Correio B

MÚSICA CLÁSSICA

Projeto de extensão da UFMS avança pela internet e aproxima público do repertório erudito

Para continuar oportunizando exibições de música erudita para o público, o curso de Música da UFMS transmite concertos pela internet

Mesmo de salto alto, os passos ligeiros ganham a escadaria com presteza. É preciso correr. O recital vai começar e quase toda a plateia já está acomodada para mais uma exibição do Movimento Concerto (MC). Essa era uma cena comum no Teatro Glauce Rocha durante as noites de apresentação do projeto, criado há 13 anos pelo pianista e professor Evandro Higa.

Com a pandemia, os instrumentistas continuaram a subir no palco do Glauce. Mas, desde então, o público teve de trocar a poltrona do teatro pelo sofá de casa. E o surpreendente é que trocou mesmo.

O número de espectadores das duas primeiras edições do projeto este ano vem crescendo a cada dia e salta aos olhos do violoncelista William Teixeira, professor do curso de Música da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) e atual coordenador do projeto.

“O público on-line, de fato, tem sido uma grata surpresa”, celebra Teixeira. Mais de 500 telas acompanharam, ao vivo, as duas primeiras transmissões da temporada 2021 do Movimento Concerto, nos dias 27 de abril e 19 de maio, pelo canal da TV UFMS no YouTube.  

Menos de um mês depois, a primeira apresentação já contabiliza quase 1.500 visualizações, audiência que supera, por exemplo, as 1.200 visualizações da live em tributo a Tom Jobim (1927-1994), organizada no mês de janeiro pelo conceituado jazz club Blue Note, com participação de Paula e Jaques Morelenbaum, de familiares do maestro Jobim e de outro ícone da bossa nova, Marcos Valle.

A segunda transmissão, realizada na quarta-feira passada, obteve a média de 500 telas ligadas em tempo real no Movimento Concerto e já atinge mais de 700 visualizações, público, uma vez mais, expressivo, porém ainda um pouco abaixo da audiência presencial em noites de casa cheia no teatro.

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Público Cativo

“Até 2019, a temporada já vinha tendo um sucesso muito importante. Tínhamos vários concertos com o Glauce Rocha totalmente lotado, cerca de 800 pessoas”, avalia Teixeira. 

“Campo Grande já tem um lugar muito especial para o Movimento Concerto, que, com todas as dificuldades, mas de maneira ininterrupta, vem sempre buscando manter uma qualidade de alto nível na proposta de democratizar a música de concerto e levá-la a pessoas que anteriormente não possuíam acesso a ela”, completa.  

Em 2020, o projeto entrou em pausa, e o Festival de Música Virtual da UFMS, realizado em novembro, saciou, pelo menos em parte, a sede dos fãs do repertório musical erudito com uma maratona de palestras, de debates, de workshops e de apresentações. 

A transição para o mundo da web exige, por sua vez, “uma adaptação de todas as demais escolhas de repertório e de músicos, sempre buscando difundir a produção do próprio curso de Música da UFMS”, conta o professor.

 

Emoção e informação

Para evitar o contato físico, um único técnico opera três câmeras durante as gravações e, quase sempre, o instrumentista que vai tocar fica responsável pela captação de som da própria performance.  

O repertório escolhido vem sendo executado somente por um ou dois músicos e, quando possível, demanda menos tempo de ensaio em função da familiaridade do intérprete com a composição definida.

Engana-se, porém, quem pensa que a emoção nas lives do MC limita-se aos momentos de apreciação de melodias e de harmonias.  

O professor Rafael Salgado, além da bela performance ao violão para dois temas de Garoto (“Gente Humilde” e “Jorge do Fusa”), provocou forte comoção, na live de maio, ao revelar que aquela era a sua nova estreia como instrumentista, já que estava de molho há um ano em decorrência de uma tendinite.

Ao acessar a live de maio, o público poderá conferir ainda o professor Gustavo Penha apresentando a teorba, instrumento de cordas italiano, do século 16, similar ao alaúde, ao interpretar um prelúdio e uma tocata do alemão-italiano Giovanni Girolamo Kapsberger (1580-1651), e um duo de Max Packer (clarinete) e Pieter Rahmeier (violão) para “Rosa”, um clássico do brasileiro Pixinguinha.

Ao lado de compositores de música clássica menos conhecidos, como David Popper e Franz Biber, em março o repertório de música popular também teve vez. 

O duo Amabile – Marcelo Fernandes (violão) e Ana Lúcia Gaborim (canto) – interpretou “Fogo da Poesia”, de Fernandes com Rubenio Marcelo, além de dois temas fronteiriços do popular e do erudito, que se consagraram como peças do canto lírico brasileiro na voz da soprano Mária Lúcia Godoy – “Modinha” (Villa-Lobos/Manuel Bandeira) e “Azulão” (Jayme Ovalle/Bandeira). Evandro Higa, Jackes Douglas (trombone) e o próprio Teixeira (violoncelo) também se apresentaram em março.

A vez dos novos

Apesar das performances serem gravadas, os músicos participam ao vivo da transmissão e interagem com os internautas, que podem enviar comentários.  

Até agora, todos os artistas que se apresentaram são docentes do curso. A próxima live, em 18 de junho, terá como atração o violinista Caio Fortunato e o violoncelista Henrique Lucena, que estão concluindo a licenciatura na UFMS com essa apresentação.

Caio vai executar o “Concerto em Sol Menor Opus 26”, de Max Bruch (1838-1920), e Henrique uma suíte de Bach e um concerto de Haydn, que legaram um dos repertórios mais apreciados para violoncelo, além de “O Cisne Negro” (Villa-Lobos) e “Les Mots Sont Allés” (Luciano Berio).

No dia 5 de julho, o Movimento Concerto transmite uma apresentação exclusivamente de vocais femininos para marcar o aniversário de 59 anos da UFMS.  

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