Se você abriu o TikTok ou o Instagram nas últimas semanas, provavelmente esbarrou em um vídeo de alguém abrindo uma “hamburgueira” e revelando uma fatia generosa, alta, recheada até a borda e coberta com ganache brilhando sob a luz. As fatias gigantes de bolo viraram febre nas redes sociais e, o que começou como tendência forte em Goiânia, agora também movimenta as feiras de Campo Grande.
No feed, elas aparecem cortadas em câmera lenta, com recheios escorrendo e comentários do tipo “eu precisava disso agora”. Na vida real, a cena é parecida: filas se formam antes mesmo da feira começar, senhas são distribuídas e, muitas vezes, às 20h ou até mais cedo, já não há mais nenhuma fatia na vitrine.
Rafa leva até 150kg de bolo em todas as feirasMais de 150 kg de bolo
À frente de uma das barracas mais comentadas está a confeiteira Rafa, da Rafa Doces. A história, no entanto, começou de forma despretensiosa.
A ideia de vender as fatias nas feiras surgiu depois de uma festa julina em condomínio, quando Rafa comercializou espetinhos, doces e algumas fatias de bolo tradicionais. A tentativa inicial de investir nos espetinhos não avançou, mas um convite para participar de uma feira cultural no Coopharadio mudou o rumo do negócio.
“Perguntei se havia vaga para vender espetinhos, mas já estavam preenchidas. Como ela já conhecia meu trabalho, sugeriu que levássemos bolos”, conta.
As primeiras edições foram de aprendizado. Muitas vezes, metade da produção voltava para casa e era vendida no dia seguinte para amigos e conhecidos, parte também era doada. Persistência foi a palavra-chave até que, na terceira participação na Feira Baobá, no Caiçara, todas as fatias foram vendidas pela primeira vez. “Ali tivemos certeza de que estávamos no caminho certo”, afirma.
Fatias são generosas quando se trata de recheioHoje, Rafa participa de feiras como a do Cophavila (às terças), Coopharadio (1º sábado do mês), Baobá - Caiçara (2ª sexta), Mixturo - Praça do Peixe (2º sábado), Parati (3ª sexta) e Oba - Pioneiros (4º sábado). Em média, levando cerca de 150 quilos de bolo por edição, e tem mais! Para manter a organização e o atendimento de qualidade, agora, são distribuídas senhas e fila preferencial para garantir as gostosuras.
“Sendo bem sincera, ainda não me dei conta da proporção que isso tomou. Sou muito grata a todos que nos procuram e peço desculpas por não conseguir atender todo mundo.” O Top 3 de vendas inclui bolo de pudim, versões com Nutella e Ninho com brigadeiro e morango, mas os sabores afetivos, como ameixa com doce de leite, continuam conquistando o público.
Tradição e reinvenção há 22 anos
Se para muitos a tendência é novidade, para o confeiteiro Ineu Oliveira, vender bolos em feira é rotina há mais de duas décadas. Ele começou por necessidade, para complementar a renda familiar..
Ao longo dos anos, Ineu se especializou em bolos temáticos e artísticos, fez cursos em São Paulo, participou de eventos na Argentina e na França, incluindo a maior feira de panificação e confeitaria da Europa e visitou uma fábrica de chocolates na Suíça para conhecer o processo de produção de perto. Mesmo com toda a formação, nunca abandonou as feiras.
Sabores são os mais variados possíveis mas com o mesmo padrão e qualidade de 22 anos de históriaIneu explica que o formato das fatias generosas, que mal cabem dentro de uma embalagem tipo hamburgueira, ganhou força em Goiânia e foi adaptado por ele ao paladar local. Hoje, atende principalmente as feiras do Jardim Petrópolis, em frente ao aeroporto, e da Vila Jacy.
Segundo ele, o campo-grandense prefere tortas mais úmidas e com recheio generoso. Receitas clássicas, como torta holandesa, Marta Rocha e Red Velvet, passaram por adaptações. No caso da holandesa, por exemplo, a receita original foi reformulada com pão de ló e camadas intercaladas para equilibrar a textura e evitar que a fatia ficasse enjoativa. “Foi uma explosão de vendas”, conta.
O cardápio chega a ter 40 variedades, embora cerca de 20 sejam levadas por feira, em sistema de rodízio.
Entre os campeões de vendas estão Olho de Sogra, Pudim de Leite Condensado, Marta Rocha e Chifon. Ao todo são mais de 300 fatias vendidas por feira.
Mesmo assim, há um limite. “Eu cheguei no máximo que consigo produzir com qualidade e segurança alimentar. Os bolos precisam chegar fresquinhos e geladinhos”, explica Ineu.
“Tipo Tortas de Goiânia”, tradição de família e identidade local
Se a febre ganhou força recentemente, para Joelma Prado ela carrega também memória afetiva.
À frente da Torteria Cidade Morena, ela cresceu dentro da cozinha. “Minha mãe criou oito filhos trabalhando com salgados, doces e tortas. Eu sou a caçula. Desde muito nova exerço com orgulho essa arte herdada dela.”
Nas viagens a Goiânia, ainda jovem, ficava encantada com as fatias gigantes, que lá são conhecidas como “tortas de feira”. A ideia ficou guardada até ganhar forma em Campo Grande.
“Quando vi que em Goiânia as tortas estavam ganhando uma proporção maior, pensei na hora: vou para a feira daqui com tortas doces também.” Joelma começou em março de 2025, na Feira da Vila Célia. No início, o movimento era tranquilo. “O ‘bum’ mesmo foi de uns 40 dias para cá.”
Hoje, atende feiras como Cidade Jardim, Vila Célia, Mixturô e São Bento, com média de 200 fatias por edição.
O sabor campeão? A clássica Morango com Ninho. Mas ela também aposta nas autorais, como a “Eita Pega!”, criada para homenagear o campo-grandense. A receita leva “cachorrada”, doce tradicional do Mercadão Municipal, e ganhou o nome porque, segundo Joelma, “é de tirar o fôlego de tão gostoso”.
A expansão, por enquanto, será dentro das próprias feiras. “Estou aumentando os pontos.”
Febre passageira ou novo clássico?
Seja chamado de bolo ou torta, o fato é que o fenômeno das fatias gigantes ultrapassou as redes sociais e se consolidou nas feiras da Capital.
Tem influência goiana, tem adaptação ao gosto local, tem tradição familiar e tem empreendedorismo que resiste há décadas.
E enquanto os vídeos continuam viralizando, uma certeza já existe em Campo Grande: quem chega tarde corre o risco de encontrar apenas a vitrine vazia.










Reprodução 20th Century / Fox Television
Vilson Galvão e Dulce Galvão / Foto: Arquivo Pessoal
Aline Oliveira Gongalves / Foto: Arquivo Pessoal

