As crianças passam o tempo todo vasculhando o ambiente em busca de novidades. “Mamãe! Eu vi um homem de uma perna só! Por que ele tem só uma perna?”, gritou o meu filho de três anos, enquanto eu escolhia legumes em um hortifruti perto de casa. Nem olhei para ver quem era, apenas expliquei, falando baixinho: “Ele é uma pessoa com deficiência. Às vezes, as pessoas nascem com uma perna só, às vezes, têm uma doença ou sofrem um acidente e perdem uma perna...”
Ficamos constrangidos quando as crianças pequenas falam alto e chamam a atenção de todos em volta com uma pergunta ou um comentário nem sempre simpáticos. Em vez de tentar proibi-los de dizer o que vem à cabeça, é melhor começar ensinando uma regra básica da boa educação: falar baixo.
A nossa atitude de responder em tom reservado, falando baixo, é um sinal de que certos assuntos merecem cuidado. Mesmo tratando-se de crianças pequenas, nem todo aquele que é apontado compreende a curiosidade e o espanto diante do diferente. “Mãe, por que aquela pessoa é marrom?”, indagou uma menininha na rua. É natural que queiram uma explicação para tudo o que estão descobrindo. “Tia, olha para trás e me diz o que é aquilo no nariz daquele homem”, pediu outra garotinha dentro de um ônibus. Era uma verruga imensa, me contou a tia, que não sabia o que fazer diante da insistência da sobrinha.
Precisamos explicar às crianças serenamente sobre uma pessoa com deficiência ou com alguma característica física incomum, para que todos sejam encarados com naturalidade. Em pleno desenvolvimento da linguagem, elas também aprendem a decifrar códigos de comunicação. Os símbolos que encontram nos pisos dos estacionamentos e nas portas dos sanitários ganham significado. Diante de uma porta com uma caveira indicando alta tensão, esse meu menininho concluiu: “Ali é um banheiro só para piratas, né?” Fez relação com o símbolo para os deficientes.
Enquanto os piratas fazem parte do universo infantil, a criança ainda está descobrindo a diversidade das pessoas. No meu colo, na fila do caixa em um supermercado, olhando para um senhor que estava logo atrás com um tampão no olho, o meu filho dispara: “Ele é um pirata?” O homem sorriu e tornou mais fácil a situação: “Não, ele está com o olho machucado e precisa usar um curativo”, expliquei.
Faz parte do educar ensinar que é feio apontar as pessoas, ouvir conversas dos outros, dar palpite quando não foi solicitado, comentar sobre o jeito das pessoas... Mas também é nosso papel traduzir o mundo para as crianças para que elas incorporem as novidades ao cotidiano. Não será tolhendo a espontaneidade delas que vamos ensiná-las a respeitar a diversidade das pessoas.
Dar uma bronca por causa da pergunta pode passar a ideia de que o diferente é ruim. As recomendações sobre as regras de comportamento ganham força porque as crianças são capazes de ler nas expressões faciais o constrangimento dos pais e o mal-estar de quem não gostou de ter sido alvo de um comentário. Com o tempo, vão aprendendo a falar com reservas para satisfazer às suas curiosidades quando estão em público.
Muito bem intencionado, o garotinho de três anos avisa para uma senhora: “Você vai morrer logo! O meu avô tinha o cabelo branquinho assim e morreu”. A mãe não sabia onde se enfiar, mas até a mulher achou graça. É rebolando dentro de cada saia justa que os adultos vão mostrando para as crianças que elas devem conviver em harmonia com o diferente e respeitar todas as pessoas, pois sempre alguma coisa poderá surpreendê-las ou inspirá-las a dizer algo embaraçoso.
Projeto foi idealizado por Márcio de Camillo que assume voz, violão e viola caipira - Foto: Divulgação
Foto: Divulgação/Prefeitura de Maragogi
Fernando Bumlai e Neca Bumlai, que completaram 25 anos de casamento (Bodas de Prata) no último dia 6 - Foto: Arquivo Pessoal
Giselle Rivkind - Foto: André Ligeiro


