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ENTREVISTA

A razão e sensibilidade de Humberto Carrão

O ator exalta as reviravoltas e os temas pertinentes do texto de “Amor de Mãe”
25/02/2020 18:00 - Geraldo Bessa/TV Press


 

Tímido e sem qualquer sinal de estrelismo, Humberto Carrão evita grandes exposições, seja nas redes sociais ou em campanhas publicitárias. Aos 28 anos e com uma trajetória ascendente dentro da Globo, ele utiliza seu bom momento na emissora para garantir papéis que possam satisfazer suas aspirações artísticas e harmonizem com seus ideais de vida. É por isso que ele se empolga ao falar do Sandro de “Amor de Mãe”. “A novela trata de questões políticas e sociais urgentes. E o Sandro é um personagem que carrega a mensagem da mudança. É um sujeito que passou por situações muito difíceis e está conhecendo o amor agora. Esse é o principal agente transformador na vida das pessoas”, enaltece.

Natural do Rio de Janeiro, Humberto decidiu pela carreira artística bem cedo. Aos 10 anos, já estava nos estúdios de “Bambuluá”, infantil da Globo protagonizado por Angélica. Muitos testes depois, participou da temporada 2004 de “Malhação” e integrou o elenco da controversa “Bang Bang”. Depois de muitos personagens secundários, o momento de “virada” na trajetória de Carrão ocorreu após seu bom desempenho em “Cheias de Charme”, que abriu o caminho para outros trabalhos como “Sangue Bom” e “A Lei do Amor”. “Consegui construir um diálogo muito sadio com a televisão. Tenho feitos personagens incríveis e a direção da emissora respeita que preciso de um tempo entre um trabalho e outro”, valoriza o ator que, assim que terminar “Amor de Mãe”, volta a trabalhar no roteiro de seu primeiro longa, onde acumulará também a função de diretor. “Estou neste meio há muito tempo. É normal que eu tenha curiosidade sobre outras atividades também”, ressalta.

P - Depois de atuar na segunda temporada de “Sob Pressão” (2018), você chegou a dizer que precisava de um tempo longe da tevê. O que você viu em “Amor de Mãe” a ponto de rever seus planos?

R - Tudo, né? A novela trata de muitos temas urgentes e conta com um elenco cheio de talentos e pessoas que compartilham de ideias parecidas. Eu já admirava muito o Zé (José Luiz Villamarim, diretor) e a Manu (Manuela Dias, autora). Então, ser convidado para um papel bacana dentro de um projeto tão lindo é realmente irrecusável. O mais legal é que a trama nunca para, tem sempre alguma coisa acontecendo. Meu personagem é um exemplo disso.

P - Em que sentido?

R - Ele começou a trama preso. Inicialmente, achou que era o filho roubado da Lourdes (Regina Casé) e teve de encarar a morte da Kátia (Vera Holtz), mãe adotiva e mulher que o roubou. Em seguida, viu que a realidade por trás de tudo isso era muito mais densa. Conheceu Vitória e Raul (Taís Araújo e Murilo Benício), seus verdadeiros pais, e tenta com dificuldades se encaixar nessa nova realidade. Todo dia é uma surpresa.

P - Como você se preparou para tantas nuances?

R - Minha primeira atitude quando comecei a ler o texto foi visitar o complexo presidiário de Bangu, no Rio de Janeiro. Tenho feito personagens muito ligados às dificuldades cotidianas brasileiras, mas o Sandro vai além. Acredito muito na ressocialização de presos e essa história fala sobre isso sem esquecer os percalços sociais envolvidos nessa trajetória. Conversar com os presos mudou totalmente a concepção do papel.

P - Por quê?

R - Nas conversas iniciais que tive com Zé e Manu, o Sandro seria uma cara mais denso e espaçoso. No entanto, saí de lá defendendo que ele teria que ser introspectivo e desconfiado. Digo isso porque, a todo momento, ex-presos são lembrados de seus erros. É um peso que eles carregam e uma moeda de troca social de que eles não podem ir além. Então, Sandro é um sujeito que parece estar sempre se escondendo. A conversa no presídio foi muito franca, a ponto de os presos assumirem que não gostam muito do jeito com que são retratados na tevê.

P - Como assim?

R - A caricatura vai sempre pelo caminho óbvio da violência. Eu já queria fazer diferente e conversar com eles me deixou mais certo da minha atuação. Me deram dicas de figurino, gírias e jeito de falar. Fico muito curioso sobre a impressão deles do que foi ao ar. Espero que tenha soado mais naturalista que o habitual.

P - Entre tantas reviravoltas e cenas carregadas de emoção, você já consegue escolher a que mais o tocou em “Amor de Mãe”?

R - Teve uma que bateu muito forte sim (risos). É justamente quando o Sandro descobre que não é filho da Lurdes. O desenho do personagem é muito bonito. Ele saiu da rigidez do cárcere e sentiu o que era amor de família pela primeira vez com a personagem da Regina. Então, gravar essa troca de “núcleo” foi bem emocionante. O resultado é lindo e de uma entrega arrebatadora da Regina.

P - Você já ocupou o posto de galã jovem em tramas como “Geração Brasil” e “A Lei do Amor”. Acha que a boa repercussão do Sandro pode o levar a personagens mais complexos dentro da emissora?

R - É esse caminho da diferença que quero seguir. Na verdade, viver o Sandro é resultado de um processo das minhas últimas escolhas dentro da Globo. Atuo desde muito novo e sei o que é trabalhar apenas para respeitar o contrato ou estar em evidência na busca por novas oportunidades. Mas decidi não jogar mais dessa forma. Quero mesmo é papéis que me façam ir para novos caminhos e estejam em sintonia com o que quero dizer no momento.

P - Você tinha apenas 10 anos quando estreou no infantil “Bambuluá”. Em algum momento achou que não conseguiria fazer a transição para papéis adultos e cair no esquecimento que ocorre com muitos intérpretes que começaram a atuar ainda criança?

R - Essa sensação é geral e muito real. De repente, você começa a não conseguir mais oportunidades e está, ou muito novo ou muito velho, para os testes. As coisas só começaram a se firmar mesmo para mim depois da temporada 2009 de “Malhação”. O sucesso do vilão Caio acabou fazendo com que o Jorge Fernando me escalasse para “Ti-Ti-Ti” e depois engrenei quatro novelas seguidas.

Amor de Mãe” - Globo - de segunda a sábado, às 20h.

Visão de mundo

Humberto Carrão não se esquiva quando o assunto é política. Defensor de ideias a favor do social, o ator é facilmente visto em manifestações, como a em memória de Marielle Franco, vereadora carioca que foi misteriosamente executada, e a do #EleNão, movimento liderado por mulheres contra o fascismo. “O momento é de se posicionar. Ficar em cima do muro é uma forma de aceitar o que vier para a sua vida”, opina.

A verdade é que, além de deixar claras suas posições, ele também se mostra através das escolhas de seus trabalhos e personagens. Foi assim ao viver o antagonista de “Aquarius”, longa de Kleber Mendonça Filho sobre especulação imobiliária, o mocinho de “A Lei do Amor”, que abordou favores ilícitos e interferência política nas eleições. E, por fim, a corrupção na saúde abordada na segunda temporada de “Sob Pressão”. “São assuntos que precisam ser retratados e debatidos. Trabalhar com esses temas me dá uma visão cada vez mais clara sobre o que quero como cidadão”, defende.

Forças contrárias

Dentre tantas escolhas políticas, Humberto Carrão espera ansiosamente pela estreia de “Marighella”, longa que marca a estreia de Wagner Moura na direção e que conta a história do guerrilheiro baiano Carlos Marighella, papel de Seu Jorge. Entre idas e vindas por conta de problemas de distribuição, o filme tem estreia marcada para junho no Brasil. “O filme é incrível, já passou por festivais importantes e chegaria ao circuito nacional em novembro passado. Infelizmente, é o tipo de longa que o atual governo não quer que seja lançado, mas acho que agora vai!”, torce.

Na produção, Humberto vive o melhor amigo do protagonista, o também guerrilheiro Humberto. Filmado ao longo de 2017, o ator acredita que o filme é um ato de resistência e uma homenagem ao audiovisual brasileiro, que vem sofrendo sucessivos ataques do Governo Federal. “Existe uma tática de asfixia para que o cinema nacional ignore a realidade do país. São orçamentos cortados e editais cotados. O jeito é seguir em frente e produzir do jeito que puder”, analisa.

Instantâneas

# Pouco depois de sua estreia na tevê, Humberto Carrão teve uma breve passagem pelo canal educativo Futura, onde trabalhou na série “Alô, Vídeo Escola”, de 2002.

# Carrão participou de duas temporadas de “Malhação”. Em 2004, viveu o esperto Diogo. Na temporada de 2009, voltou como Caio, o antagonista principal da história.

# O ator é um exímio baterista e já fez parte de um trio musical chamado Olegários.

# Humberto namora a também atriz Chandelly Braz desde 2012.

 

Felpuda


Dia desses, há quem tenha se lembrado de opositor ferrenho – em público –, contra governante da época, mas que não deixava de frequentar a fazenda de “sua vítima” sempre que possível e longe dos olhos populares. Por lá, dizem, riam que só do fictício enfrentamento de ambos, que atraía atenção e votos. E quem se lembrou da antiga história garantiu que hoje ela vem se repetindo, tendo duas figurinhas carimbadas nos papéis principais. Ô louco!