Campo Grande está a poucos dias de viver um divisor de águas em sua história cultural. Na quinta-feira, a capital sul-mato-grossense recebe o Guns N’ Roses, em um evento que já é considerado o maior espetáculo musical realizado no Estado.
Com expectativa de até 40 mil pessoas no Autódromo Internacional Orlando Moura e cerca de 70% do público vindo de fora, a cidade entra definitivamente no radar das grandes turnês internacionais.
A estrutura montada impressiona: camarins, camarotes, áreas de circulação, rede elétrica e hidráulica, além de um palco que acompanha a turnê mundial da banda.
Tudo isso erguido praticamente do zero. Mas, apesar da grandiosidade, o show não surge como um acontecimento isolado. Ele é resultado de uma trajetória construída ao longo de décadas.
Campo Grande pode até não ter tido, até agora, um fluxo constante de megaeventos internacionais, mas sempre esteve conectada ao circuito global da música.
Seja por meio de bandas underground, festivais independentes ou apresentações pontuais de grandes nomes, a cidade construiu uma base sólida que ajuda a explicar por que o momento atual é possível.
UNDERGROUD FOI A BASE
Muito antes de sonhar com estruturas gigantescas, Campo Grande já vivia intensamente a música internacional em espaços alternativos. Nos anos 1990 e início dos 2000, bares, festivais independentes e produtores locais desempenharam papel fundamental na formação de público.
É nesse contexto que surge uma geração de produtores e músicos que ajudaram a manter viva a cena, como Enrique Gonçalves de Souza, vocalista do DxDxOx desde 1998, produtor de shows de rock pela Panela Eventos entre os anos 2000 e 2010 e dono da loja Terror Rock Shop desde 2014.
Atuando no segmento desde o fim dos anos 1990, Enrique esteve diretamente envolvido na produção e organização de apresentações internacionais que, embora menores em escala e nichadas para a galera do rock n’roll, foram essenciais para colocar Campo Grande no mapa.
Entre os nomes que passaram pela cidade com apoio de Enrique estão a banda japonesa Guitar Wolf, o grupo norte-americano Black Oil, os argentinos do Vagazos e o Slow Agony, do Paraguai. “Sempre vieram bandas internacionais, até banda gospel de metal, o Bride”, relembra.
Entre os momentos mais simbólicos dessa fase está a passagem da Guitar Wolf pela Capital, em novembro de 2001. O trio, conhecido pelo estilo jet rock, se apresentou durante o Yeah! Fest!, nos dias 23 e 24, como parte da turnê de divulgação do álbum “Jet Generation”.
O evento reuniu também bandas brasileiras independentes e marcou época por trazer uma atração internacional de um país pouco comum nas rotas musicais da época.
A apresentação representou um intercâmbio cultural que ajudou a fortalecer a cena local e ampliar horizontes. Para muitos músicos e produtores, foi a prova de que Campo Grande poderia, sim, fazer parte de circuitos globais.
A partir dos anos 2000, a cidade passou a receber com mais frequência bandas que circulavam pela América Latina. Em 2006, a produtora Panela Eventos celebrou uma década de atuação trazendo o grupo argentino Vagazos para o Setembro Rock.
As apresentações aconteceram em espaços como Bar do Carioca e Bar do Tião, que se tornaram pontos de referência para o rock na cidade.
A passagem da banda reforçou a conexão de Campo Grande com países vizinhos e consolidou o público local como consumidor ativo de música internacional.
Dois anos depois, em 2008, a banda californiana Black Oil escolheu Campo Grande como ponto de partida para sua turnê latino-americana.
O show no Bar Fly trouxe uma sonoridade que misturava hardcore e thrash metal, influenciada por nomes como Sepultura e Soulfly.
Esse tipo de circulação foi essencial para consolidar a cidade como uma parada possível, ainda que alternativa, dentro de rotas internacionais.
Mas se nesse ponto ainda havia dúvidas sobre a capacidade de Campo Grande receber bandas de maior relevância no cenário mundial, elas começaram a desaparecer na década de 2010.
Em 2010, a cidade recebeu duas potências do metal extremo europeu: os poloneses do Vader e os suecos do Marduk. Os shows, realizados no República Music Bar, atraíram fãs de diferentes regiões e reforçaram o potencial da Capital.
Essas apresentações mostraram que, mesmo sem grandes arenas, havia público e interesse suficientes para sustentar eventos internacionais, ainda que em escala menor.
GRANDES NOMES
Paralelamente à cena underground, Campo Grande também experimentou momentos de grande visibilidade com artistas de alcance global.
Em 2004, a clássica Steppenwolf, liderada por John Kay, se apresentou durante o Moto Road, conectando o público local a uma das bandas mais emblemáticas do rock.
Em 2012, o DJ francês David Guetta levou entre 20 e 25 mil pessoas ao Jóquei Clube. O evento ficou marcado não apenas pela apresentação, mas também pela estrutura robusta, efeitos visuais e congestionamentos que chegaram a três quilômetros no caminho para o show.
Na mesma época, o espaço também recebeu o britânico Fatboy Slim, reflexo da presença da música eletrônica na Capital.
Mesmo com altos e baixos, a presença internacional nunca deixou de existir. Em 2022, o MS Blues Festival marcou o retorno de eventos do gênero com a participação do guitarrista Breezy Rodio, trazendo a tradição do blues norte-americano para o público local.
Em 2023, o projeto Dire Straits Legacy reuniu milhares de pessoas no Ginásio Guanandizão, com um repertório repleto de clássicos. O sucesso foi tão grande que a banda retorna à cidade no dia 22 de maio para um show no Bosque Expo.
Outras atrações, como o Revisiting Creedence, que mantém viva a obra do Creedence Clearwater Revival e passou pela cidade em novembro de 2024, mostram que o público campo-grandense continua conectado a diferentes gerações do rock.
NOVO MARCO HISTÓRICO
Se até o momento o maior show da história de Campo Grande era o do DJ David Guetta em 2012, agora o recorde de público deve ser o dobro do atingido na época, com Guns N’ Roses reunindo até 40 mil pessoas nesta semana.
A apresentação da banda estadunidense pode representar um divisor de águas para Campo Grande. A expectativa da organização é de que o sucesso do evento ajude a consolidar a cidade como destino viável para grandes turnês internacionais.
Segundo Valter Júnior, produtor local da Santo Show, existem conversas em andamento com outras bandas, inclusive com possibilidade de atrações ainda maiores. No entanto, ele reforça que a falta de infraestrutura continua sendo o maior obstáculo.
“Se a gente tivesse um estádio, já teríamos vários outros shows confirmados. A cidade perde muito por não ter um espaço adequado”, afirma.
Mas para além da infraestrutura, se depender da história, a cidade provou que tem público, diversidade musical e uma base cultural sólida. O que faltava era justamente uma oportunidade em grande escala.
SERVIÇO
Show: Guns N’ Roses.
Data: 9 de abril.
Local: Autódromo Internacional Orlando Moura.
Ingressos: on-line, pela Bilheteria Digital, e no ponto físico, no Shopping Bosque dos Ipês (terça-feira a domingo, das 14h às 20h).
A atriz Ana Costa é a Capa exclusiva do Correio B+ desta semana - Foto: Lito Trindade - Diagramação: Denis Felipe
A atriz Ana Costa é a Capa exclusiva do Correio B+ desta semana - Foto: Divulgação Netflix - Diagramação: Denis Felipe
Vanessa Abdo - Divulgação

