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Capa B+: Entrevista exclusiva com o ator Caio Mutai

Em comemoração ao Dia da Imigração Japonesa no Brasil, Caio conversa com exclusividade com o Correio B+. "Ter outra etnia diferente do padrão branco europeu te deixa cheio de estigmas".

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Caio Mutai sempre esteve imerso no mundo das artes, mesmo antes de nascer. Sua mãe, que deu aulas de ballet até quase o dia do parto, transmitiu-lhe esse legado. Cresceu praticamente dentro da escola de ballet da família, um ambiente artístico que herdou da avó e que foi também a formação inicial de suas tias.

A arte era parte intrínseca da vida familiar, com todos sendo multi-talentosos. Esse ambiente artístico familiar, aliado a uma infância solitária, contribuiu para que Caio desenvolvesse sua imaginação criativa, criando mundos, personagens e histórias onde atuava intensamente.

A dança foi a primeira forma de expressão artística de Caio. Aos seis anos, iniciou aulas de ballet clássico e, aos onze, começou a estudar canto. A atuação veio um ano depois, despertando nele uma paixão avassaladora pela interpretação teatral.

Sua mãe, sempre presente em suas decisões, ajudou-o a ingressar nesse mundo, apesar do preconceito que enfrentou por ser um menino no ballet. Com o apoio de uma amiga da mãe, ele fez um curso de teatro musical, o que consolidou seu amor pela atuação.

O apoio da família de Caio foi ambivalente. Embora nunca o tenham impedido de seguir seus sonhos e o tenham ajudado financeiramente, sempre houve uma preocupação com sua estabilidade financeira.

Sugestões para seguir outras carreiras eram frequentes, mas isso nunca abalou sua determinação. Ele soube que teria que ser firme em suas decisões, apesar das dúvidas e preocupações familiares.

Caio não tem formação em outras áreas, mas tem muitos interesses e projetos paralelos. Atualmente, ele e um parceiro desenvolvem diversas frentes de trabalho, incluindo produções teatrais, audiovisuais, mercado financeiro e educação. Recentemente, começaram a pré-produção de um grande musical da Broadway, marcando sua estreia como idealizador e aprendiz de produtor.

No teatro, Caio considera o ao vivo e a interação com o público os maiores desafios, especialmente por ser tímido e ansioso. Entre seus trabalhos mais significativos, ele destaca suas atuações no Teatro Bradesco São Paulo com a companhia do Billy Bond, "Chaplin - O Musical" e "Aladdin - O Musical". Esses trabalhos marcaram o início de sua carreira e foram grandes escolas para ele.

No audiovisual, Caio menciona a dificuldade de manter a qualidade de atuação consistente em diferentes cenas e momentos das gravações. Entre seus projetos mais importantes estão "SmokeMaster", "O Coro - O Sucesso Aqui Vou Eu", "As Five" e "Furnas Fundas".

Em "As Five", Caio interpretou PR, um personagem que desafiava estereótipos de sexualidade e etnia. A experiência foi intensa, pois ele conciliou as gravações dessa série com "O Coro", alternando entre personagens muito diferentes.

Em "SmokeMaster", seu primeiro longa-metragem, ele vivenciou a imersão total no set, gravando em locações rurais e naturais, o que marcou profundamente sua trajetória.

"Furnas Fundas" foi uma experiência única, onde Caio interpretou um vampiro, um papel que nunca imaginou fazer no Brasil. O processo foi intenso, desde a preparação até as gravações, desafiando-o fisicamente e emocionalmente.

VIDA E ARTE AMARELA

A questão de ser "amarelo" sempre esteve presente na vida de Caio, mas ele só começou a entender e a enfrentar isso em 2017, quando se envolveu com o grupo Yobanboo. Antes disso, ele aceitava passivamente as situações racistas, sem reconhecer plenamente o impacto delas. No entanto, ao começar a satirizar e criticar essas experiências através da arte, ele despertou para a luta contra o racismo e começou a se redescobrir.

Ao longo de sua vida pessoal e profissional, Caio enfrentou inúmeros episódios de preconceito. Desde comentários aparentemente inofensivos até situações mais graves, como ser preterido em trabalhos por sua aparência.

Em um episódio particularmente marcante, ele perdeu um grande papel em uma novela porque decidiram remover um elemento que justificava sua presença como mestiço. Esse tipo de discriminação deixou cicatrizes profundas e influenciou suas decisões, incluindo a tentativa de esconder sua etnia trocando de sobrenome.

Hoje, Caio orgulhosamente usa seu nome verdadeiro e trabalha para que sua presença na arte seja vista de forma normalizada, sem a necessidade de estereótipos ou justificativas. Ele busca abrir caminhos para outros artistas amarelos, para que possam existir e ser representados de forma autêntica e sem preconceitos.

Em celebração do Dia da Imigração Japonesa no Brasil, O Correio B+ conversou com Caio para o Caderno com exclusividade e falou de estreias, trabalhos e preconceitos em sua trajetória.

O ator Caio Mutai é Capa exclusiva do Correio B+ desta semana - Foto: Tony Marquez - Diagramação Denis Felipe e Denise Neves

CE - Como iniciou na carreira artística?
CM -
 Certamente foi na barriga da minha mãe! Ela deu aulas de ballet até quase o dia do meu nascimento. Praticamente cresci dentro da escola de ballet dela, observando de perto, até que um dia pedi para participar também. Ao final das aulas das crianças, sempre havia brincadeiras. Comecei querendo brincar junto e, logo depois, já estava fazendo as aulas inteiras.

E embora tudo tenha começado ali, com ela, sem dúvida a arte veio da minha família. Minha mãe, minhas tias, meu tio, meu primo... todos são multitalentosos. Ao longo da vida, até certa idade, eu me mudei várias vezes de casa e, consequentemente, de escola, então por vezes fui uma criança bastante solitária, o que me obrigou a aprender a brincar sozinho e explorar muito a imaginação, criando diversas histórias, cheias de ludicidade e diferentes personagens - mal sabia eu que já estava atuando.

CE - Teve o apoio da família na decisão de seguir na carreira artística?
CM - 
Sim e não. "Sim" porque sempre me ajudaram como puderam, inclusive financeiramente. Nunca me impediram de seguir meus desejos e sempre estiveram ao meu lado nas minhas decisões. "Não" porque, se eu não tivesse sido firme nas minhas escolhas, provavelmente teria seguido os conselhos deles e escolhido uma carreira diferente para ter “dinheiro e segurança”.

Minha família nunca deixou de sugerir outras profissões. E nisso incluo todos, sem exceção. Sabemos que a vida de artista neste país é difícil se você não é famoso, então sempre houve uma grande preocupação com meu futuro e não os culpo, pois sempre recebi isso como um “cuidado”, sei que agiram por amor - o que não impediu de causar uma grande confusão na minha cabeça (risos).

Hoje digo que eles me ajudaram a entender o quanto amo o que faço e o quanto precisaria me preparar e lutar para conquistar meus objetivos. Se eu tinha que convencê-los de que este era meu caminho, primeiro precisava convencer a mim mesmo, e essa é a parte mais difícil.

CE - Chegou a considerar um ‘plano B’?
CM -
Sou uma pessoa com muitos interesses, desejos e estudos, mas não tenho formação formal em outras áreas. Atualmente, estou desenvolvendo outras frentes de trabalho com um grande parceiro, com quem compartilho de projetos teatrais, audiovisuais, e até mesmo do mercado financeiro e educacional, mas não vejo isso como planos B, C ou D, e sim como um empreendedor que gere negócios.

Sempre ouvi que deveria tentar outras coisas, mas só não o fiz por teimosia. Muitas vezes pensei em desistir da arte devido às inúmeras conversas, justamente sobre os tais planos B. Acho que, se tivesse parado minha vida para construir um, hoje meu ‘plano A’ não estaria tão avançado. Agora, com o ‘plano A’ encaminhado, posso pensar em construir outros planos. Meu objetivo é trabalhar intensamente para que todos eles se desenvolvam e cresçam exponencialmente ao longo do tempo.

Elenco da estreia de “Furnas Fundas”- Divulgação

CE - Quais são suas inspirações artísticas?
CM -
Confesso que quem mais me inspira hoje são meus amigos e colegas de trabalho. Meus mestres e professores! Mas posso dizer que na atuação, vou por um caminho mais discreto, como Daniel Day Lewis, ou outros artistas que fazem menos coisas, mas quando fazem é arrebatador. 

Já que a chama da causa amarela arde em mim, posso fazer menção honrosa à nossa musa Michelle Yeoh que, além de uma excelente atriz, é super ativa na causa. Tony Leung que é uma lenda e é claro, meu herói favorito de todos os tempos: Jackie Chan, que além de um maravilhoso ator, é talvez o maior produtor de cinema na China e um grande empresário.

Já na música, posso dizer que nasci e cresci escutando de Michael Jackson a Andrea Bocelli e na dança é o maravilhoso e eterno Baryshnikov. Quase um robô de tão perfeito. Que técnica absurda! 

CE - E suas aspirações de carreira?
Se fosse há uns anos atrás, eu com certeza diria: fazer filmes, séries, ir pra Hollywood etc etc.
CM - 
Quando eu comecei a ter a mínima noção da minha identidade amarela, isso passou a ser uma aspiração coletiva. Quero poder ser uma referência e um modelo de artista multifacetado que possa inspirar as próximas gerações. Não só inspirar, mas desbravar e possibilitar caminhos novos e diferentes. Quero ser ponte, escada. Quero poder proporcionar! Antes ser, para depois poder ajudar os outros a serem também. Serem o que quiserem! Muitos artistas de Hollywood são também produtores, empresários e é nisso que me inspiro.

CE - Como foi atuar nas temporadas de “As Five” e como o personagem impactou sua carreira?
CM -
 Sempre que recebo um personagem, primeiro tento entender a importância dele para a história, para o mundo e para mim. Acho que o PR veio com a proposta de simplesmente ser, sem parecer nada específico. Por trás de toda a fachada de "heterotop", ele era homossexual.

Mas a intenção era que "não parecesse", justamente para mostrar que não deve haver motivo para rotular pessoas e suas sexualidades apenas por características físicas, intelectuais ou comportamentais.
Outro ponto importante é que o PR não precisava ser um brasileiro asiático, mas era. Eu sou mestiço, então o PR também era, mas não havia essa necessidade.

O personagem foi escrito de forma aberta, podendo ser de qualquer etnia. Eu simplesmente podia existir normalmente, sem ter que justificar minha presença com parentes orientais ou um background extenso. Resumindo? PR veio para simplesmente SER. E ele chegou como um furacão!

Na mesma semana, fui aprovado para interpretar o Emídio em "O Coro", do Miguel Falabella, dois personagens essencialmente distintos e contrastantes. Gravei as duas séries ao mesmo tempo! Foi uma loucura. Das mais gostosas da vida, mas ainda assim uma loucura.

Em AS FIVES - Divulgação

CE - Em breve você estreia seu segundo longa-metragem, “Furnas Fundas”. O que pode contar sobre o projeto?
CM -
 Parei tudo que estava fazendo para mergulhar de cabeça no universo do longa e dos vampiros, muito inspirado por filmes como "Only Lovers Left Alive". O Yukun foi meu primeiro personagem de ficção e meu segundo vilão, e me permitiu viver as mais diversas experiências durante as gravações, desde gravar nos lugares mais quentes e inusitados como cemitério, mausoléu, igreja, hospital, até raspar a cabeça, ter o corpo pintado, usar próteses dentárias e claro, muito sangue cenográfico.

Tudo isso ao lado de um elenco estelar, como Eriberto Leão, Otávio Muller, Natália Lage, entre outros grandes nomes, e sendo eu o mais novo. O maior presente foi poder acompanhar de perto artistas tão incríveis e aprender muito com eles. Que honra!

CE - Como asiático você é bastante ativo em prol da causa amarela. Como começa sua luta? 
CM -
 Passei por situações de racismo óbvio que eram tratadas como normais. Isso gerava uma aceitação apática da minha condição, como uma doença incurável que você apenas aceita. Para mim, não existia o conceito de racismo com amarelos.

Vivi assim por muito tempo, até começar a ouvir sobre a causa e entender, iniciando meu processo de despertar. Esse despertar foi lento e gradual, cheio de altos e baixos.

Em 2017, fui convidado pelo grupo Yobanboo, formado por três artistas asiáticos brasileiros, para participar de esquetes de comédia que satirizavam e criticavam o racismo disfarçado de apelidos, brincadeiras e estereótipos. Esse foi o início da minha participação na luta, meu entendimento e aprendizado, e meu redescobrimento de quem eu sou, de quem fui e de quem tentei esconder por tanto tempo.

Divulgação

CE - Ao longo de sua vida pessoal, já sofreu algum tipo de preconceito por isso? 
CM -
 Inúmeras. Desde coisas mais "leves" que antes eram tratadas como apenas brincadeiras, até situações mais sérias em relação à COVID-19 e a relação preconceituosa, ignorante e errônea de associar orientais à causa dessa doença. 

Ter outra etnia diferente do padrão branco europeu te deixa cheio de estigmas. Sejam negativos, aos quais você pode ser rotulado e ter que passar por situações em que você é diminuído por isso ou até estigmas positivos, onde se cria uma gigante expectativa em cima de você sobre algo que não necessariamente você tem plenas condições de atender. 

CE - E na sua vida profissional?
CM - 
Pior ainda. Desde situações ridículas até coisas mais sérias, passei por experiências que ilustram bem o racismo que enfrento. Um exemplo: fui a um teste de publicidade e a diretora disse que eu "não era muito japonês" e me mandou para outra sala.

Lá, o diretor disse que eu "era muito japonês". Fiquei confuso e chateado, me sentindo insuficiente, nem japonês, nem brasileiro, nem nada. Hoje, teria respondido a eles e ao produtor de elenco que me chamou.

Sou mestiço, minha mãe é filha de japonês e minha avó é de diversas origens. Meu pai é branco europeu misturado. Metade das pessoas me vêem como "muito japonês", a outra metade acha que não sou "nada japonês". Mestiços no Brasil vivem num limbo, especialmente na atuação, onde já é difícil conseguir papéis para orientais, imagine para mestiços. 

O caso mais grave foi a perda do meu primeiro grande trabalho, uma novela com um personagem que dançava balé. Fui aprovado, tranquei a faculdade e estava pronto para começar, mas mudaram a trama, tiraram o balé e me substituíram por um ator branco e loiro. Foi uma tristeza profunda e entendi que meu caminho seria diferente do dos meus colegas brancos.

CE - De que forma acha que ser amarelo “te diferencia” no mercado de trabalho?
CM - 
Definitivamente não tem ninguém com a minha cara. Se hoje alguém me escolhe, com certeza não será porque não achou outro. Ser amarelo, hoje, é não ser parte do padrão, mas ainda assim poder ser muito talentoso, bonito e tudo mais. Mas hoje né, que, enfim, as coisas estão começando a mudar.

Até um tempo atrás, a diferença mesmo era que eu não ia ter trabalho e meus colegas brancos sim. Acho que outro fator importante é que eu não conheço UM artista amarelo que não tenha se lascado (risos) de estudar para ser bom. Porque não basta ser bonito, até porque ninguém nos achava bonitos até recentemente. Então ou éramos mil vezes melhor que outras pessoas "normais", ou a gente nunca ia pegar um papel. Isso até hoje, pra ser sincero. 

Caio Mutai - Divulgação

CE - Vê algum avanço no mercado considerando o início de sua carreira e os tempos atuais?
CM - 
Muito. Por experiência própria mesmo, na pele. Antes eu era sempre o japonês, o mestiço. Não tinham muitas coisas e era muito difícil ter trabalho no meu perfil. Quando era pra ser o "meu perfil", tinha que aparentar ser mais japonês do que eu sou. 

Hoje eu já tenho no currículo alguns bons personagens, que não foram escritos para serem orientais, mas acabaram sendo por minha causa. Hoje sou tratado como um ator brasileiro que também pode exercer papéis de personagens com ascendência oriental e tenho a sorte de poder ter alguns bons trabalhos por ano nessa linha. 

CE - O que pode contar sobre os próximos trabalhos?
CM - 
Finalizei recentemente a gravação de um curta-metragem do escritor Vitor Rocha e agora está em fase de pós-produção. No próximo semestre começo a rodar um novo filme, esse como protagonista, mas ainda não posso dar muitos detalhes

Para os próximos meses, temos a estreia de “Furnas Fundas”, que tem a direção de Beto Marques e a fotografia brilhante de Paulo Vainer, que fizeram uma linda obra de arte com as cenas dos vampiros.

Em paralelo estou produzindo com mais dois sócios uma peça inspirada no Dorama “Navillera” para o ano que vem, onde estarei como ator também e será minha primeira produção com um elenco inteiramente de amarelos!

E por último, estou trazendo junto de outros dois parceiros, nosso primeiro título Broadway, o musical “Once on This Island”, vencedor de 8 tonys! Esse entrarei como idealizador, ator e tudo o que mais eu puder fazer lá dentro. Vai ser lindo!!

 

 

Astrologia Correio B+

A energia do Tarô da semana entre 14 e 20 de setembro. Período de celebrar as vitórias e esforços

O Seis de Paus anuncia uma semana de vitórias, reconhecimento e confiança para celebrar os frutos do esforço e assumir o próprio valor. Depois de um período de lutas e persistência, conquistas começam a ganhar forma e a produzir resultados visíveis.

13/09/2026 12h00

A energia do Tarô da semana entre 14 e 20 de setembro. Período de celebrar as vitórias e esforços

A energia do Tarô da semana entre 14 e 20 de setembro. Período de celebrar as vitórias e esforços Foto: Divulgação

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Há momentos em que a vida nos coloca diante de uma pergunta aparentemente simples: somos capazes de reconhecer o nosso próprio valor antes que alguém venha reconhecê-lo por nós? O Seis de Paus chega esta semana trazendo essa reflexão.

É uma carta tradicionalmente associada à vitória, ao sucesso e à visibilidade, mas sua mensagem mais profunda talvez esteja menos no aplauso que vem de fora do que na capacidade de perceber, por dentro, o caminho que já foi percorrido.

Na imagem tradicional do Tarô, vemos uma figura que retorna de uma batalha sendo recebida e celebrada. Há ali a sensação de triunfo, de missão cumprida, de algo que finalmente deu certo depois de esforço e persistência.

Mas nem toda vitória precisa ser grandiosa aos olhos do mundo. Algumas das batalhas mais importantes acontecem em silêncio. Podem significar vencer uma insegurança, sustentar uma decisão difícil, abandonar uma dúvida antiga, concluir aquilo que parecia interminável ou simplesmente voltar a acreditar em si mesmo.

É por isso que o Seis de Paus pode falar de reconhecimento, mas não necessariamente de fama. Às vezes, o que chega é uma confirmação discreta: um elogio, uma resposta positiva, uma aprovação, um convite, uma oportunidade ou uma situação que finalmente começa a caminhar.

Pequenos acontecimentos podem adquirir um significado maior quando aparecem depois de um período em que foi preciso continuar sem qualquer garantia de resultado.

Existe, nessa carta, uma espécie de passagem entre o esforço invisível e aquilo que começa a ser percebido. Talentos podem encontrar espaço, projetos podem ganhar atenção e pessoas que vinham trabalhando nos bastidores podem ser chamadas para ocupar uma posição mais evidente. O que foi construído com dedicação deixa de passar despercebido.

Daí a frase que sintetiza uma de suas mensagens: “Seja excelente.”

Não como uma exigência de perfeição, mas como um convite para reconhecer aquilo que fazemos particularmente bem. Ninguém faz exatamente o que você faz da maneira como você faz. Cada pessoa possui habilidades, experiências, sensibilidades e uma combinação de características que não pode ser reproduzida. O Seis de Paus pede que isso seja assumido sem constrangimento.

Talvez você tenha aprendido, em algum momento, que chamar atenção demais poderia ser perigoso. Que era melhor não falar sobre as próprias qualidades, não ocupar muito espaço, não parecer pretensioso. Talvez tenha desenvolvido o hábito de diminuir uma conquista antes que alguém pudesse diminuí-la por você. Ou tenha evitado mostrar determinado talento por receio de provocar inveja, críticas ou desconforto.

O problema é quando a modéstia deixa de ser uma escolha e passa a ser uma forma de invisibilidade.

O Seis de Paus lembra que reconhecer uma capacidade não é o mesmo que acreditar ser superior. Falar sobre o próprio trabalho não significa desmerecer o trabalho alheio. Aceitar um elogio não é arrogância. Existe uma diferença importante entre vaidade e consciência do próprio valor.

A carta também pode nos fazer olhar para a maneira como buscamos aprovação. Ser reconhecido é agradável. Afinal, todos precisamos, em alguma medida, sentir que aquilo que fazemos é visto e tem significado. Mas existe uma diferença entre receber reconhecimento e depender dele.

Quando a autoestima passa a depender exclusivamente do olhar externo, o elogio se transforma em necessidade. Cada aprovação confirma o nosso valor por alguns instantes; cada silêncio pode parecer uma rejeição. A comparação cresce, e até a conquista de outra pessoa pode ser interpretada como uma ameaça à nossa própria importância.

Essa é a sombra do Seis de Paus: transformar a vitória em competição.

A carta propõe o movimento contrário. É possível celebrar uma conquista sem precisar ser melhor do que ninguém. É possível gostar de ser admirado sem transformar a admiração em medida de valor. É possível receber os aplausos quando eles chegam e, ainda assim, saber quem somos quando eles cessam.

Talvez essa seja uma das maiores maturidades sugeridas pelo Seis de Paus: não precisar diminuir a própria luz, mas também não precisar usá-la para ofuscar ninguém.

Na vida prática, a carta pode aparecer justamente quando é necessário ocupar um lugar que já foi conquistado. Apresentar uma ideia, falar sobre um projeto, pedir uma remuneração mais justa, rever os próprios preços, candidatar-se a uma posição, assumir uma liderança ou simplesmente dizer com clareza o que se pensa. Há momentos em que esperar que os outros percebam espontaneamente o nosso valor pode significar esperar tempo demais.

Isso não significa transformar a própria vida em uma vitrine. Significa não esconder aquilo que temos a oferecer.

O Seis de Paus também fala sobre a importância de reconhecer a própria trajetória. Talvez você esteja olhando apenas para aquilo que ainda falta e não consiga perceber o quanto já avançou.

Talvez esteja tão acostumado às próprias conquistas que já não as considere conquistas. Ou tenha colocado a régua tão alto que nenhum resultado parece suficiente.

A carta sugere uma pausa para olhar para trás.

Não para viver de glórias passadas, mas para compreender o que foi necessário atravessar até chegar aqui. Há uma diferença entre acomodar-se diante do que já foi conquistado e permitir-se reconhecer o caminho percorrido. Uma coisa interrompe o movimento; a outra devolve confiança para continuar.

Por isso, esta pode ser uma semana de pequenas vitórias que funcionam como sinais de confirmação. Não necessariamente o grande triunfo que muda tudo de uma vez, mas aquela sensação de que alguma coisa finalmente começa a responder.

Uma porta que se abre, uma conversa que avança, um trabalho que é valorizado, uma oportunidade que surge ou simplesmente a percepção íntima de que uma antiga insegurança já não tem o mesmo poder.

O Seis de Paus nos lembra que algumas vitórias precisam primeiro ser reconhecidas por nós para depois serem reconhecidas pelo mundo.

E talvez seja esse o verdadeiro sentido de “ser excelente”: não tentar corresponder a uma imagem ideal de perfeição, mas levar a sério aquilo que existe de singular em nós. Desenvolver nossos talentos. Dar forma ao que sabemos fazer. Permitir que nosso trabalho fale. E não pedir desculpas por ocupar o espaço que conquistamos.

No fim, a pergunta da carta não é apenas se os outros reconhecem você. É se você próprio consegue reconhecer a pessoa que se tornou depois de tudo o que atravessou. Porque há momentos em que o aplauso mais importante não vem da plateia. Vem de dentro.

No amor, o Seis de Paus traz magnetismo, confiança e reconhecimento. É uma carta que pode devolver entusiasmo às relações e favorecer uma retomada da admiração pelo parceiro e pela história construída a dois. As conquistas de um podem ser motivo de alegria para o outro, fortalecendo a parceria por meio de incentivo e orgulho mútuos.

Também pode haver mais disposição para tornar um vínculo visível, com encontros, convites, planos e demonstrações de afeto. Para os casais, o momento favorece olhar para o que deu certo, em vez de concentrar toda a atenção no que ainda precisa ser resolvido.

Mas o Seis de Paus pede cuidado com o ego. Amor não combina com competição para saber quem recebe mais atenção, quem é mais bem-sucedido ou quem está sempre certo. A carta faz uma pergunta importante: você quer ser admirado ou quer ser conhecido?

A admiração pode nascer da imagem que projetamos; a intimidade exige espaço para mostrar também inseguranças, limites e fragilidades.

Para quem está solteiro, o magnetismo aumenta e a semana favorece encontros, convites e novas aproximações. Alguém pode se interessar pela sua segurança e determinação, e mensagens ou sinais de interesse podem surgir com mais clareza.

Ainda assim, vale não confundir admiração com vínculo: o Seis de Paus pede discernimento para perceber quem se encanta apenas pelo seu brilho e quem realmente deseja conhecer você.

No trabalho, o Seis de Paus é uma carta de reconhecimento profissional. Pode indicar elogios, aprovação de um projeto, retorno positivo ou a percepção de que aquilo que você vem fazendo finalmente começa a ser notado. Para quem trabalhou muito tempo nos bastidores, uma ideia pode ganhar espaço, uma competência ser reconhecida ou uma nova oportunidade surgir.

Por isso, não é hora de esconder o que sabe fazer. A carta não recomenda arrogância, mas também não combina com falsa modéstia. Apresentar ideias, mostrar resultados e defender suas competências não é necessariamente autopromoção: é permitir que os outros enxerguem o que você construiu.

Para quem procura emprego, vale deixar claros seus diferenciais e experiências. Para quem já está trabalhando, pode surgir uma nova responsabilidade, posição de maior destaque ou oportunidade de liderança. E o reconhecimento também traz responsabilidade: quando passamos a ser vistos, nossas atitudes ganham mais impacto.

Liderar não significa centralizar tudo. Saber reconhecer quem ajudou a construir uma conquista também faz parte dela. No ambiente profissional, evite disputas desnecessárias e não sinta necessidade de provar que é melhor do que ninguém. O Seis de Paus lembra que reputação se constrói com consistência. Deixe que o trabalho fale por você.

Na vida financeira, o Seis de Paus fala de recompensas ligadas a esforço, competência e mérito. Pode indicar pagamento, bônus, aumento, novos clientes ou uma oportunidade de melhorar gradualmente a situação. A carta também convida a reconhecer o valor do próprio trabalho: saber cobrar, negociar e apresentar suas competências faz parte de uma troca equilibrada.

Para quem tem um projeto ou trabalha de forma autônoma, é uma boa semana para divulgar o que faz e mostrar resultados. Mas existe um alerta para não transformar a conquista em necessidade de ostentação. Gastar para impressionar ou sustentar uma imagem de sucesso pode comprometer justamente aquilo que foi construído.

Celebre a vitória, mas não precise prová-la.

Na carreira, o Seis de Paus favorece crescimento, reputação, autoridade e maior visibilidade. Ser mais observado pode abrir portas, especialmente para quem deseja uma promoção, uma mudança de área ou o reconhecimento de um trabalho que vinha sendo feito nos bastidores.

Quem busca novos caminhos pode descobrir que não precisa começar do zero. Experiências anteriores, quando vistas sob outra perspectiva, podem revelar competências valiosas. A carta recomenda identificar o que você aprendeu, os problemas que sabe resolver e aquilo que faz hoje melhor do que fazia antes.

Para quem deseja uma promoção, é importante tornar suas contribuições visíveis. Mostre resultados, apresente projetos e fale sobre seus objetivos. Esperar que os outros percebam espontaneamente tudo o que você fez nem sempre é a melhor estratégia.

O Seis de Paus também traz uma mensagem para quem se compara demais. Ele não pede que você vença a corrida de ninguém, apenas que reconheça o caminho que já percorreu. Quando olhamos o tempo todo para quem está à frente, esquecemos de perceber quantas batalhas já vencemos.

Sua mensagem é: continue avançando, mas sem transformar a vida numa disputa.

O verdadeiro triunfo do Seis de Paus não está em convencer os outros de que você venceu. Está em saber que avançou. Aceite os elogios, comemore suas conquistas e ocupe seu espaço, mas não se esqueça de tudo o que existia antes dos aplausos.

Toda vitória tem uma história que não aparece na fotografia.

Talvez a pergunta mais importante da semana seja: se ninguém estivesse olhando, você ainda reconheceria o valor do que fez?

Se a resposta for sim, existe uma força muito mais sólida por trás dessa vitória.

"A primeira e maior vitória é vencer a si mesmo; ser vencido por si mesmo é, de todas as coisas, a mais vergonhosa e vil." — Platão

Uma ótima semana e muita luz,

Ana Cristina Paixão

Gastronomia Correio B+

Cachaça não é tudo igual: de amendoim a louro, conheça 10 versões para harmonizar à mesa

Além do tradicional carvalho, diferentes tipos de madeira influenciam aromas, sabores e características da bebida brasileira

13/09/2026 10h34

Cachaça não é tudo igual: de amendoim a louro, conheça 10 versões para harmonizar à mesa

Cachaça não é tudo igual: de amendoim a louro, conheça 10 versões para harmonizar à mesa Foto: Divulgação

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Você sabia que a cachaça vai muito além da famosa caipirinha? Para ganhar diferentes aromas, sabores e características, a madeira onde fica armazenada a ‘água ardente’ influencia diretamente no paladar e no perfil da bebida.

Em celebração ao Dia Nacional da Cachaça, celebrado hoje 13 de setembro, Delfino Golfeto, cachacier e fundador da Água Doce Sabores do Brasil, revela 10 espécies brasileiras utilizadas no envelhecimento do destilado e indica pratos que podem harmonizar com cada versão.

“A madeira tem papel importante no envelhecimento da cachaça, já que o contato com a bebida pode influenciar a cor, o aroma e o sabor. O resultado varia de acordo com o tipo utilizado, o tempo de contato, as condições de armazenamento, entre outros fatores. Por isso, uma mesma cachaça pode apresentar características diferentes conforme a madeira escolhida e o período de maturação”, revela Delfino.

Amendoim: para um perfil equilibrado

Apesar do nome, o amendoim também é uma madeira utilizada no envelhecimento de cachaça. Considerada uma madeira "neutra", ela diminui a acidez e amacia o destilado sem alterar de forma drástica a cor ou o sabor original da cana-de-açúcar, sendo excelente para coquetelaria. A espécie contribui para uma bebida equilibrada e de perfil mais macio, que pode ser harmonizada com frango assado, carne suína, castanhas, queijos semiduros e sobremesas de chocolate ou caramelo.

Grápia: suavidade com toque amadeirado

Considerada uma madeira neutra a semineutra, ela altera pouco a cor da cachaça, deixando um tom amarelo-palha bem claro, e reduz a acidez da bebida, mantendo o sabor original da cana-de-açúcar com notas suavemente adocicadas. Pode contribuir para as características amadeiradas do destilado, sem necessariamente resultar em um perfil excessivamente intenso. Na mesa, pode acompanhar carnes assadas, queijos semiduros e sobremesas com caramelo, mel ou frutas secas.

Peroba: uma opção pouco conhecida

Entre as espécies menos familiares ao consumidor, a peroba também aparece entre as madeiras utilizadas para armazenamento de cachaça. É uma madeira que confere uma coloração amarelada e um toque sutilmente amargo e seco ao destilado. Ela ajuda a amaciar a cachaça sem mascarar o seu perfil original. Por seu perfil menos explorado, pode ser apresentada em degustações acompanhadas de petiscos, carnes brancas, queijos e pratos de intensidade média.

Louro: aromas que pedem pratos bem temperados

Mais conhecido como tempero, o louro também pode aparecer como madeira utilizada no armazenamento da bebida. Esta madeira transfere para a cachaça notas marcadamente florais e de especiarias, como o cravo-da-índia e canela, além de proporcionar um fundo levemente adstringente e medicinal. Seu perfil aromático pode combinar com carnes de panela, pratos com ervas, feijão, preparos com molhos e receitas tradicionais brasileiras.

Amburana: para quem gosta de aromas marcantes

Uma das madeiras mais conhecidas entre os apreciadores de cachaça, a amburana pode conferir notas adocicadas e de especiarias ao destilado. Ela reduz a acidez e confere um fundo floral e marcadamente adocicado, com aromas que lembram baunilha e canela. O perfil aromático combina com carne suína, costela com molho agridoce, queijos curados e sobremesas com doce de leite ou caramelo.

Bálsamo: intensidade para acompanhar sabores fortes

O bálsamo pode proporcionar características herbais e amadeiradas, de especiarias, como cravo, e uma sensação levemente picante e adstringente ao paladar dando mais personalidade à bebida. Por isso, a sugestão é servi-lo com carnes vermelhas, embutidos, queijos maturados e pratos com temperos mais intensos.

Jatobá: madeira brasileira para bebidas complexas

Conhecido pela resistência de sua madeira, o jatobá também pode ser utilizado no envelhecimento de cachaças. Se trata de uma madeira densa que confere à cachaça uma coloração âmbar ou avermelhada muito bonita e intensa. No paladar, traz robustez com notas que remetem a frutas secas, especiarias e um leve toque amadeirado resinoso. Sua influência pode resultar em notas amadeiradas e especiadas, que conversam bem com carnes assadas, costelas, queijos de sabor intenso e chocolate amargo.

Jequitibá: equilíbrio para pratos delicados

Com influência mais discreta, o jequitibá é uma opção para quem prefere perceber com maior clareza as características originais da cachaça. Há duas versões que podem ser utilizadas. O Jequitibá-branco preserva as características originais da cachaça sem alterar sua cor. Já o Jequitibá-rosa confere uma coloração dourada sutil e sabores macios semelhantes aos do carvalho. Por isso, ambas podem acompanhar peixes, aves, saladas, frutos do mar e queijos suaves.

Freijó: leveza que valoriza o destilado

O freijó apresenta influência mais suave sobre a bebida, contribuindo para um perfil equilibrado. Bastante utilizada na região Norte e Nordeste, funciona de forma semelhante ao Jequitibá-branco. É uma madeira que praticamente não solta cor ou aromas fortes, focando em reduzir a agressividade do álcool e amaciar o destilado, preservando a pureza da cana. É uma alternativa para acompanhar entradas, peixes, frutos do mar, queijos frescos e pratos leves.

Ipê: personalidade para pratos grelhados

O ipê, tanto amarelo quanto roxo, também aparece entre as espécies brasileiras utilizadas no armazenamento de cachaça. Transfere uma coloração dourada escura ou alaranjada à bebida. O ipê amacia consideravelmente o destilado, agregando notas de especiarias e aromas que lembram nozes e castanhas, com um final de boca macio e aveludado. Por seu potencial de conferir maior estrutura ao destilado, pode ser combinado com carnes grelhadas, linguiças, preparos defumados e queijos curados.

Há uma curiosidade na produção da bebida brasileira. O carvalho é o principal tipo de madeira usado no envelhecimento e armazenamento da cachaça, embora seja uma madeira importada principalmente das variedades Carvalho Americano e Carvalho Europeu. Ele lidera o mercado por ser o padrão mundial na maturação de destilados e por agregar notas muito apreciadas de baunilha, coco, mel e caramelo. No Brasil, a castanheira frequentemente é chamada de "carvalho brasileiro", sendo utilizada na produção e trazendo notas intensas de castanhas, chocolate e amêndoas.

“A cachaça é um dos produtos que mais representam a nossa cultura e tem uma diversidade que muitas vezes não é conhecida pelo consumidor. Quando falamos das diferentes madeiras utilizadas em seu processo, mostramos que uma mesma bebida pode proporcionar experiências muito distintas. E isso também abre possibilidades interessantes para a gastronomia, com harmonizações que vão muito além da caipirinha”, finaliza Delfino.

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