“Retomada”, o segundo álbum do Brô MC’s, produzido pelo Instituto Alok, já está disponível nas plataformas digitais. Trata-se do primeiro disco do grupo guarani e kaiowá, pioneiro em inserir o rap indígena no panorama da música brasileira, concebido para uma projeção que vá além do circuito independente.
O lançamento faz parte da coleção Som Nativo, composta por sete álbuns inéditos de diferentes etnias brasileiras, que se somam a “O Futuro É Ancestral” (2024), do DJ Alok.
Todos os trabalhos foram disponibilizados no sábado, nas plataformas de streaming, para reforçar o simbolismo da data, 9 de agosto, quando se celebra o Dia Internacional dos Povos Indígenas. Fundado em 2009, o Brô Mc’s é formado pela dupla de irmãos Bruno Veron e Clemerson Veron; e Charlie Peixoto e Kelvin Peixoto.
“Nosso álbum é a nossa voz, nossa palavra. Escutem a nossa origem, escutem a nossa canção”, afirma Clemerson.
Os artistas vivem nas aldeias Jaguapiru e Bororó, localizadas na reserva indígena de Dourados, que abriga cerca de 20 mil habitantes dos povos Terena, Guarani e Kaiowá, registrando a maior quantidade populacional indígena por metro quadrado no País.
Para comemorar o lançamento de seu segundo álbum, os integrantes do Brô Mc’s realizaram, no sábado, no ponto de cultura Hip Hop Ayvú Records, sede do grupo na aldeia Jaguapiru, um dia de confraternização com ações culturais, como campeonato de futebol, batalha de rima e atividades para as crianças.
Mais do que uma novidade na música brasileira, o Brô Mc’s também tornou-se um exemplo mundial ao ser um dos primeiros grupos de rap indígena a cantar em sua própria língua nativa, o guarani.
O idioma é falado no Paraguai, Brasil e Argentina, conectando um território que reúne uma população de mais de 30 milhões de pessoas, transformando o Brô Mc’s em um representante de toda essa região.
O grupo já passou por vários palcos do mundo, sendo os primeiros indígenas a tocarem no Rock in Rio, junto com o DJ Xamã, em setembro de 2022. Em 25 anos da história do Grammy Latino, o Brô Mc’s tornou-se, em 2024, não somente o primeiro grupo indígena a receber uma indicação, mas também a tocar na noite de gala do prêmio internacional.
REPERTÓRIO
O álbum “Retomada” traz um repertório com nove faixas, todas autorais: “Orereko”, “Cemitério”, “Nda Peikuaai”, “Pehendu Hagua”, “Ndo Alei Peti”, “Retomada”, “Eju Mokoi”, “Drill GK” e “Até o Fim”. As letras seguem denunciando a pressão de vários setores da sociedade brasileira e do agronegócio sobre as terras indígenas.
Como a própria faixa que batiza o álbum indica, o álbum é uma fotografia da realidade vivida diariamente pelos artistas do Brô e toda a comunidade das aldeias Jaguapiru e Bororó cercadas por fazendas do agronegócio.
O grupo participa do festival The Town, em setembro, em São Paulo, trilhando um caminho de crescente reconhecimento que o Instituto Alok tem ajudado a pavimentar.
SEM INTERFERÊNCIA
Com o lançamento dos sete álbuns, o Instituto Alok mantém o seu objetivo de contribuir para a inserção artística indígena na sociedade e indústria fonográfica, amplificando as vozes indígenas e fortalecendo a preservação das línguas e culturas originárias.
As gravações mantêm os arranjos autorais, ou seja, sem interferência criativa ou técnica por parte de Alok. “Não participo como produtor musical nesses álbuns, são para o público desfrutar das tonalidades originais desses artistas incríveis.
Meu desejo é que possamos gravar novos álbuns no futuro. Há uma fabulosa riqueza musical entre as centenas de etnias indígenas que habitam o Brasil”, diz Alok.
A maioria das faixas foi gravada em idioma nativo. As letras entoadas pelos guarani-kaiowá (MS), kariri-xocó (AL), huni kuin (AC), yawanawa (AC), guarani-mbyá (SP), kaingang e guarani-nhandewa (PR) desenham um mapa sonoro e geográfico brasileiro que alerta o mundo sobre a conexão com a natureza, o cotidiano nas aldeias e séculos de resiliência cultural.
“Na nossa cultura, os mais sábios ensinam as novas gerações. Os cânticos sagrados que tocam a alma das pessoas, falam da importância do respeito à natureza e ao meio ambiente”, diz Everton Lourenço da etnia Guarani Nhandewa.
“Recebemos do criador o dom de cantar alto, assim como as onças e os pássaros. Nós povos amazônicos não temos escrita, então as músicas gravadas nesse álbum vêm assegurar a continuidade de nossos conhecimentos e valorizar nossas tradições”, completa o líder indígena Tashka Yawanawa.
Hotel Gaspar - Foto: Arquivo / Divulgação
Apresentando releituras de intérpretes da música brasileira e internacional, promovendo conexões entre artistas de diferentes épocas, a cantora campo-grandense Bell Éter se apresenta na sexta-feira, às 19h, no Sesc Teatro Prosa. O repertório inclui nomes como Maria Bethânia, Marília Mendonça, Djavan, Liniker, Whitney Houston e Sam Smith. O show “Bell Éter canta Grandes Vozes” é aberto ao público e tem classificação livre. Os ingressos podem ser retirados gratuitamente no Sympla. Bell Éter iniciou sua trajetória com o lançamento de músicas autorais em plataformas digitais a partir de 2022 . Em 2025, ela ganhou projeção nacional ao chegar à final do programa “The Voice Brasil”.
Maria Clara Alvares e Fabiana Gibran
Dra. Cindia Bérnardelli


