachoeiras e muita água correndo. Posteriormente, o vídeo é cortado para outro contexto e situação, em que nordestinos estariam realizando “bloqueios em rodovias para a liberação da água do São Francisco”.

Onde foi publicado: Tik Tok.

Conclusão do Comprova: É enganoso vídeo que associa suposta ação do governo Lula (PT) em bloquear as águas do rio São Francisco com seca no Nordeste. A publicação no Tik Tok mostra uma montagem com duas gravações feitas em contextos diferentes e estabelece uma relação enganosa entre a falta de água e protestos no Nordeste.

No primeiro vídeo, a abundância de água na hidrelétrica não foi causada pelo fechamento das bombas, mas sim pela cheia em função das chuvas de janeiro de 2023. Ao contrário, em outubro deste ano, foi registrada a escassez de água em decorrência de seca e estiagem em alguns estados da região.

Além disso, não houve qualquer fechamento de bombas na usina e o protesto mostrado na segunda gravação não tem relação com as imagens iniciais.

Na primeira parte do vídeo verificado pelo Comprova, imagens aéreas do Complexo Hidrelétrico de Paulo Afonso, localizado no norte da Bahia, são utilizadas para afirmar que o governo Lula teria trancado as águas do São Francisco.

Tais imagens retratam a hidrelétrica em um período de cheia, formando cachoeiras, algo que não tem relação com a transposição ou bloqueio das águas.

Por meio de nota, a Companhia Hidro Elétrica do São Francisco (Eletrobras Chesf), responsável pela usina hidrelétrica, confirmou que as imagens mostram o Complexo Hidrelétrico de Paulo Afonso, na Bahia.

No início deste ano, o aumento da vazão do rio São Francisco fez reaparecer as cachoeiras, que possuem desnível de 80m de queda d’água. Por conta desse espetáculo natural, a região atraiu turistas, que realizaram visitas guiadas autorizadas pela própria Chesf. As quedas d’água de Paulo Afonso voltaram a ficar visíveis em 2022, após mais de dez anos de período de seca.

Já o segundo vídeo mostra, na verdade, um protesto realizado no dia 4 de outubro, no Km 82 da BR 116, próximo ao Trevo do Ibó, em Belém do São Francisco, no estado de Pernambuco. Na ocasião, agricultores dos projetos de irrigação Pedra Branca (BA), Fulgêncio (PE) e Brígida (PE) denunciaram a falta de água e energia nas localidades.

Os projetos são atendidos pelo Sistema Itaparica, programa federal implementado na década de 1990 pela Chesf, para compensar as populações que tiveram que ser realocadas após a construção da usina hidrelétrica de Luiz Gonzaga, situada em Petrolândia (PE).

O corte de energia e água nos locais não têm relação com um suposto fechamento de bombas feito pelo governo federal.

A responsabilidade do abastecimento, segundo o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Petrolândia (PE), é da Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf), uma empresa pública vinculada ao Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional (MDR).

Até 2014, a companhia administrava o Sistema Itaparica em parceria com a Chesf. Após o fim do convênio, foi a Codevasf que assumiu a manutenção dos projetos de irrigação.

No entanto, uma resolução de 21 de setembro deste ano da Codevasf determinou que a administração do projeto voltasse para a Chesf.

Ao Comprova, ambas as empresas enviaram notas atribuindo uma à outra a responsabilidade pela manutenção e operação dos projetos do Sistema Itaparica. O “toma lá, dá cá” já foi noticiado por outros veículos como a Folha de Pernambuco.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações; que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Alcance da publicação: O Comprova investiga os conteúdos suspeitos com maior alcance nas redes sociais. Até o dia 18 de outubro de 2023, o conteúdo investigado tinha 16,4 mil visualizações, 5,6 mil compartilhamentos e 1,5 mil comentários no Tik Tok.

Como verificamos: O Comprova analisou as imagens utilizadas em ambos os vídeos investigados e buscou identificar os locais onde foram gravadas e em quais contextos. Para analisar o primeiro vídeo, que mostra uma hidrelétrica vista de cima, a verificação usou o mecanismo de busca reversa do Google, utilizando o print do vídeo.

A pesquisa indicou imagens semelhantes e dessa forma foi possível identificar o Complexo Hidrelétrico de Paulo Afonso, localizado no norte do estado da Bahia. Foram encontradas diversas imagens, entre elas uma publicada no site da Chesf, empresa controladora da Eletrobras responsável pelo complexo.

Para analisar o segundo vídeo, a verificação usou também o mecanismo de busca reversa do Google, utilizando o print do vídeo. O resultado indicou diversas gravações semelhantes, além de uma matéria do G1 noticiando a manifestação. O ato ocorreu no dia 4 de outubro, no Km 82 da BR 116, próximo ao Trevo do Ibó, em Belém do São Francisco, no estado de Pernambuco.

O Comprova entrou em contato com o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Petrolândia (PE), uma das organizações envolvidas nos protestos. Através de visualização no Google Maps, foi possível identificar os locais onde os agricultores protestaram no dia 4 de outubro, em Belém do São Francisco. 

A verificação também solicitou posicionamento da Chesf e da Codevasf, empresas que até 2014 tinham convênio para manutenção dos projetos de irrigação de Pedra Branca (BA), Fulgêncio (PE) e Brígida (PE).

Além disso, o autor da postagem do Tik Tok foi contatado pelo Comprova, via mensagens no Facebook, o qual retornou à equipe. Não era possível falar com ele pelo próprio Tik Tok, pois a possibilidade de envio de mensagens estava bloqueada.

Governo Federal não “fechou” bombas do Rio São Francisco

De acordo com a assessoria de imprensa da Eletrobras Chesf, responsável pela usina, as imagens do Complexo Hidrelétrico de Paulo Afonso, na Bahia, são antigas e não mostram a grande quantidade de água represada por causa de um suposto fechamento das bombas.

Segundo o órgão, a gravação retrata uma situação de cheia no rio São Francisco no início de 2023. Devido ao aumento da vazão, formam-se cachoeiras na região, que acabam se tornando pontos de visitação turística. A alegação já foi desmentida antes por outros veículos de verificação.

Apesar de a Usina Hidrelétrica de Paulo Afonso também ser de responsabilidade da Chesf , mesma empresa envolvida na falta de água nos projetos de irrigação Pedra Branca (BA), Brígida (PE) e Fulgêncio (PE), a Eletrobras nega que haja relação entre as cachoeiras e o protesto no Trevo do Ibó, no estado de Pernambuco.

Manifestação não tem relação com suposto fechamento de bombas

Em entrevista ao Comprova, o presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Petrolândia (PE), Natanael Caetano da Silva, informou que a manifestação em Belém do São Francisco, no Trevo de Ibó, foi realizada para cobrar o abastecimento das empresas Codevasf e Chesf e pedir intervenção do governo federal.

“Após acontecer tudo isso, [o governo federal] paralisou duas obras da Codevasf e colocou R$25 milhões à disposição da Codevasf para pagar as contas de energia e fechar o resto do ano”, afirmou o sindicalista.

Durante audiência pública realizada pela Comissão de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural da Câmara dos Deputados, no dia 11 de outubro, Giuseppe Serra Seca Vieira, secretário nacional de Segurança Hídrica do Ministério da Integração e Desenvolvimento Regional (MDIR), afirmou que o órgão fez um aporte de R$ 20 milhões para a Codevasf.

Abastecimento nos projetos de irrigação

Pedra Branca (BA), Brígida (PE) e Fulgêncio (PE) estão entre os dez projetos de irrigação atendidos pelo Sistema Itaparica, um programa federal implementado na década de 1990 que abrange áreas localizadas entre a Bahia e Pernambuco.

Ele foi criado junto à Chesf para compensar as populações que tiveram que ser realocadas após a construção da Usina Hidrelétrica de Luiz Gonzaga, em Petrolândia (PE). Os projetos têm foco na agricultura familiar.

No entanto, desde 2014, os projetos de irrigação atendidos pelo sistema vêm passando por diversos problemas. No dia 11 de outubro, uma audiência pública foi realizada pela Comissão de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural da Câmara dos Deputados, para debater as dificuldades enfrentadas pelos pequenos agricultores que vivem nas áreas cobertas pelo programa.

A Chesf repassava recursos para a Codevasf manter os projetos de irrigação, mas o convênio acabou em 2014.

No ano seguinte, a Codevasf alegou problemas orçamentários e suspendeu contratos de assistência técnica. As informações foram compartilhadas pela secretária-executiva da área de gestão de empreendimentos de irrigação da Codevasf, Andréa Sousa, em depoimento durante a audiência pública na Câmara dos Deputados.

Com o fim do convênio entre a Chesf e a Codevasf, “as áreas irrigadas passaram a ser administradas pela 3ª Superintendência Regional da Codevasf, em Petrolina (PE), e pela 6ª Superintendência Regional da Codevasf, em Juazeiro (BA), com o apoio da Área de Gestão dos Empreendimentos de Irrigação da Codevasf, em Brasília”.

A informação foi divulgada pelo Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional, por meio de notícia publicada no site do governo federal em dezembro de 2017.

Em nota enviada ao Comprova, a Codevasf afirmou que uma resolução da empresa, aprovada pela sua diretoria executiva em 21 de setembro deste ano, remeteu às Chesf “a responsabilidade pelas despesas de operação, manutenção e energia elétrica dos projetos, de modo a garantir o adequado funcionamento das infraestruturas de uso comum do sistema”.

A verificação também entrou em contato com a Eletrobras Chesf que, via nota encaminhada por email, alegou que “é da Codevasf a responsabilidade pela operação e manutenção dos bens que compõem a estrutura de uso comum dos perímetros irrigados de Itaparica, localizados nos estados de Pernambuco e da Bahia, bem como o pagamento da energia elétrica associada”.

O que diz o responsável pela publicação: Em resposta ao Comprova, o autor da postagem no Tik Tok afirmou que não foi ele quem gravou as imagens. Segundo o usuário, as imagens foram encontradas em blogs locais, que falam sobre o desabastecimento de água no Nordeste, algo que ele afirma não ser noticiado pela imprensa tradicional.

O que podemos aprender com esta verificação: A desinformação emerge de fontes que, por vezes, desmerecem a credibilidade dos veículos tradicionais de imprensa. É importante ficar em alerta diante de afirmações como “veja o que o jornalismo não mostra”.

No caso do material verificado aqui, uma busca rápida no Google mostraria que a falta de água no Nordeste acontece em decorrência de seca e estiagem em alguns estados e não em razão do fechamento de bombas.

Uma característica comum da desinformação é o uso de acontecimentos verdadeiros para estabelecer relações inadequadas que enganam e induzem leitores a interpretações erradas dos fatos.

Além disso, discursos muito genéricos merecem atenção. No caso analisado, a afirmação é de que todo o Nordeste estaria sem água, uma região com diversos estados e municípios.

Por que investigamos: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e aplicativos de mensagem sobre políticas públicas e eleições no âmbito federal e abre investigações para aquelas publicações que obtiveram maior alcance e engajamento. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Outras checagens sobre o tema: Recorrentemente, a transposição do São Francisco é alvo de desinformação. Há menos de um mês, o Comprova explicou como a polarização intensifica a desinformação sobre a transposição do São Francisco, bem como já mostrou o porquê do assunto gerar dúvidas.

Em uma outra verificação, já foi desmentida a informação enganosa de que Bolsonaro teria concluído 84% das obras da transposição do Rio São Francisco.

Crime Virtual

MPMS recorre contra soltura de cinco adolescentes no caso Lívia no Discord

Promotoria tenta reverter decisão que liberou os investigados e defende a manutenção da internação até a conclusão do processo socioeducativo.

22/09/2026 17h52

Discord foi uma das plataformas utilizadas pelos grupos virtuais investigados no caso da morte de Lívia Cioca Ferreira, de 13 anos.

Discord foi uma das plataformas utilizadas pelos grupos virtuais investigados no caso da morte de Lívia Cioca Ferreira, de 13 anos. Foto: Reprodução.

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O Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS) recorreu à Justiça para tentar restabelecer a internação provisória de cinco adolescentes investigados no caso da morte de Lívia Cioca Ferreira, de 13 anos, ocorrida em Naviraí.

A adolescente morreu após, segundo as investigações, ser submetida a ameaças, humilhações e intensa pressão psicológica por integrantes de grupos que atuavam pela internet, com parte dos acontecimentos transmitida ao vivo pelo Discord.

Por meio de agravo de instrumento com pedido de tutela de urgência, a 4ª Promotoria de Justiça de Naviraí tenta reverter a decisão que determinou a liberação dos cinco adolescentes após o fim do prazo da medida cautelar.

O agravo de instrumento é um recurso utilizado para contestar determinadas decisões tomadas pelo juiz antes do julgamento definitivo do processo.

Neste caso, o MPMS pede que o Tribunal de Justiça reveja a decisão e determine que os adolescentes permaneçam internados até a conclusão do processo socioeducativo.

No recurso encaminhado ao Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul (TJMS), a Promotoria argumenta que a gravidade dos fatos investigados, a complexidade do caso e a proximidade da sentença justificariam a continuidade da internação.

O Ministério Público também sustenta que a demora na conclusão do processo não ocorreu por falta de atuação dos órgãos envolvidos.

Segundo a instituição, o caso exigiu a análise de um grande volume de material digital, a realização de perícias e a cooperação entre autoridades de diferentes estados e até de outros países para identificar os participantes e determinar qual teria sido a atuação de cada um.

A investigação ganhou dimensão nacional após a morte de Lívia, encontrada sem vida em Naviraí no dia 22 de julho deste ano. Inicialmente tratado como suicídio, o episódio passou a ser investigado pela Polícia Civil como resultado de manipulação praticada em ambiente virtual.

Reportagens do Correio do Estado mostraram que a polícia passou a tratar o episódio como um caso de homicídio resultante da atuação de um grupo organizado na internet. 

Pressão antes da morte

As investigações apontaram a existência de grupos organizados em plataformas digitais nos quais adolescentes seriam submetidos a desafios, humilhações, automutilações e outras formas de violência psicológica.

Conforme a Polícia Civil informou anteriormente ao Correio do Estado, os integrantes utilizavam técnicas de engenharia social para se aproximar de jovens, conquistar a confiança deles e, posteriormente, exercer controle sobre as vítimas. 

No caso de Lívia, a polícia apurou que ela teria sido pressionada durante cerca de duas horas no dia de sua morte. Um dos episódios considerados centrais na investigação foi a recusa da adolescente em cumprir uma ordem para matar o próprio gato.

A tarefa era chamada de “luz” dentro do grupo. Conforme explicou à época a delegada Anne Karine Sanches Trevizan Duarte, titular da Delegacia Especializada de Proteção à Criança e ao Adolescente (Depca), depois que Lívia se recusou a machucar o animal, integrantes e pessoas que acompanhavam a transmissão teriam intensificado a pressão para que ela tirasse a própria vida. 

A investigação apontou ainda que um adolescente de 14 anos apreendido na Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro, teria dado as orientações que Lívia deveria seguir.

A apuração identificou suspeitos em diferentes pontos do País e encontrou, durante o cumprimento de mandados, materiais relacionados a ideologias extremistas e ao neonazismo.

Operação Lívia

O avanço das investigações levou à deflagração da Operação Lívia, em 4 de agosto, pela Polícia Civil de Mato Grosso do Sul, por meio da Depca, com apoio do Laboratório de Operações Cibernéticas (Ciberlab), da Secretaria Nacional de Segurança Pública.

Na primeira fase, cinco adolescentes foram apontados como integrantes e administradores dos grupos virtuais conhecidos como “Proxy” e “Snak4”. O Ministério Público posteriormente apresentou representação para aplicação de medidas socioeducativas contra os investigados.

As apurações continuaram e chegaram a outros adolescentes. Em 15 de setembro, foi deflagrada a segunda fase da Operação Lívia, com seis mandados de busca e apreensão e medidas cautelares cumpridos na Bahia, Distrito Federal, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e São Paulo. Os alvos tinham entre 14 e 17 anos. 

O MPMS afirma que já apresentou uma segunda representação, abrangendo outros seis adolescentes identificados ao longo das investigações.

Dessa forma, as duas frentes do processo socioeducativo alcançam adolescentes que, segundo a acusação, desempenhavam diferentes funções na manutenção, administração e organização dos grupos virtuais.

De acordo com as representações citadas pelo Ministério Público, o ambiente virtual teria estrutura organizada, com divisão de tarefas e hierarquia, além da promoção de transmissões e desafios envolvendo violência, pressão psicológica, automutilação, crueldade contra animais e comportamentos autodestrutivos.

Caso colocou Discord sob pressão

A repercussão da morte de Lívia ultrapassou Mato Grosso do Sul e colocou o Discord no centro de uma discussão nacional sobre proteção de crianças e adolescentes na internet.

Em agosto, o Discord informou que havia identificado e desativado o servidor privado relacionado ao caso.

Posteriormente, a Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) determinou a suspensão das transmissões ao vivo e do compartilhamento de vídeos da plataforma no Brasil enquanto não fossem demonstradas medidas suficientes de proteção a crianças e adolescentes. 

A Advocacia-Geral da União (AGU) também entrou na Justiça contra o Discord e pediu R$ 500 milhões em indenização por dano moral coletivo, além de medidas para ampliar a proteção dos usuários.

Nesta segunda-feira (21), o Correio do Estado mostrou que a AGU voltou a se manifestar no processo e classificou como genéricas e insuficientes as propostas apresentadas pela empresa para solucionar as falhas apontadas. 

Agora, enquanto as discussões sobre a responsabilidade da plataforma continuam na Justiça Federal, o processo socioeducativo relacionado aos adolescentes avança em Mato Grosso do Sul.

O novo recurso do MPMS coloca no centro da disputa jurídica a situação dos cinco adolescentes inicialmente internados: a Promotoria pretende que a liberação seja revertida e que eles voltem a cumprir internação provisória até que a Justiça julgue as acusações.

Campo Grande

Relatório de intervenção abre nova etapa para o transporte público

Documento dos interventores será analisado pela Câmara e pela Prefeitura antes de decisões sobre a concessão

22/09/2026 17h30

Consórcio Guaicurus foi assumido pela prefeitura em junho

Consórcio Guaicurus foi assumido pela prefeitura em junho Foto: Paulo Ribas / Correio do Estado

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A entrega do relatório parcial dos primeiros 90 dias de intervenção abre a etapa de análise sobre os próximos passos do Consórcio Guaicurus, com medidas como conclusão da auditoria financeira, apuração de responsabilidades e revisão do contrato de concessão ainda pendentes. O diagnóstico aponta risco de paralisação no início da intervenção e detalha problemas financeiros, operacionais e de gestão que agora serão acompanhados pela Câmara Municipal e considerados pela Prefeitura na definição do futuro do serviço.

Presidente da Comissão de Transporte e Mobilidade Urbana da Câmara, o vereador Dr. Lívio afirmou ao Correio do Estado que o documento ainda não representa uma mudança concreta na situação do consórcio Guaicurus.“Nada mudou. É apenas uma prestação de contas parcial. Vou ler o relatório nesses próximos dias”, afirmou.

Ainda segundo o vereador, a partir da análise do documento, a comissão pretende estabelecer um painel de preocupação e acompanhamento sobre os principais problemas apontados pelos interventores e as medidas que precisarão ser adotadas.

O relatório, com data-base de 15 de setembro, apresenta um diagnóstico provisório da situação encontrada desde a entrada da equipe de intervenção, em 16 de junho. Entre as medidas recomendadas estão a renovação da frota, mudanças nos processos de manutenção e compras, recuperação dos controles administrativos e financeiros e revisão das regras da concessão.

Para o interventor jurídico Alexandre Souza Moreira, porém, os primeiros 90 dias foram suficientes para confirmar parte das preocupações que haviam levado à intervenção.“A principal finalidade desse relatório parcial é uma prestação de contas por parte dos interventores daquilo que foi feito nesses primeiros 90 dias”, explicou.

Segundo Moreira, além de garantir a continuidade do serviço, a equipe precisava identificar internamente as razões que contribuíam para a precarização do transporte. “Uma das finalidades dessa entrada era que a gente pudesse garantir a continuidade dos serviços. Havia aí uma preocupação de que essa continuidade pudesse estar em risco em razão da forma como esse serviço vinha sendo prestado, da precariedade aparente financeira das empresas e também para que a gente pudesse fazer uma avaliação interna das razões pelas quais o transporte estava tão precarizado”, disse.

A intervenção foi decretada pela Prefeitura em junho, por até 180 dias, depois de um histórico de problemas na prestação do serviço e meses após a paralisação do transporte coletivo em dezembro de 2025 por atraso de salários.

Agora, o relatório parcial passa a integrar a análise sobre o futuro da concessão. Entre as recomendações estão a renovação da frota, implantação de manutenção preventiva e preditiva, reorganização de compras e almoxarifado, retomada dos indicadores de desempenho e revisão de linhas e frequências.

Também permanece pendente a decisão sobre a transferência do controle do Consórcio Guaicurus para o Grupo HP Mobilidade, de Goiás, que anunciou a compra da concessionária em julho. A operação ainda depende de anuência do Município.

A prefeita Adriane Lopes (PP) já afirmou que a Prefeitura poderá barrar a transferência caso a proposta não atenda às exigências municipais, tendo citado também a possibilidade de uma nova licitação.

Para Alexandre Moreira, o principal resultado dos primeiros 90 dias foi justamente conseguir dimensionar internamente uma crise que já era percebida pelos usuários.

“Tudo isso foi relatado e acaba por confirmar, sim, uma situação mais complexa do que vinha vivenciando aí o transporte campo-grandense. A gente conseguiu levantar um panorama em 90 dias que, de certa forma, justifica a necessidade da realização dessa medida drástica, que é uma intervenção!, clonclui. 

Valores

Na data em que a intervenção começou, o caixa das empresas somava R$ 415,2 mil, enquanto o adiantamento salarial que venceria poucos dias depois era de R$ 1,03 milhão.

O relatório registra ainda R$ 5,86 milhões em títulos vencidos de fornecedores de diesel, R$ 2,14 milhões em débitos com outros fornecedores e R$ 4,85 milhões em Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) e Imposto de Renda Retido na Fonte (IRRF) vencidos. As linhas de crédito estavam praticamente esgotadas e o estoque de combustível era considerado crítico.

Para Moreira, o conjunto representava risco concreto de interrupção do serviço. “A gente encontrou um cenário inicial de bastante precariedade financeira, o que evidenciava até mesmo uma possível paralisação dos serviços, um fluxo de caixa extremamente deficitário, um estoque de diesel muito baixo, dívidas junto ao fisco, dívidas junto a fornecedores, fornecedores de combustível, fornecedores de peças também outros fornecedores”, afirmou.

Além das dívidas

O diagnóstico não se restringiu ao caixa. Os interventores também apontaram problemas na operação e na gestão das empresas, como manutenção predominantemente corretiva, compras emergenciais, perda de crédito com fornecedores, fragilidade dos estoques e controles administrativos insuficientes.

Na avaliação de Moreira, essas deficiências também pressionam o custo do sistema. “A gente também encontrou uma precariedade operacional dessas empresas, operando de uma maneira que não é a maneira mais adequada e de uma forma que acaba encarecendo ainda mais o custo do sistema, com pagamento de juros, pagamento de protestos, comprando mais caro de fornecedores por falta de crédito”, disse.

O relatório aponta idade média de 10,4 anos para a frota, acima do parâmetro contratual de cinco anos. Dos 460 veículos analisados, 210 foram fabricados até 2015. Também foram identificadas quedas na oferta. Entre 2023 e 2025, as viagens realizadas recuaram cerca de 14%, enquanto a quilometragem caiu 15,2%. A eficiência média das viagens programadas passou de 86,4% para 74,5%.

O histórico de fiscalização também aparece no diagnóstico. Entre 2021 e 2025, a Agência Municipal de Trânsito (Agetran) registrou 21.910 autuações, principalmente por descumprimento de horários, omissão de viagens e problemas em equipamentos obrigatórios.

Apesar de reconhecer a insuficiência das receitas correntes para cobrir as despesas, o documento não conclui que exista desequilíbrio econômico-financeiro do contrato. A questão deverá ser analisada em procedimento específico pela  Agência Municipal de Regulação de Serviços Públicos (Agereg), com reconstrução da equação contratual, análise de receitas, custos, demanda, tarifa, subsídios e matriz de riscos.

 

 

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