“Quanto mais violento é o grupo, melhor é o grupo, porque mais pessoas querem entrar naquela panela”, detalhou a delegada Anne Karine Sanches Trevisan Duarte, titular da Delegacia Especializada de Proteção à Criança e ao Adolescente (DEPCA), sobre investigação de grupos on-line de automutilação que teriam obrigado uma adolescente de 13 anos a cometer suicídio em Naviraí neste mês.
Conforme Anne Trevisan, a investigação dessa organização começou no dia 22 de julho, quando a polícia tomou conhecimento que o suicídio de uma adolescente havia sido transmitido ao vivo por plataformas de comunicação.
“Durante a investigação, a gente verificou que não foi um suicídio, mas foi realmente um homicídio. Com isso, nós identificamos os alvos, os autores, ao todo cinco adolescentes e um adulto, em vários locais do País. Nós representamos pela prisão e apreensão deles e a busca domiciliar”, declarou a delegada.
A investigação resultou na Operação Lívia, deflagrada na terça-feira, que cumpriu mandados de busca a apreensão em seis locais distintos no Rio de Janeiro, no Ceará, em Minas Gerais, no Pará e em Mato Grosso do Sul contra jovens de 14 a 18 anos.
A polícia descobriu que adolescentes e um jovem de 18 anos faziam parte de grupo que utilizava diferentes plataformas para localizar as vítimas, conquistar sua confiança e exercer controle sobre elas.
Entre as práticas identificadas estão desafios cada vez mais violentos, automutilação, humilhações, exposição degradante e outras formas de violência psicológica, que em casos extremos culminavam na indução ao suicídio.
“Nós podemos falar que existem escravos virtuais. Isso acontece principalmente com as meninas. Então, dentro dessa organização criminosa, eles têm aquelas pessoas que vão captando vítimas, fazem uma engenharia social. Os adolescentes, eles deixam, muitas vezes, suas redes sociais abertas, então, eles começam a procurar pela família, onde estudam e, diante de todas aquelas informações, se passam por outra pessoa”, explicou a delegada em coletiva de imprensa ontem.
“É importante frisar que nenhuma rede social dessas pessoas condizia com a foto delas. Era sempre outra foto, outro tipo de pessoa, outro tipo de sexo. Então, é realmente para trazer o adolescente e a criança. Existem crianças vítimas também”, completou Anne Trevisan.
No dia da morte de Lívia, o grupo teria ficado cerca de duas horas pressionando a jovem até que ela decidisse cometer o suicídio, que teria sido um “castigo” por não ter cumprido uma tarefa passada pelos administradores do que eles chamavam de “panela”.
A jovem teria que fazer o que eles chamam de “luz”, que seria matar o próprio gato. Com a recusa dela de machucar o animal, os administradores e também expectadores, segundo a delegada, teriam pressionado a jovem a cometer suicídio.
“É como se eles estivessem jogando um videogame, tem que passar de fase. Então, assim, é uma frieza muito grande, é uma violência muito grande, é desconsiderar a vida humana de forma absurda. Eles têm satisfação com esse resultado. Várias pessoas assistindo e incentivando que praticassem a automutilação, em outros casos, a morte mesmo em si”, contou a delegada.
Anne Trevisan ainda afirmou que outros suicídios também são investigados por ligação com esses grupos, mas não quis detalhar o estado onde eles teriam acontecido.
Ainda conforme a delegada, o adolescente infrator de 14 anos apreendido na Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro, foi que determinou “todas as coordenadas” que a adolescentes que morreu em Naviraí devia seguir para se suicidar.
Durante o caso de MS, outro “evento”, como eles chamam esses episódios, era transmitido simultaneamente em outro estado.
* Saiba
Os investigados e apreendidos na Operação Lívia devem responder pelos crimes de organização criminosa, homicídio qualificado e maus-tratos a animais.
Resgate durou cerca de 40 minutos, pois a área da caixa d'água é de difícil acesso (Foto: Gerson Oliveira / Correio do Estado)

