O humor anda cada vez mais em alta na tevê. Nos últimos anos, muitos foram os espaços que se abriram no gênero – e para todos os gostos. Desde programas com inclinação mais crítica – inclusive no dominical “Fantástico”, da Globo, com o quadro “Isso a Globo Não Mostra” – às sitcoms mais despretensiosas, como “O Dono do Lar”, do Multishow, já em sua segunda temporada. Na história, Maurício Manfrini dá vida ao atrapalhado Américo, um pai de família que, desempregado e sem dinheiro, não vê outra saída além de se tornar um homem “do lar”, enquanto a mulher, Luciana, personagem de Roberta Santiago, busca o sustento da casa dando expediente como enfermeira em um hospital e cuidadora de uma senhora nas horas vagas.
À primeira vista, o seriado parece uma excelente oportunidade para quebrar paradigmas machistas. Mas não é – e talvez nem seja mesmo essa a intenção. O texto é quase sempre óbvio, previsível e dado em gritos histéricos pelo elenco. Tudo é muito teatral, incluindo as claques – aquela trilha sonora de risadas e aplausos que sugere presença de plateia. O problema é que o excesso de sons de gargalhadas faz parecer que tudo deveria ser muito mais engraçado do que, de fato, é.
O elenco é bom. Manfrini é carismático e Roberta Santiago cumpre bem a função de esposa batalhadora que se adapta à realidade de ter um marido fracassado. Grace Gianoukas é certamente a melhor do grupo, na pele da sogra Nina. Trata-se daquele tipo de senhora de classe média fácil de ver por aí, sempre com uma alfinetada na ponta da língua para lançar contra o genro. Há ainda um cunhado folgado, Cristóvão, vivido por Estevam Nabote, que quase sempre é pouco beneficiado pelo texto. O humorista, porém, consegue aproveitar os momentos em que a câmera se volta para ele, abusando de sua boa expressão corporal.
No fundo, o que mais faz falta em “O Dono do Lar” é um cuidado maior com o texto. É possível enxergar, entre um episódio e outro, piadas sendo repetidas. E há ainda um abuso no uso de clichês, como fazer graça com o homem que tem medo de barata e outras formas de insinuar afetações nos personagens masculinos. Ou com o excesso de peso de Cristóvão, em frases como “isso não é uma barriga, isso é uma betoneira”. De maneira geral, tudo remete um pouco ao humor de antigamente, em que os personagens são “vítimas” de bullying o tempo todo. E, com isso, cai constantemente na mesmice.