O avanço do envelhecimento populacional no Brasil já impõe novos desafios à saúde pública, e entre eles está o crescimento acelerado de doenças neurodegenerativas como a doença de Parkinson.
Dados recentes indicam que o número de brasileiros afetados pode mais do que dobrar nas próximas décadas, levantando uma questão urgente: é possível prevenir ou ao menos retardar o desenvolvimento da condição?
Um estudo publicado na revista científica The Lancet Regional Health – Americas, conduzido por pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, estima que, atualmente, mais de 500 mil brasileiros com 50 anos ou mais convivem com a doença.
A projeção é de crescimento expressivo, ultrapassando 1,2 milhão de casos até 2060.
Embora tradicionalmente associada ao envelhecimento, a doença vai muito além da idade. Trata-se de um processo progressivo e multifatorial, que começa anos ou até décadas antes dos sintomas mais conhecidos surgirem.
Muito além do tremor
De acordo com o Ministério da Saúde, o Parkinson é uma condição crônica e degenerativa marcada pela perda de neurônios responsáveis pela produção de dopamina, neurotransmissor essencial para o controle dos movimentos.
Os sintomas motores, como tremores em repouso, rigidez muscular e lentidão, são apenas a face mais visível da doença. Alterações no sono, no olfato, no funcionamento intestinal, no humor e na cognição também fazem parte do quadro e, muitas vezes, aparecem antes mesmo do diagnóstico.
Para o geriatra Vitor Hugo de Oliveira, essa fase inicial ainda é pouco reconhecida. Segundo ele, o início da doença costuma passar despercebido justamente por não envolver sinais clássicos. “O Parkinson não começa no tremor. Há manifestações prévias, como distúrbios do sono e alterações intestinais, que muitas vezes não são associadas ao problema”, explica.
Essa fase silenciosa, no entanto, pode representar uma oportunidade importante. Identificar sinais precoces permite um acompanhamento mais atento e intervenções que ajudam a preservar a qualidade de vida.
Fatores de risco
O desenvolvimento da doença é resultado de uma combinação de fatores. Entre eles estão o envelhecimento natural, a predisposição genética e a exposição prolongada a substâncias tóxicas, como pesticidas e poluentes ambientais.
Esses elementos indicam que o Parkinson não surge de forma isolada, mas sim como consequência de um acúmulo de influências ao longo da vida. Por isso, especialistas reforçam que hábitos cotidianos podem desempenhar um papel relevante tanto na prevenção quanto na evolução do quadro.
Apesar de ainda não existir cura, há evidências de que o estilo de vida pode interferir diretamente na forma como o cérebro envelhece e responde a processos degenerativos.
Como prevenir
Para a fisioterapeuta Jéssica Ramalho, a forma como o cérebro é estimulado ao longo da vida influencia sua capacidade de adaptação. “O cérebro não é estático. Ele responde aos estímulos que recebe, e isso impacta a velocidade com que determinadas perdas acontecem”, afirma.
Uma das estratégias mais recomendadas é evitar a repetição automática de rotinas. Inserir novidades no dia a dia – como aprender algo novo, explorar caminhos diferentes ou vivenciar experiências fora do habitual – ativa áreas cerebrais pouco utilizadas e fortalece conexões neurais.
Esse processo contribui para a chamada reserva cognitiva, uma espécie de “proteção” do cérebro que ajuda a lidar melhor com o envelhecimento e possíveis doenças.
Atividades físicas que exigem coordenação, ritmo e tomada de decisão simultânea são recomendadas para prevenir a doença - Foto: FreepikA prática de atividade física também é fundamental, mas não qualquer movimento. Exercícios que exigem coordenação, ritmo e tomada de decisão simultânea têm impacto mais significativo sobre o cérebro.
Atividades como dança, artes marciais leves ou exercícios que envolvem equilíbrio e atenção estimulam diferentes áreas cerebrais ao mesmo tempo. “O ganho não está apenas no gasto energético, mas na complexidade da tarefa. Quanto mais o corpo precisa se adaptar, mais o cérebro é ativado”, explica Jéssica.
Esse tipo de estímulo é especialmente relevante para os circuitos neurológicos afetados pelo Parkinson.
Outro ponto que merece atenção é a qualidade do sono. Alterações no padrão de descanso podem funcionar como um indicativo precoce da doença.
Distúrbios como o comportamento de sono REM – em que a pessoa realiza movimentos durante os sonhos – têm sido associados a fases iniciais do Parkinson. Segundo especialistas, observar essas mudanças pode ajudar na identificação antecipada do problema.
“O sono funciona como um termômetro do cérebro. Quando ele muda, isso pode indicar que algo já está em transformação”, destaca Vitor Hugo.
Além dos aspectos físicos e cognitivos, a vida social desempenha um papel essencial na saúde cerebral. Interações frequentes, participação em grupos e envolvimento em atividades coletivas estimulam múltiplas funções mentais ao mesmo tempo.
Essas experiências ativam áreas relacionadas à emoção, linguagem, memória e tomada de decisão – um conjunto de estímulos que fortalece o funcionamento do cérebro.
Por outro lado, o isolamento tende a reduzir esses estímulos e pode acelerar perdas funcionais. “As relações sociais são um dos estímulos mais completos que existem, porque envolvem diferentes dimensões do cérebro ao mesmo tempo”, afirma Jéssica.
Pós-diagnóstico
Quando o Parkinson já está instalado, o cuidado contínuo passa a ser determinante para a qualidade de vida.
A presença de cuidadores qualificados pode ajudar a organizar a rotina, reduzir riscos e manter a independência do paciente pelo maior tempo possível.
Adaptações no ambiente doméstico, estímulos cognitivos e acompanhamento próximo são estratégias que auxiliam no enfrentamento das limitações impostas pela doença.
“O cuidado vai além da assistência básica. Ele envolve estímulo constante, respeitando as capacidades de cada pessoa”, reforça a fisioterapeuta.
A consultora Gabriela Rosa ao lado do professor João Braga em evento na capital paulista - Foto: Arquivo pessoal
Professor João Braga - Divulgação
Gabriela Rosa - João Braga em evento na capital paulista - Divulgação


